sobre enxergar de olhos fechados

Que nos caibam óticas perante o que é - e, também, o que se esconde ser.

Jordana Bizarro

Você não precisa de um perfil virtual

Se você dedica seu tempo mais à Timeline do que à sua própria vida, há algo de muito errado acontecendo.


VOCÊ NÃO PRECISA DE UM PERFIL VIRTUAL

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Por Jordana Bizarro

Todos os dias me conecto com o mundo até mesmo antes de acordar. Pipipipi, pipipipi, grita o despertador do meu celular, que não está sequer a um palmo de distância da minha cabeça. Resisto. Pipipipi, pipipipi. Me irrito. Resolvo abrir um dos olhos para tocar a opção Desligar. O sono é tanto que me arde a vista antes mesmo de conseguir enxergar. Sou tão inútil quanto o barulho que me tenta tirar da cama às pressas. Deslizo o dedo, sem querer, para a opção Soneca. Noto o erro. “Putsss...”, resmungo em voz baixa. Eis o primeiro pronunciamento do dia: uma manifestação cansada de tudo aquilo que ainda nem começou, mas já começou mal. Fazendo pouco caso do erro ou aproveitando-o, volto a fechar os olhos como quem se engana que ainda é possível sonhar, torcendo para que aqueles dez minutos restantes pareçam uma eternidade.

Pipipipi, pipipipi. “Agora é sério”, penso ainda antes de qualquer reação. Respiro fundo como quem cria coragem e, agora consciente dos meus pequenos atos, desligo o despertador. Já de olhos abertos, reparo a luz querendo entrar por entre as frestas da janela do meu quarto. Ignoro-a. Recorro, antes de tudo, ao celular (novamente). “Cinco notificações e vinte mensagens!”, parece que só assim o dia me é bem-vindo. Afinal, pareço ter feito falta nessas seis horas de sono perturbado pela ideia de que posso não fazer falta hora alguma. Das cinco notificações, duas se tratam de convites para eventos políticos, os quais não demonstram ter tanta efetividade quanto aparentam. As outras três são comentários: um de minha tia em minha foto, os outros dois, na minha publicação de ontem – que já nem faz tanto sentido hoje. “Ah, pouco importa...”, desanimo. Ao checar as mensagens, - que pena -, noto serem todas do grupo da família. A maioria delas são correntes religiosas, as outras, dos demais familiares repassando-as. Nenhum Bom dia. Nem um.

Deixo o celular de lado encarando que o dia precisa começar. Piso, primeiro, com o pé direito no chão, afinal, com o azar não se brinca. Espreguiço-me de qualquer jeito, caço o chinelo tateando-o com os pés e, ainda sonolenta, caminho até o banheiro. Depois de quase dormir de novo sentada no vaso sanitário, desperto definitivamente. Me olho nos espelho. Encaro feio minhas próprias olheiras e vou me aprontando para entrar no banho. “É jogo rápido”, consolo a mim mesma como quem não pode perder a hora. Não de novo. Durante o banho, meu pensamento já está no guardarroupas. Preciso decidir o que escolher para vestir. Analiso o tempo pela janela. Imagino, imediatamente, aquela roupa preferida. Passada meia hora, bato meu recorde de agilidade no quesito preparação, mas isso não me felicita. O fato de eu ter acordado com saúde não me felicita, minha roupa preferida não me felicita, o lugar para onde vou não me felicita, ainda que ele faça parte de uma escolha unicamente minha.

Resolvo apalpar os bolsos para pegar meu celular e escutar música enquanto espero o ônibus. Ah não, ele não está aqui. Apalpo-os de novo. Enlouqueço como quem perde um membro corporal de vista. Me mutilo de novo – mentalmente, é claro. “Como passarei o dia sem celular? E se alguém precisar falar comigo? E quanto às minhas músicas?”, questiono-me em silêncio.

