sobre enxergar de olhos fechados

Que nos caibam óticas perante o que é - e, também, o que se esconde ser.

Jordana Bizarro

O que Are You The One, Tinder e Positivismo têm a ver

Não que Comte, o precursor do Positivismo, esteja errado, mas que nossos corações possam ser poupados da exatidão.


O QUE ARE YOU THE ONE, TINDER E POSITIVISMO TÊM A VER

Por Jordana Bizarro

Falar de relacionamento nunca foi fácil. Se for amoroso, então, nem há o que questionar. Isso porque relacionar-se com o outro é um dos dilemas humanos mais antigos. Quem já esteve de mãos dadas com alguém sabe que não é nada fácil caminhar a dois por um único trajeto. Porém, as tentativas são muitas e, cada uma delas, válidas.

paperman.jpg Releitura de Paperman retirada do blog The Fire Wire. Nela o personagem ilustra a tentativa e o erro.

No entanto, as opiniões não passam de opiniões. Disseminam-se, causam alguma polêmica e só. Nenhuma conclusão é absolutamente adquirida – ainda bem! Afinal, estamos falando de relacionamento, união de pessoas por afinidade e não de encaixe de peças mecânicas para o funcionamento de uma máquina, tampouco de números que se unem para obter o resultado perfeito e imutável. Qual regra caberia aqui ditar? Não há estatística para o que não é exato. É impossível que o comportamento A + comportamento B resulte no acontecimento C. As reações, percepções e atitudes são imprevisíveis – justamente por serem humanas.

Mas não é isso o que se populariza pelas mídias, de forma geral. Baseando-se na característica positivista da técnica, do cientificismo, há quem acredite na matemática do amor. A prova disso está nos milhões de usuários do Tinder, aplicativo que aproxima pessoas por interesses em comum. Não quero (e nem vou) entrar no mérito de questionar a veracidade das informações fornecidas por cada usuário, e nem as intenções de cada um. Mas considerando que a proposta do aplicativo seja o que todos ali procuram, me pergunto onde fica o tempo da conquista, o exercício de erro e recomeço (que nos faz evoluir como seres que aprendem com a dor) a partir do contato com o outro e não com aquilo que se projeta do outro.

Também não fica de fora o reality show americano que estreou no Brasil este ano. Are you the one é o nome do programa que me pegou de surpresa e, inicialmente, despertou interesse. A ideia é simples: há casais considerados perfeitamente compatíveis dividindo o mesmo espaço, mas ninguém ali sabe quem é seu par. O convívio do grupo desconhecido se distribui em provas, festas e, é claro, trocas de afeto por um prêmio: meio milhão de reais. A cada etapa o apresentador revela o número de pares perfeitos formados para cada tarefa seguinte a ser realizada. Normalmente, o número é baixo, o que os faz trocar de par para, justamente, se encaixar na proposta perfeita esquematizada por “lá se sabe quem”. É visível que não funciona. A atração não pode ser codificada. Não há como prever se dá certo. Há casais felizes completamente diferentes. E há casais infelizes aparentemente iguais.

O que quero dizer é que seja pela web ou televisão, não há ferramenta tecnológica que supere aquilo que fazemos de melhor: se relacionar. Isso inclui aquilo que dizemos ser e aquilo que escondemos, o que negamos e exibimos. Por mais que eu encontre características compatíveis com as minhas em um outro rosto maquiado e fotografado, as chances de não dar certo continuam sendo inúmeras - tanto quanto é na vida real. Isso porque as pessoas não criam laços por morarem no mesmo bairro, gostarem de viajar ou assistirem aos mesmos programas de TV. A tecnologia não nos poupa de nada. O buraco é bem mais embaixo.

Apaixona-se pelos erros, debruça-se pelos defeitos. Relacionar-se é, acima de tudo, aprender com nossas escolhas táteis. Em relação ao aplicativo, o que tenho a dizer é que não há tato via web. Não há troca de olhares, não há olfato que consiga sentir o perfume daquela pessoa que passou e quase te levou junto. Já sobre o reality, não há tato previamente profetizado. O que nos atrai em alguém só nós sabemos – e, às vezes, nem nós.

paperman2.png Imagem retirada do Google Images que retrata o encontro dos personagens em Paperman.

As propostas midiáticas podem parecer inofensivas, mas acabam por nos colocar em um lugar confortável, o qual nos condiciona a ideais ou descartáveis ao outro. Essa é uma máscara para não expandirmos nossos próprios conhecimentos a partir do contato com o diferente. E, convenhamos, relacionar-se é mais do que ganhar ou perder.

Não há ideia de ódio nestas palavras, tampouco o ataque a essas formas “distantes” de entrosamento. Mas sim, um apelo para que acordemos diante daquilo que nos submetemos por medo... Do quê mesmo? Nesse aspecto, a vontade de acertar, herdada do positivismo, responde os porquês de recorrermos ao Tinder, Are You The One e tantos outros disfarces que nos transmite segurança. Só um detalhe: é tudo aparência.

"Paperman", o curta-metragem da Disney vencedor do Oscar, ilustra, em pouco mais de seis minutos, metafórica e, – em partes -, literalmente a atração no contexto urbano. Não se trata de romantismo, mas do quanto o acaso pode (ou não) contribuir para acontecimentos atípicos meio à rotina de contratempos. O encontro, as conspirações e pistas frágeis constroem o cenário da narrativa que, imediatamente, nos propõe uma reflexão. Porque, assim como os personagens do curta, não há ninguém melhor do que nós mesmos para escolher por nossas vidas. Confira aqui.


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