sobre as coisas mundanas

Um olhar desapegado sobre o mundo e os mundanos

Pedro Magyar

"Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo". - Chesterton

DESMISTIFICANDO O ISLAMISMO (PARTE 2)

O islamismo é tratado como uma crença irrefutável no quesito desagregador e destrutivo, sendo usado como argumento para os pretensos intentos de ataques terroristas e "guerras santas". Na verdade, o islamismo é a crença daqueles que prezam a vida e a simplicidade da busca por Deus (Alá), não havendo nada de novo, apenas um reinterpretação das práticas já existentes na época.


isla11.jpg Domínio territorial do Império Muçulmano no Século VIII

A história dos árabes remonta a existência de pouco mais de 300 tribos as quais se localizavam na península arábica, aquelas totalmente dispersas e autônomas entre si. Além do sedentarismo, havia povos nômades, Beduínos, Tuaregs, entre outros, que controlavam as “passagens” no deserto e as rotas comerciais que ali se expandiam, tendo em vista o comércio que se desenvolvia no Mar Vermelho e no Mediterrâneo. A cultura era politeísta, havendo diversas divindades religiosas sendo cultuadas, e o centro de culto era a cidade de Meca, mais especificamente a Caaba, a qual guardava esses ídolos.

Tendo em vista a dispersão tribal e a necessidade de sobrevivência, Maomé foi um visionário político, que de forma estratégica conseguiu unir todas as tribos, criando um Estado central, formando um império, o qual se expandiu e conquistou diversos territórios, inclusive na Europa. Tal estratagema foi baseado nas questões religiosas, as quais propulsionaram a criação desse novo Estado, tornando o projeto de nação em realidade, através da identidade religiosa, a qual reuniu todos os povos em torno de uma crença única, gerando posteriormente a identidade cultural de povo.

Quando o Alcorão estabelece, em diversas passagens, a luta contra o infiel, a destruição daqueles que atacarem o islã, quis fortificar as defesas desse novo império, fazendo com que a religião se tornasse o indutor da luta pela expansão e defesa do novo Estado criado. Nesta linha, surge o conceito de Jihad (empenho, esforço), a luta pela fé. Contudo, essa luta, em um primeiro momento, não é aquela em que há o conflito entre pessoas, e sim a batalha pessoal contra o pecado e o mal próprio, uma expiação a qual nos leva a combater nossos erros perante Alá. Esse conceito foi classificado como Jihad maior, sendo a busca pelo arrependimento e pela misericórdia divina, suplantando o pecado e buscando a justiça.

De outro lado, outro conceito difundido à época foi o do Jihad menor, a qual propugnava pelo uso da força contra aqueles que fazem o mal. Bem, os incautos, ao ler isso, assimilaram o que acontece hoje no mundo, sendo a Jihad menor a justificativa. Porém, esse tipo de conceito é formado por quatro estágios, bem delimitados e calcificados no Século XI, pelo maior jurista muçulmano, Shams al-A’imma al-Sarakhsi. A Jihad, em primeiro momento, deve ser pacífica e passiva, ou seja, os exemplos devem ser a base do combate ao mal. Em segundo momento, a luta deve ser feita através de argumentos, debates e discussões, tudo dentro de parâmetros pacíficos. Passado o segundo, havendo o insucesso, em terceira hipótese, os muçulmanos devem defender a comunidade contra injustiças, havendo união e direcionamento para tal. O último ponto é aquele que há a convocação efetiva para um conflito armado, sob a égide de leis específicas e do escrito no Alcorão, quando a religião estiver ameaçada.

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Essencial que essa ameaça devae vir de fora para dentro, ou seja, quando houver a predisposição de agentes externos em tomar os territórios do império e tentar destruir o islamismo. Exemplo claro de Jihad menor acontecida foram as cruzadas, onde os muçulmanos defenderam o islamismo do ataque do cristianismo bem como seus territórios. O que se prega no Alcorão e o que o profeta falou serviriam, à época, para a integração e defesa do império recém instalado, manutenção da união das tribos árabes em torno de um consenso comum. A Jihad menor tem esse intuito, de preservação, sobrevivência, a qual, hoje em dia, perdeu o sentido fático. Já a Jihad maior é aquela em que traz a evolução espiritual ao muçulmano, é a disciplina de fé para a manutenção de seu estado perante Alá, é uma luta diária e constante, não devendo ser abandonada.

Do mesmo modo, por questões de coexistência, foram traçados ditames específicos em relação às mulheres, as quais se explicam para o momento vivido na construção de uma nação. As invasões dos “infiéis” (estrangeiros que não pertenciam ao povo árabe) geravam mortandades entre os homens que iam à frente de batalha. Isso começou a provocar uma redução populacional masculina, fazendo crescer a prevalência de crianças e mulheres no império. Visto isso, algumas regras de proteção às mulheres foram estabelecidas no Alcorão, para que houvesse um efetivo aumento populacional, afinal, nenhum Estado coexiste sem pessoas. A questão da poligamia gira em torno desse aspecto estratégico, combinando a pregação religiosa como meio de criação de normas imperativas, foi estabelecido por Alá (através de Maomé) que o muçulmano poderia se casar com várias mulheres, uma vez que, biologicamente, enquanto a mulher gesta um filho a cada 09 meses, o homem pode, se quiser, gerar um descendente a cada dia.

