sobre as coisas mundanas

Um olhar desapegado sobre o mundo e os mundanos

Pedro Magyar

"Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo". - Chesterton

DESMISTIFICANDO O ISLAMISMO (PARTE 1)

O islamismo é tratado como uma crença irrefutável no quesito desagregador e destrutivo, sendo usado como argumento para os pretensos intentos de ataques terroristas e "guerras santas". Na verdade, o islamismo é a crença daqueles que prezam a vida e a simplicidade da busca por Deus (Alá), não havendo nada de novo, apenas um reinterpretação das práticas já existentes na época.


Não é de hoje que o entendimento em relação ao Islamismo é deturpado pelas crenças de fanáticos que pregam a destruição e a luta contra outras crenças, sejam elas monoteístas ou politeístas. E tal fato não é só um privilégio islâmico, sendo verificado em outras religiões, principalmente o judaísmo e o cristianismo, que no mesmo sentido tentam debelar as verdades laterais, impondo seus dogmas como únicos aceitáveis ao mundo.

Contudo, o uso da crença, em nível extremo, para causar guerras, sendo os autores o judaísmo e cristianismo, se tornaram fatos remotos quando os acontecimentos remontam à antiguidade e à idade média. Infelizmente, com o islamismo não se está diante de um passado longínquo e sim de uma realidade presente a qual vivenciamos mais pulsante nos dias vindouros, com o delineamento e insurreição de grupos, ou um grupo, específicos que pregam a guerra sagrada. De outro lado, temos a crise migratória que nos apresenta uma realidade religiosa constante que busca se adequar às condições presentes, os imigrantes carregam consigo a cultura religiosa!

isla3.jpg Profeta Maomé

Para desvendarmos o islamismo, necessária a regressão histórica à época de seu nascimento, o ano de 610 d.C. Naquele tempo, haviam duas religiões monoteístas e abraâmicas, por suas origens remontarem à Abraão (Ibrahim), primeiro profeta reconhecido e escolhido por Deus (Alá). Eram o judaísmo e o cristianismo que balizavam os costumes e crenças dos seguidores monoteístas, tendo em comum à verdade de que seus principais profetas, Moisés (Musa) no judaísmo e Jesus (Isa) no cristianismo, foram inspirados diretamente por Ele e que os livros originados de seus ensinamentos, Torá (Taurat) e Evangelho (Injil) respectivamente, são palavras divinas, sagradas e abençoadas.

Segundo a crença islâmica, Maomé (Muhammad ibn Abdallah) é o terceiro e último grande profeta o qual Deus (Alá) inspirou e revelou conhecimentos para a vida humana. Nascido em 570 d.C., na cidade de Meca, foi criado por um tio comerciante e demonstrou ser habilidoso nas questões negociais, fazendo as grandes viagens com as caravanas da família. Em 582 d.C. quando atravessava o deserto da Síria, a caravana foi interpelada por Bahira, um eremita cristão, bem conhecido nas redondezas pelas suas previsões, que vivia no deserto, o qual reconheceu em Maomé o dom da profecia e afirmou que ele era predestinado a ser o último profeta de Deus.

Em 595 d.C. Maomé conhece Kadija, uma viúva de 40 anos que possuía negócios relacionados às caravanas, casando-se com ela. Com regularidade o profeta se isolava nas montanhas para meditar e refletir e, foi em 610 d.C. que, em um desses retiros, na caverna do monte Hira, ele é visitado pelo anjo Gabriel (Jibril) o qual informa que dali em diante revelações seriam feitas e sua missão era recitá-las, divulgando-as ao mundo. Foram 22 anos de revelações (610 – 632 d.C.) que culminaram na escrita do Alcorão (al-Qur’ãn – a recitação), ou Al Tanzil (aquele que vem de cima), sendo considerado, ao lado dos outros livros, a palavra de Alá.

