sobre as coisas mundanas

Um olhar desapegado sobre o mundo e os mundanos

Pedro Magyar

"Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo". - Chesterton

O conto de Jirau: ceifando esperanças

O documentário Jaci - Sete Pecados de uma Obra Amazônica - mostra a ação marcante da construção da usina de Jirau, em Rondônia, e o que esse fato trouxe de bom para aqueles que fazem tudo acontecer. Um distrito acolhedor, que vivencia os problemas mais crônicos desse tipo de obra. Enchentes, ausência de condições básicas de subsistência e falta de bom senso!


jirau1.jpg

Não é visível a realidade instalada no canteiro de obras de monumentos faraônicos, os quais serão erguidos para atender às necessidades mais prementes das sociedades modernas. Sim, sempre há efeitos colaterais que transformam o ambiente e as pessoas, sem qualquer perenidade uma vez que assim que a “pirâmide” é terminada, não se faz mais necessário o canteiro de obras.

O documentário Jaci – Sete Pecados de uma Obra Amazônica, dirigido por Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros, mostra a fiel e cruel realidade que se avizinhou ao distrito de Jaci – Paraná, Rondônia, durante o erguimento da usina hidroelétrica de Jirau, obra prioritária para o governo brasileiro, a qual pretende gerar 3.750 MW para alimentar com energia elétrica os domicílios brasileiros, não em Jaci, afinal ali a energia é precária e não há infraestrutura suficiente.

Foram aproximadamente 20 mil pessoas que, em um movimento pendular, se instalaram no distrito e trouxeram consigo a “fome” de trabalho e a necessidade de sustento para suas famílias, onde elas estivessem, uma vez que os operários que ali foram alocados moram em todas as regiões do país. Os benefícios com que a usina opera para com a região são pulsantes, sendo resumidos às enchentes que deixam todas as casas embaixo de lama, falta de infraestrutura básica mínima, solapamento na passagem dos veículos que fazem parte da obra, destruindo o parco caminho de terra que há (os engenheiros usam helicópteros), afinal, o asfalto é coisa de cidade grande, e as ilusões criadas na mente de cada um que acreditou que ali seria um oásis no meio da selva, onde condições mínimas seriam respeitadas. Sem falar nos acidentes de trabalho que acontecem na barragem, ceifando vidas de operários que estavam ali para ganhar o salário, e não mais poderão contribuir para o sustento da família que aceitou a empreitada. Indenização é coisa de gente rica, que paga advogado.

De outro lado, a burocracia estatal tupiniquim, arrematando as explicações mais pomposas e justas do mundo para se fazer entender no quesito moralizador, criando o problema e apresentando a solução, quando a realidade dos fatos denotam questões outras, que não a possível escassez energética que poderá assolar o país em alguns anos. A falta de comprometimento com o estado mínimo das coisas, delineando as necessidades mais básicas, é visível, tornando risível o papel de autoridades nesse processo de afunilamento da pessoa, do trabalhador e do brasileiro, que acreditou nesse mais belo conto. Rebelaram-se contra as condições de trabalho, o governo fez questão de enviar a tropa de choque para debelar a “selvageria”, você deve agradecer por estar ai trabalhando e não pedir melhores condições.

jirau3.jpg

Foram 03 anos de filmagens (2011 – 2014) mostrando as transformações sociais que se alocaram numa região antes, e agora, desconhecida, no meio da selva amazônica, donde histórias de esforço e vontade próprias são postas à mesa, para que vejamos qual é o custo a ser assumido quando do soerguimento de projetos que atendam a todo o país. Na feição daqueles que estão ali, do pedreiro ao atendente de bar, passando pela prostituta que estimula seus casos a ficarem com a família afinal ali não há nada, enxerga-se o fio da esperança que fez com que houvesse a crença de uma vida, um distrito, uma condição melhor, para si e para todos que ali estão. Contudo, mais uma vez os fatos remontam a dura realidade que por milênios permeia tudo o que é de interesse maior, que não o básico: ao povo nada!


Pedro Magyar

"Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo". - Chesterton .
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Pedro Magyar