Com mais pressa do que o tempo, o ônibus me aparece subitamente. Sem escolha, resolvo dar sinal. As portas barulhentas se abrem. “Bom dia!”, cumprimento o motorista que, mesmo depois de me ouvir, continua imóvel, pronto para engatar a marcha e continuar seu caminho. Quase não me ofendo, por que ele responderia? No caminho conturbado para o metrô, reparo nas ruas, me ajeito no banco entre uma lombada e outra. Analiso como as pessoas se vestem logo cedo, no ritmo de seus passos. Descubro lojas que sequer sabia da existência. Me entretenho, finalmente, com aquilo que me é palpável e presente: minha própria realidade. Chegando à aula – desta vez antes mesmo do que o professor -, me acomodo em um dos primeiros lugares da sala, em uma daquelas cadeiras duras e geladas. O cumprimento é geral, a resposta, quase única. Abro meu livro didático, afinal, a prova dele será na semana que vem. Sem tempo a perder, concentro-me no que ele diz, compartilhando daquele universo. Meus amigos começam a ocupar o local aos poucos. Os cumprimentos e novidades do dia anterior me tiram a atenção (não pelo conteúdo, mas pelo burburinho) e resolvo, relutante, me fazer presente também. As conversas, pouco atrativas, me fazem desejar ter aula. Muita aula! Nada ali me interessa tanto assim. Finalmente, eis que o professor entra na sala. Sério, cheio de postura e cerimônias. Procurando por algum olhar atento, encontra com o meu. “Bom dia, Jordana!”, me sorri o professor. Respondo imediatamente (como se a vida me recompensasse a reação esnobe do motorista), celebrando discretamente o fato de ele lecionar o dia todo e, ainda assim, saber meu nome. Direciono-me para frente, esperando que alguma coisa aconteça. A aula começa; os intervalos vêm; resolvo comprar alguma coisinha para comer; volto para a sala; continuo a anotar o que me é ensinado; é hora de ir embora. O professor interrompe minha pressa, logo depois da chamada, sugerindo: “Jordana, podemos conversar um pouco?” Estranho a proposta, mas sem demonstrar, caminho até sua mesa e, sem hesitar, ele começa: “Hoje recebi um e-mail de uma amiga perguntando sobre meus alunos... Ela queria saber qual deles mereceria saber de uma vaga em uma das Redações mais incríveis de se trabalhar. Confesso que não presto tanta atenção assim. Tem uma hora que fica tão automático, sabe?” Concordei com a cabeça, ansiosa para o que viria depois daquilo... “Dessa forma, hoje resolvi que decidiria, por observar, quem seria meu aluno escolhido. Você me pareceu interessada, não desviou a atenção para qualquer outra coisa. Meus parabéns, aqui está o contato dela”, continuou ele, entregando-me um pedaço de papel escrito com caneta preta. Agradeci imensamente com um abraço e segui meu caminho, guardando bem o bilhete.

Ao pegar o elevador, não havia entendido muito bem o que houvera ocorrido. Mas de uma coisa eu estava certa: bem no dia em que me esqueço do celular, sou elogiada por não priorizá-lo durante as aulas. Mais do que isso, sou privilegiada com uma chance de emprego – e dos bons. Ah, e é claro, bem nesse mesmo dia percebo não ter sentido tanta falta dele assim. A realidade precisa ser mais interessante do que aquilo que desejamos que seja real. Caso contrário, de quê nos valeria as relações que construímos, os lugares os quais frequentamos? É como se eu estivesse onde deveria estar, fazendo o que deveria fazer. Tudo isso devido a um reconhecimento que me veio, não por meio de notificações, mas por meio de uma observação humana. De fato, as impressões que criamos nos condicionam a situações desnecessárias. Estar o tempo inteiro conectado nos traz uma falsa necessidade de “estar ali” virtualmente, o que acaba nos desconectando de nosso próprio mundo, daquele mundo que nos reconhece pelo que somos e não pelo que falamos que somos. Naquela aula não fui um perfil, não me resumi a uma ou duas fotos, nem precisei falar minha idade, o local onde moro e quais minhas preferências musicais. Naquele dia, naquele único dia, fui mais do que um avatar online, fui eu mesma. Fui tudo aquilo que não precisa de ferramenta alguma para existir. Fui de carne e osso, sujeitada a sentir tudo o que me é inato e não configurado mecanicamente. Fui aquela que escolheu estudar onde estudara, fui aquela que, mesmo cansada, dedicou um tempo àquilo que realmente nos alimenta: a vida real e não um feed de notícias.


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