Todo começo é visto com desconfiança, e não seria diferente com Maomé. A cada revelação que Deus lhe fazia, recitando àqueles dispostos a ouvir, era visto com estranheza. No princípio, até os idos de 622 d.C., essas recitações eram feitas em Meca, cidade onde ele vivia. Haviam poucos seguidores, mas o número foi se expandindo até que a crença se espalhou e incomodou os politeístas que viviam ali. Assim, nesse mesmo ano aconteceu o que se chama de Hégira (Hijra), fuga de Maomé para Medina, onde ele conseguiria professar para um público maior, afinal havia conquistado muitos adeptos, sem sofrer qualquer interpelação. Este fato marca o início do calendário islâmico.

isla5.jpg Anjo Gabriel aparece para Maomé

O fundamento da pregação maometana era o de que a vida é uma dádiva divina e não há o porquê o ser humano desperdiçá-la. Eram recitados os ensinamentos passados por Moisés e Jesus uma vez que eram considerados aceitos e delineado que foram realmente trazidos por Alá. Contudo, haviam distorções acometidas destes pelos homens quando das interpretações ou dos entendimentos, havendo a necessidade de repeti-los. Maomé sempre reconheceu os outros profetas e usou da sabedoria instada por eles para recitar, nunca houve qualquer tipo de negação às outras religiões abraâmicas. O ponto nevrálgico da pregação era que ele seria o último profeta enviado por Deus e, após ele, ninguém mais viria para ensinar e recitar. Maomé não praticava milagres, como ele mesmo pregava, sendo que, a interpretação fundamental do islamismo é a de que o único milagre praticado foi a própria recitação da palavra de Alá.

O Alcorão é a junção de todas as recitações feitas por Maomé, não havendo qualquer divisão cronológica. Ele é composto de capítulos (Suras ou Suratas) com versículos (Ayat). Divisão mais moderna é feita entre as Suras que foram recitadas em Medina e em Meca, sendo que as primeiras possuem um caráter legal e social, enquanto em Meca, início da divulgação da crença, há mais questões doutrinais e provas dos sinais de Alá para validar a origem divina da recitação. O Alcorão cita passagens do Torá e do Evangelho e revisita alguns dos pontos ali expressos, como, por exemplo, a história de Adão e Eva que, após o cometimento do “pecado”, são expulsos do paraíso e suportam a maldição lançada por Deus. Maomé explica que após muitas súplicas de perdão, em toda sua generosidade, Alá perdoa-os e não lança qualquer maldição, amando-os mesmo após a prática que os denegriu perante Ele. O livro islâmico também faz inúmeras citações à Maria, mãe de Jesus, sendo tratada com grande ternura pelo profeta, o qual também recita inúmeros milagres do filho dela, predecessor do cristianismo. Os fundamentos recitados, e inscritos no Alcorão, são objetivos e buscam a simplicidade religiosa. Na 22ª Surata, 78º Ayat, é impresso que “Ele vos elegeu. E não vos impôs dificuldade alguma na religião”, estabelecendo que a crença assumida não deva ser um peso, um fardo, uma dificuldade. Para tanto, os fundamentos do islamismo foram calçados e podem ser resumidos em cinco pontos principais, os quais formam toda a base religiosa: Profissão de fé (Shahada), oração (Salat), caridade (Zakat), jejum (Sawm) e peregrinação (Hajj).

Shahada (profissão de fé) – O fundamento é o monoteísmo, existindo apenas um Deus (Alá), e o seu último mensageiro é Maomé. Assim, a profissão de fé é a crença monoteísta e a divulgação das recitações do profeta como sendo as últimas. Os ditos que expressam a shahada são sussurrados no ouvido do recém nascido, logo após o nascimento, e do morto, antes de seu enterro. A divulgação faz parte da profissão de fé, não havendo qualquer invocação da necessidade de imposição da crença.

Salat (oração) – A oração é a devoção à Alá, e deve ser feita cinco vezes ao dia (amanhecer, meio-dia, tarde, pôr do sol e à noite). Pode ser praticada em qualquer local, sempre se direcionando à Meca. Os templos, Mesquitas, são onde os muçulmanos se reúnem para recitar o Alcorão e fazer praticar a oração, culminando em um ambiente de convivência religiosa. Na antiguidade, eram feitas convocações pelos Muezins, guardiões da palavra, os quais subiam nos minaretes (torres ao lado da Mesquita) e clamavam pela presença bem como recitavam partes do livro sagrado. Essa era a forma de chamar os fiéis à oração.

isla4.jpg Mesquita Azul - Istambul

Zakat (caridade) – Maomé sempre pregou sobre o cuidado que se deve ter para com os pobres, marginalizados e menos favorecidos. A caridade para o islamismo não é considerada como uma boa ação praticada pelo homem e sim como um dever, afinal, aquele a quem foi dado mais, por Alá, deverá dividir com aquele a quem foi dado menos, pelo próprio Alá, afinal, o equilíbrio é a essência da vida, devendo haver a partilha e a caridade. Assim, os desprovidos merecem ajuda já que Deus lhe deu mais para que você demonstre seu desapego e seja generoso. A caridade deve ser feita para com os órfãos, pobres, viúvas e endividados. Também, dentro do conceito de caridade, há a prescrição da eliminação da escravidão, seja ela qual for, uma vez que Alá não criou o ser humano para ser escravizado e sim liberto.