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O combate ferrenho ao adultério também gira em torno desse aspecto, sendo a carga de proteção muito inflexível, gerando as figuras mais desatualizadas na atualidade, a burca e a cobertura do corpo até a canela. Contudo, à época, tais situações eram justificadas pela necessidade de garantia da paternidade (saber que o filho é seu), para que se mantivesse a perenidade da família patriarcal. Esclarecendo sobre o apedrejamento, para que se efetive, é necessário, além da acusação do marido, o testemunho de quatro pessoas (como descrito no Alcorão) que tenham presenciado o ato. Não podem ser três ou duas, o número é de quatro, para que o juiz do caso possa avaliar a realidade dos fatos apresentados. Caso se verifique que os testemunhos não se coadunam, o marido acusador e as testemunhas são punidos severamente, tendo a mulher o direito de se divorciar e se casar novamente. Obviamente que, hoje, o apedrejamento, ou qualquer castigo físico que levem à morte, é prática inexplicável para os padrões de modernidade e pela evolução do direito no mundo.

A contrário senso, o próprio livro sagrado não fala sobre o apedrejamento como punição ao adultério, havendo uma pena diferente, conforme a 4ª Surata, 15ª Ayat: "Quanto àquelas, dentre vossas mulheres, que tenham incorrido em adultério, apelai para quatro testemunhas, dentre os vossos e, se estas o confirmarem, confinai-as em suas casas, até que lhes chegue a morte ou que Deus lhes trace um novo destino". Ademais, em outra passagem, era prescrito o castigo da chibata para os adúlteros, mulheres e homens, conforme descrito na 24ª Surata, 2ª Ayat: "Quanto à adúltera e ao adúltero, vergastai-os com cem vergastadas, cada um; que a vossa compaixão não vos demova de cumprir a lei de Deus, se realmente credes em Deus e no Dia do Juízo Final. Que uma parte dos fiéis testemunhe o castigo". A necessidade de punição se justificava diante do nascimento de uma nação e, já os excessos (apedrejamento até a morte) decorrentes das interpretações extremadas, não possuem finalidade alguma além de demonstrar poder. E quem dirá hoje, nem o excesso, nem a chibata se explicariam diante da evolução humana!

Outro ponto atual, o qual é divulgado em demasia, diz respeito à divisão dos muçulmanos entre Xiitas e Sunitas. Além do Alcorão, existem outras bases de fundamento para o islamismo, como a Sharia e a Suna. A primeira diz respeito ao direito aplicado nas sociedades muçulmanas, principalmente naquelas em que não há separação do Estado e a religião. Assim sendo, a Sharia é o direito baseado no Alcorão e na própria Suna. São essas as fontes legais e normativas do direito islâmico, formando a Sharia. Já a Suna é o compilado de relatos ligados diretamente à vida do profeta. Em árabe, Suna significa caminhos trilhados, é a indicação de que é o conto de sua vida e seus feitos. Também é chamada de "Tradições do Profeta", revelando as falas, atitudes, pensamentos do pregador islâmico. O fundamento da Suna é o próprio Alcorão, havendo uma ligação direta conquanto a primeira é o “modo de fazer” do que está escrito no segundo.

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Quando da morte do profeta, se iniciou uma disputa pela liderança do império islâmico, de quem iria se tornar o Califa (sucessor ou representante). Na disputa estavam dois parentes de Maomé, Abu Bakr, seu sogro, e Ali ibn Abi Talib, seu primo. Os muçulmanos que defendiam o califado de Abu Bakr eram chamados de Sunitas, uma vez que seguiam estritamente a Suna e informavam que o profeta, por interpretação desta, havia nomeado seu sogro como herdeiro. Já, os Xiitas, defendiam que seu primo, Ali, é quem foi nomeado pelo profeta para herdar a continuidade do império. O termo Xiita vem de Shi’a ‘Ali (partido de Ali). A grande diferença religiosa entre os Sunitas e Xiitas reside na crença do bada, pelos últimos, onde Deus (Alá) pode mudar suas decisões. Assim, os Xiitas são mais voláteis em relação à interpretação da Suna, havendo a literalidade do Alcorão, quando os Sunitas adotam aquela como meio de crença. Desta forma, a literalidade Xiita traz certo radicalismo, não previsto para os Sunitas. Ao cabo, o sogro de Maomé assumiu o Califado, gerando disputas internas tendo em vista que os Xiitas não aceitavam tal condução.

O islamismo possui fundamentos como todas as outras religiões, com o intento mistificador de Deus e a costura prática de vigências legais para a organização social de sua época. O protecionismo ao sexo feminino é evidente quando era uma necessidade, para a expansão e sobrevivência dos árabes ali instados a se defender, bem como a própria luta contra aqueles que tentavam invadir seu território. Sim, o Alcorão admite lutas armadas e poligamia a fim de se gerar um aspecto de sobrevivência. Um arquétipo de nação foi projetado sob o fundamento religioso, e este foi concretizado. Não diferente das outras, há uma beleza intrínseca nos ensinamentos islâmicos bem como um vaguear espiritual, o qual conduz a fé de todo um povo, em sua maioria consciente da pregação de bondade e humanidade recitadas por muitos anos. Se há interpretações deturpadas, as quais geram mazelas mundanas, não testemunhemos a favor da culpa da crença islâmica professada por Maomé, mas sim indignemo-nos contra aqueles que usam das palavras para trazer seus interesses à superfície, visando à desestruturação e caos. O islamismo é vivo, seus "profetas" é que são mortos!


Pedro Magyar

"Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo". - Chesterton .
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