sobre enxergar de olhos fechados

Que nos caibam óticas perante o que é - e, também, o que se esconde ser.

Jordana Bizarro

O progresso que impulsiona e cria reféns

Entenda por que você quer vencer na vida e, mais do que isso, que essa é uma imposição cultural.


O PROGRESSO QUE IMPULSIONA E CRIA REFÉNS

Por Jordana Bizarro

Desde cedo somos questionados sobre qual será nossa profissão no futuro. Houve tempos em que ela sequer foi uma ideia, mas, hoje, direciona boa parte de nossos caminhos. Eles são originados de nossas escolhas – que, muitas vezes, nos são impostas. A que nos é mais cobrada se relaciona com o papel social que exercemos, ou seja, o nosso trabalho. Atualmente, já não basta trabalhar. É preciso, também, se especializar na função exercida. Portanto, mais do que aprender o alfabeto ou à soma dos números, somos condicionados à busca incessante do conhecimento por meio de cursos de especialização. Mas o que nunca nos foi dito é que essa “escadinha educacional” não é a única opção a ser seguida para se tornar um adulto digno de condições boas de vida. E mais, a escolha dos caminhos a serem percorridos deveria ser particular e, acima de tudo, facultativa. Até mesmo porque cada indivíduo tem seu tempo de amadurecimento de uma vontade, de uma aspiração. Porém, o que mais se vê são tempos diferentes no mesmo espaço, o que, muitas vezes, se confunde com infelicidade.

Albert deCulot.jpg Imagem retirada do Google Images - Créditos: Albert de Culot

Dentro dessa lógica pronta constroem-se todas as nossas expectativas. Crescemos em escolas que nos estimulam a tirar a melhor nota da sala; passamos por treinamentos e processos seletivos que nos classificam; especializações que nos bonificam e, por último, recebemos o mesmo fim que qualquer outro mortal: a morte. E é exatamente por causa dela que não nos contentamos em vida. Vaidosos e angustiados que somos, criamos formas de burlar os fenômenos naturais, afinal, eles limitam nossa existência. O problema é que nem sempre questionamos o que tem a ver com a nossa existência e o que criamos para elaborá-la. E essa naturalização costuma nos fazer refém daquilo que precisamos encarar cotidianamente.

Quem se preocupa com essas questões é a Semiótica da Cultura, o estudo da produção de sentido em sociedade. E é a ela que devemos essas nossas elaborações herdadas de gerações, as quais nos qualifica como seres com duas realidades, a primária e a secundária. A realidade primária é o mundo biofísico o qual nos origina, a dimensão factual e imutável. Já a realidade secundária é o mundo cultural onde ideias podem se tornar caminhos, e corpos, sujeitos. Na segunda realidade, ou seja, na cultura, descobriu-se quatro raízes comuns a qualquer configuração social. Ou seja, tanto os indígenas quanto os ocidentais partilham de premissas que servem de base para sustentar o todo. As premissas refletem percepções da dimensão natural, do mundo biofísico e se consolidam no cultural. Uma delas é o Jogo.

Sim, é por meio do Jogo que representamos, controlamos nossas necessidades de competição e expansão da agressividade. Ou seja, a quem acredita que o progresso é natural, a Semiótica da Cultura teoriza o contrário. Nós, na verdade, transferimos nossos impulsos inatos para uma dimensão com regras civilizadoras. Esses impulsos - os quais nos leva a agir e disputar - são substituídos por estruturas simbólicas que, cada vez mais, inibem nossas tensões primárias. Quem joga, cria regras. É burlando e seguindo-as que vivemos. Portanto, não tem a ver com seleção natural, tampouco com pré-destinação. O Jogo Cultural, assim como qualquer outro jogo, incorpora competidores, contando com algumas forças civilizadoras como o comércio, o lucro, a ciência, a ordem, [...].

É lidando com a sorte, a busca do êxtase, a competição e a simulação que almejamos um só fim: uma linha de chegada que, cada vez que nos aproximamos, mais se afasta. Ainda que essa seja uma forma eficaz de nos fazer caminhar, interpreta-se – falsamente – que a única forma de fazê-lo é a que aprendemos. E pior: muitos de nós se perdem no caminho por só saber enxergar a meta na frente. É uma questão lógica: o jogo nos faz querer vencer, mas mais importante do que ele, são nossas condições animais, nosso compromisso com a nossa saúde mental e física, o que pouco se respeita quando é dada a largada.

O alerta é simples. Não é porque fomos direcionados a um tipo de jogo que não podemos arriscar outras saídas. Nem todo mundo se encaixa na estrutura do tabuleiro. Nem toda rotina serve para o tipo de vida que o jogador gostaria de levar. Em tempos em que as máquinas chamam mais atenção do que qualquer manifestação humana, se diferencia quem escuta a si próprio e aos outros com um pouco mais de sensibilidade e calma.


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