Sawn (jejum) – O jejum é visto como momento de purificação e reflexão sobre a espiritualidade do islamismo e o caminho o qual se está trilhando dentro da crença. A reflexão espiritual envolve o pensamento sobre a comunidade e o que falta a ela para ser uníssona em torno de Alá. O ápice do jejum é o ritual do Ramadã o qual acontece sempre no 9º mês do calendário lunar, mesmo mês em que o anjo Gabriel (Jibril) apareceu a Maomé. Durante o dia inteiro deve-se abster de relações sexuais e refeições, sendo que durante a noite se pode fazer uma refeição. O jejum é feito durante todo o mês.

Hajj (peregrinação) – A peregrinação a Meca deve ser feita uma vez na vida pelo muçulmano (homens e mulheres) que possuam condições físicas e econômicas para tanto. Caso sua decisão de peregrinar prejudique a si mesmo ou outrem, você não deve fazer, conforme prescreve o Alcorão. Em Meca há a Caaba, construída por Abraão (Ibrahim) e seu filho Ismael (Ismail), onde está contida a pedra negra, o que representa a aliança entre Deus (Alá) e Ismael, indicando que Alátambém escolheu o povo árabe para ser seu representante na terra.

isla6.jpg Pintura representando a peregrinação e a Caaba

Esses são os chamados pilares do islamismo, os quais balizam a crença professada por Maomé e difundida hoje como a segunda religião com mais seguidores no mundo. Tendo em vista o conceito de objetividade e simplicidade pregado pelo profeta, os pilares não devem representar empecilhos à crença. Condizente com isso, quando questionado sobre a impossibilidade de atendimento a um dos fundamentos, foi expresso, pelo profeta, que: “Tanto o levante como o poente pertencem a Deus e, aonde quer que vos dirijais, notareis o Seu Rosto, porque Deus é Munificente, Sapientíssimo” (2 ª Surata, 115ª Ayat). Não importa as condições, dirija-se a Deus (Alá) da melhor forma possível, aquela que conseguir, que estará crendo do mesmo modo.

O islamismo não prega a destruição ou falsidade de outras religiões, deliberando apenas que o politeísmo não pode ser praticado. Nunca houve ataques diretos aos profetas de outras crenças, uma vez que eles eram reconhecidos e aceitos, bem como citados para a transmissão da palavra. Maomé nunca conclamou qualquer luta armada ou guerra em face daqueles que não creem no Alcorão, pelo contrário, sempre pregou a convivência harmoniosa e a aceitação das pessoas e suas crenças. Há deturpação no que se lê e, obviamente, é inegável que há passagens do corão que falam em guerra ou combates, segregação, castigos físicos, contudo, devem ser interpretados em face dos acontecimentos da época, afinal, Maomé além de profeta era um político hábil que construiu o maior império de seu tempo.

Enquanto a religião cristã na Europa abortava a evolução científica e cultural, o islamismo conciliava-se com esses fatores, e propulsionou o desenvolvimento da cultura por todo o território dominado pelos muçulmanos, inclusive na península Ibérica. Também, o desenvolvimento científico foi combinado com a divulgação da religião. Por exemplo, a medicina dos muçulmanos era mais avançada que qualquer outro povo à época. O que dizer sobre a gênese da álgebra, facilitada pelos números hindu-arábicos? O zero, verdadeira criação muçulmana, o qual revolucionou cálculos!

Se hoje a visão dessa religião é, a contrário senso, de um manual de guerras e impedimentos à liberdade, bem como a destruição da cultura e da ciência, ela parte da cabeça de pretensos califas que a usam para esconder as verdadeiras intenções mundanas, a desagregação e destruição!


Pedro Magyar

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