sobre as coisas mundanas

Um olhar desapegado sobre o mundo e os mundanos

Pedro Magyar

"Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo". - Chesterton

JESUS E SOCIEDADE: QUAL É A MENSAGEM?

Superando a religião, Jesus mostrou como a convivência deve se dar no dia a dia, formas tais que permeiam a sociedade e sua dinâmica. Não há como ser humano sem ter empatia, essência intrínseca e natural do ser. Caso contrário a mensagem de Hobbes suplantará nosso próprio entendimento, e seremos todos lobos!


Disse Aristóteles que anthropos physei politikon zoon (o homem é, por natureza, um animal político), estabelecendo nossa característica imprescindível de ser humano, as relações intersubjetivas são o que nos alimenta. E não distante, foi disso que nasceu a sociedade como corpo dinâmico que se conhece historicamente. Em uma apertada síntese, temos os mais diversos pensadores buscando o sentido social, sua gênese e suas consequências. De Hobbes, onde o homem é o lobo do homem, à Rousseau, para quem a sociedade é um pacto social de todos para com todos, inegável que o indivíduo está para a sociedade como a sociedade está para o indivíduo.

O indivíduo só o é diante de outro, ou seja, sozinho não somos nada, não podemos nos enxergar e ver o que somos, afinal, ausente qualquer parâmetro de observação, outro agente observador, sendo assim, a solidão nos levaria a não ter qualquer tipo de referência para que nos olhássemos. Na relação com o outro, nos tornamos “animais políticos” os quais interagem entre si e constroem conjuntamente, sendo o resultado desse soerguimento a sociedade como estrutura viva, que também interage com o indivíduo. Bem, não que a interação seja algo obrigatório, sendo fato discricionário de cada qual, existindo ermitões que transpassam as vias da solidão com seus pensamentos próprios, até que a vida lhes seja ceifada, sem que tenham em mente o que deixaram de viver.

Infalível constatação feita por todos os teóricos sociais, os quais buscaram a explicação da constituição da sociedade, é de que sempre há um interesse comum, de muitos indivíduos, os quais perfazem a proteção para todos, podendo ser a criação de um organismo forte contra ameaças ou até para a dissipação de inconsistências e desigualdades entre os próprios indivíduos que a constituem. Por mais que se tente fugir a essa linha de raciocínio, há um interesse comum que é formador do arcabouço social o qual se vive, seja por motivos econômicos, humanitários, protetivos ou religiosos, sempre haverá uma convergência dos indivíduos ao escopo comum.

Não obstante aos objetivos mais nobres, as sociedades sempre foram nascedouros de conflitos entre os indivíduos, sempre propugnados pelas diversas rusgas que se instalam nos assuntos ou aparências mais controversas possíveis. Qual a sociedade onde não houve qualquer discriminação, imposição, conflito, guerras ou os resultados mais assombrosos gerados pelos atos mais vis do indivíduo sendo humano?! Haveria de se perguntar o porquê de tudo, o ser filosofa consigo, entra em embates com outros e interage com o todo, buscando sempre alinhar o entendimento do porquê de ser o que é. Nesta busca, sempre há a confirmação premente de que a sociedade existe para que haja harmonia e paz, contudo, não é o que se viu e o que se vê!

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Vão mais longe aqueles que incutem na religião as necessidades, explicações e expectativas mais absortas para que tudo seja ótimo e adequado, quando na verdade a religião é uma busca pessoal onde o ser procura se achar diante do inexplicável, do sobrenatural, ou, simplesmente, do porquê está vivendo. É fato que todas as religiões pregadas no mundo sempre buscam por um encontro com deus, ou uma qualidade de vida melhor, até mesmo uma tentativa de explicação mais lógica sobre o porquê estamos e somos neste “plano”! Este texto não trata de religião, apenas explicita a mensagem de Jesus, sobre a convivência humana, a qual se perdeu justamente nos corredores das mil instituições religiosas que se afundam no lamaçal das vicissitudes e vícios humanos, afinal, a religião é construção humana, falhamos!

Quando Jesus expressa o famoso “amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros” (João 13:34), ele não está querendo imbuir um sentimento anímico, que devemos despertar, um amor contemplativo, platônico ou carnal pela pessoa próxima, esse amor que nós conhecemos bem. Aqui se trata da alteridade com a qual devemos enxergar, a empatia básica que o ser humano deve nutrir para poder ter uma convivência minimamente humana! Jesus não fez o que fez rechaçando o diferente, sendo egoísta, praticando bullying, olhando para os próprios interesses e esquecendo daquilo e daqueles que estavam ao seu entorno. Pelo contrário, praticou a empatia todos os dias os quais são relatados na bíblia, dando um aspecto humano para sua passagem entre nós, pré-humanos. É o famoso se colocar no lugar do outro, para que tentemos perceber o que o outro vê e é!

