sobre as coisas mundanas

Um olhar desapegado sobre o mundo e os mundanos

Pedro Magyar

"Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo". - Chesterton

ESCLARECIMENTO SOBRE MARX: ELE ERA CAPITALISTA!

Desqualificam marxistas por estarem insertos na sociedade capitalista atual. Mais que normal um comunista de iPhone ou a esquerda caviar! Quem quer mudar, tem que conhecer e saber o que mudar.


No turbilhão de acusações, batalhas filosóficas, discussões partidárias e bazófias virtuais, surgem aqueles que, de um lado e de outro, desqualificam a tese de Marx apontando seus defeitos, ou projetando atitudes as quais provavelmente ele não teria. É o caso simbólico da frase “comunista de iPhone”.

A grande novidade, ou velha, antes de tudo, é que o grande escritor era um ser humano, como todos os outros que existiram e existem nas curvas do planeta que habitamos. Ele estava submetido às suas vontades, necessidades e ideias no geral, as quais apontavam consequências humanas em seus atos. Sim, ele teve um caso com a empregada, de onde nascera um filho o qual Engels assumiu a paternidade. Humanos praticam atos muitas vezes não aceitos pelas regras morais, e ele os praticou também! Contudo, tais situações não podem ser usadas para desqualificar uma teoria gênese como a que ele redigiu, bem como o pai dela, seria insensatez e burrice. Sobre isso, a leitura do artigo “meus heróis morreram de overdose... e os seus?” poderá elucidar sobre erros humanos e heróis.

A principal acusação a qual mais gera debates é a de que Marx era capitalista! Sim, ele era, e o era com maestria virginal na medida em que, segundo seu pensamento mais arraigado, deve-se conhecer ao máximo o que se quer estudar. A malfadada dialética entra em cena para demonstrar por soma e multiplicação que Marx nutria uma convivência mais que entrosada com o capitalismo e a burguesia de seu tempo. Se assim não o fosse, não existiria teoria marxista sobre a relação humana e o capital.

Para o burguês autor, teoria é a reprodução ideal do movimento real do objeto a ser teorizado, ou seja, é você tirar da realidade vivida o seu movimento, reproduzir a realidade no mundo das ideias. Seria fotografar uma realidade e descrevê-la idealmente, apontando suas características, leis, defeitos e qualidades. E movimento é ser, ou seja, a existência é movimento, ser é movimento, e estes podem ser teorizados, fotografados e descritos. E Marx tirou esse ideário da teoria de Hegel, onde havia expressa vinculação de que o ser é movimento existente pelas suas contradições, e estas que geram a dinâmica desse movimento. O mundo vai por si só, pelas contradições, sem necessidade de empurrão para nada.

Hegel falava sobre movimento do espírito humano (contradições dentro de nós mesmos) enquanto Marx dizia sobre o movimento da realidade material, o dia a dia, a convivência, e o que isso gerava nas pessoas. Para estabelecer uma relação mais prática, as invenções que desenvolveram e evoluíram a humanidade, para Hegel, eram geradas pelos embates internos de seus inventores. Já, para Marx, essas eram produto das contradições do próprio invento observadas pelo inventor.

Para teorizar, deve-se observar o movimento! Como você pode se aprofundar e estudar algo da qual você não faz parte? Como quer que seja traçada uma crítica ao capitalismo, sem estar inserido nele, para todos os fins possíveis, com um olhar apurado para as contendas diárias do que esse sistema, em movimento, produz, constrói e destrói? Qual o teórico que conseguiria explicar as dinâmicas pertencendo a outro tipo de sistema? É o mesmo que querer estudar um vírus não possuindo a amostra do mesmo, e não conhecendo suas características mais básicas, não o olhando por dentro. Marx era sim capitalista, e foi o maior deles na medida em que teorizou o sistema e apresentou suas contradições e benefícios, olhando-o por dentro e lançando para o mundo ideal o funcionamento das máquinas que o alimentam. Sim, Marx burguês e, acima de qualquer outra coisa, um ser humano. De seus escritos, muitas são as percepções fáticas a serem engendradas e pensadas, contudo, há algumas mais centrais:

1) O capitalismo é o sistema mais dinâmico já desenvolvido pela humanidade, e por ter um dinamismo ímpar, é marcado por crises, as quais perfazem seu elemento de construção. Sem crise, o capitalismo não sobrevive;

2) O dinamismo do capitalismo, através da dinâmica de seu desenvolvimento, gera a concentração e centralização (geográfica) do capital, entendido aqui como meios de produção e seu produto, no caso, dinheiro;

3) Conforme se desenvolve e dinamiza, com crescimentos abruptos, mais se potencializa uma criação de riqueza concentrada, com mais baixa distribuição. O capitalismo gera o empobrecimento.

E ele, como experimentador, viveu o capitalismo, inclusive, morrendo na pobreza!

Ser marxista não é querer morrer na pobreza ou não ter iPhone, e sim teorizar e trabalhar a tese da igualdade, ruptura e construção dentro da sociedade em que vivemos hoje. Marx, modernamente, não só teria iPhone como adquiriria sua casa própria e gostaria de ter um veículo para se deslocar. Marx não era burro!


Pedro Magyar

"Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo". - Chesterton .
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