sobre as coisas mundanas

Um olhar desapegado sobre o mundo e os mundanos

Pedro Magyar

"Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo". - Chesterton

Por que mãe?

Ser mãe e saber o que se espera disso? Ser mãe e não ter a mínima ideia do que é isso? Hoje a sociedade é coberta por entendimentos construídos com o passar do tempo, os quais, por muito, atravessam qualquer perspectiva do paraíso em que se entrará ao ter um filho, sendo que a realidade é completamente diferente. Sejamos realistas, ser mãe é complicado!


A visão moderna da maternidade é algo incrustado na sociedade há alguns milênios, desdizendo o que poderia ser e não ser diante de um fato tão notório e especial, ser mãe! Foi-nos vendido que tal situação é divina, sobre-humana e necessária, afinal, estamos falando da continuidade da espécie e, por que não, da própria sobrevivência. Contribui para essa visão idealista nosso conceito machista de ver o mundo, o que caracteriza a “utilidade” de ser mãe como uma função específica designada às mulheres, as mesmas que são oprimidas pelo sexismo masculino o qual encontra no ato de ser mãe uma válvula de escape para a justificação de inúmeros atos injustificáveis!

É lindo ser mãe, é o sonho de toda mulher poder ter um filho, a rainha tem que gerar um filho para o rei, se você não for mãe não será feliz na vida, o filho é uma dádiva de Deus, ter filhos é amar a humanidade, não acredito que você nunca quis ter um filho, se você não pode ter filhos acho que ninguém irá te querer, você é fértil graças a Deus, seu filho é seu tesouro, os pais fazem de tudo pelo filho, não importa pense nos filhos, ...

O conto pega em todo mundo, e quando identifica que a situação não é bem essa, gera-se uma opressão desmedida sobre as mães que caem na realidade dos fatos, que veem que o mundo cor de rosa se torna um pesadelo, que choram não sabendo como agir ou o que fazer diante de uma estagnação emocional imposta pela sociedade que pintou, e pinta, a maternidade como o céu na terra.

Comecemos do começo. A gravidez é ato humano, biológico (e não sobrenatural) a qual reveste a mulher de um bombardeamento de hormônios e questões psicológicas, não vistas antes no decorrer de sua vida. Seu corpo muda, suas células trabalham de forma diferente, a aptidão para a sobrevivência é ativada de forma ímpar, a fim de que a gestação seja feita escorreitamente o tempo que tem que durar. Há alterações substanciais no apetite, nas vontades, nas sensações, nos perceberes da vida, você está gestando e para isso precisa estar alerta.

As fotos de grávidas sorridentes são lindas, quando no piscar do flash se rememora aquilo que a sociedade vê, uma grávida que dará a luz para uma família feliz. Contudo, por trás, nos bastidores, há as insônias, enjoos, vômitos, mal estar, coceiras, sangramentos, dores, mau humor, e tudo mais o que uma gestação poderia trazer de estranho, diferente e ruim. Sim, são seres humanos que ainda possuem sentimentos físicos e psicológicos, e não robôs que estão gerando outro robô!

O segundo passo é aquele em que, após a passagem, o crescimento, os inchaços, dores e todo o pacote da gravidez, haverá o parto, seja ele natural ou cesárea, o qual invoca, também, diversas questões novas, as quais, mais uma vez, mexerão em pontos pessoais e íntimos. As dores do parto, tomar ou não anestesia, a sociedade, mais uma vez, impõe paradigmas até para se nascer, tendo que haver uma consonância com o que nos é passado diariamente. Por que o nascimento de uma criança deve ser revestido de dor? Esquece-se, também, que é um procedimento médico, envolve riscos, dores, pensamentos, anseios e o nascimento em si. Muita descarga psicológica e hormonal, está se tirando um ser vivente de dentro de uma cápsula protetiva, a qual por nove meses o protegeu. Quem já viu a ultrassonografia de um aborto, entende do que se fala!

Por fim a tão esperada volta para casa, com sua cria em seus braços. Caras e bocas, sorrisos e fotos, tudo como nunca se esperou ser, expectativas do que acontecerá, de como fazer isso ou aquilo, do que fazer com você mesmo! A criança chora, você não entende, desespero, febre, cansaço, mais dores do pós-parto, mais choro, preocupações, adrenalina, hormônios a flor da pele, discussões, brigas, entendimentos do que seria e não é, e a criança chora! A mãe se sente culpada por não fazer o que é exigido pela sociedade, por não conseguir sorrir, por não sentir tanto afeto assim quando a criança chora em demasia, e sim o desespero de alguém que não sabe exatamente como se portar ou atuar... A culpa consome o desespero de não estar atendendo às expectativas geradas pelos outros, a chance de se ver embriagada com tanto choro, tanto cansaço, dor de espírito.

Vem a pergunta, isso é ser mãe? E a culpa, não posso ser assim, tenho que amar meu bebê, sou egoísta em pensar assim... E tudo volta a ser um mundo de fantasias, com uma música ambiente, ares de praia e um solzinho na cara para enlarguecer o sorriso maroto que é despertado quando elogiam o bebê: Nossa, como ele é lindo, quietinho! E vem o pensamento de que não, ele não é assim, mas tudo bem, fica entre nós apenas.

Ser mãe é legal e um porre, ser mãe é ser guerreira, se atordoar pelo o que mais ama, se entorpecer por aquilo que não se abre mão. É padecer no paraíso, quando lhe venderam que era só o paraíso, ninguém iria padecer! A maternidade é chata, desonesta, fantasiosa e falaciosa. A realidade da maternidade é aquilo que se desconstruiu durante séculos, com a visão bucólica e machista de que ser mãe é tudo de bom, e a dorzinha passa, o importante é que seu filho está bem!

Parabéns a vocês mães, que gostaram e gostam do que vivem e também que odiaram e odeiam o que viram, que possivelmente se acharam ludibriadas. Não sintam vergonha de expressar, tal situação não denota menos amor pelo o que se reproduziu e criou, pelo contrário, a verdade é uma das maiores demonstrações de amor que alguém pode transferir aos outros, afinal, a verdade mais alivia do que machuca, a verdade instrui, mostra e forma!


Pedro Magyar

"Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo". - Chesterton .
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