Em outro trecho, novamente, nos apresenta essa visão eloquente sobre a empatia. Quando lhe apresentam uma adúltera (João 8:1-11), lhe questionam sobre o que fazer, afinal, a lei de Moisés determina que ela seja apedrejada até a morte. Sagazmente, a questão que ele faz saltar aos olhos é simples, porém pesada para os conscientes: Alguém aqui não tem “pecado” (falhas) para poder apedrejá-la? (Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela [João 8:7]). E o mais “chocante” da mensagem é que a empatia se dá com os carrascos e não com a vítima! Não houve uma defesa substancial da moça por parte de Jesus, ele não advogou em favor dela estabelecendo as qualidades que ela poderia ter, que errar é humano e que poderiam dar uma chance para ela. Não houve qualquer trabalho de convencimento, típico do comportamento praticado em demasia, o justificar-se perante os outros, mas sim um colocar-se no lugar do algoz e se perguntar, “será que tenho condições de julgá-la e puni-la”? Quantos ficaram para atirar pedra?

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E não é fácil praticar a empatia, afinal, nossos mais aparentes instintos são os mais egoístas possíveis na medida em que a maior parte das nossas atitudes são direcionadas a contemplar nossos interesses, nem que seja aquele pequeno interesse narcísico, onde praticamos um ato para obter algum reconhecimento, por menor que seja a ação. A empatia não é eivada de reconhecimento e sim de contribuição, prática pura, fazer o bem sem olhar a quem! E o amor a ser cultivado é a empatia em seu estado mais puro, conforme declama Paulo, “o amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha” (1 Coríntios, 13:4-8). Todos têm defeitos, que impedem de sermos empáticos, de forma a buscar os ensinamentos de Jesus e de alcançar esse amor pregado por Paulo.

Somos presos em nós mesmos, não trilhamos nossos próprios “eus” para delimitar o que é possível ou não. Reconhecer nossos vícios e fraquezas é o início da prática da empatia para olhar como nos comportamos diante das diversas situações cotidianas, rotineiras, que nos mina e nos torna distante do ser humano. No Oráculo de Delfos, havia a inscrição “conhece-te a ti mesmo”, como forma de desafiar a quem lia para o autoconhecimento, visando à avaliação do que se é para então fazer uma opção pela mudança. E não foi à toa que Jesus disse “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32), afinal, a verdade é saber o que somos, e só assim, caso queiramos, conseguimos nos libertar dos grilhões que nos acorrentam ao que impede à prática da empatia pura, o amor!

Não é à toa que um bom conselho para obter empatia habitual e plena foi dado por Santo Agostinho quando pronunciou “conhece-te, aceita-te e supera-te”. Nesse sentido há o delineamento do processo que se inicia com o auto conhecimento, passando pela admissão do que somos para, ao cabo, superarmos, se assim desejar. Há um apócrifo bíblico, o Evangelho de Tomé, onde se atribui a Jesus a fala “pois aquele que não conhece a si mesmo não sabe nada, mas aquele que conhece a si próprio alcançou também o conhecimento sobre a profundidade do todo”. Conhecendo-nos, podemos nos abraçar e nos superar, afinal, o que enxergaremos pode não ser legal e isso não será fácil de aceitar. Superando-nos, estaremos perfazendo o que é humano uma vez que nossa maior característica é o discernimento e a possibilidade de mudança, praticando a empatia para consigo mesmo e para com os outros, a fim de tornar nossos dias mais palatáveis diante dos horrores mundanos.

Só o fato de procurar a si mesmo já pode ser considerado um avanço na medida em que nos poupa dos vacilos que nos cerca e não nos deixa ser ludibriados com o que não é. Não será fácil, mas vale a pena a busca. Disse Maomé, “quem busca o conhecimento e o acha, obterá dois prêmios: um por procurá-lo, e outro por achá-lo. Se não o encontrar, ainda restará o primeiro prêmio”! Quebremos o axioma Hobbesiano, afinal, a escolha entre ser mais lobo ou mais homem é só nossa, conforme nos ensinou Jesus!


Pedro Magyar

"Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo". - Chesterton .
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