sobre enxergar de olhos fechados

Que nos caibam óticas perante o que é - e, também, o que se esconde ser.

Jordana Bizarro

A não ficção do dia a dia

Imagine que sua vida é cercada por uma consciência coletiva criada para substituir consciências individuais. Agora abra os olhos.


A não ficção do dia a dia

Por Jordana Bizarro

Há, no planeta Terra, um tipo de convenção que guia os seres vivos antes mesmo de seus nascimentos efetivos. Essa convenção foi criada e é cultivada – cada vez mais – por uma única espécie de seres, aqueles que detêm o poder do raciocínio, da memória e organização. Esses seres não se diferenciam dos demais na questão estrutural. Isto é, eles seguem o ciclo natural de todos os outros organismos que nascem, se desenvolvem e morrem. Porém, em se tratando de complexidade, A espécie se mostra a mais elaborada, difícil de codificar. Acontece que, para ela, se faz necessária a separação do ser em dois: o social e biológico. O biológico é o elo entre A espécie e as demais. Âmbito no qual se desenvolvem as necessidades básicas que os identifica como bichos ou seres vivos: a busca pelo alimento e reprodução, a conquista de território, entre outras. O social, por sua vez, toma a maior parte do todo e é responsável por dar vida àquela convenção. O social só existe por causa da convenção e, paralelamente, dá sentido a ela. São criações interdependentes.

o-homem-vitruviano1-413x400.jpg O Homem Vitruviano – Leonardo da Vinci

O social é transmitido por gerações dA espécie e, entre alguns questionamentos sobre sua existência, perdura como a arte, o diferencial considerado hereditário. Eis a questão: entendemos a convenção e o social como desassociáveis do ser, como se fosse natural que exista a dependência por uma regra única que nos dite como percorrer os caminhos diversos – que, independente dos destinos, devem ser guiados pelo protocolo. A convenção não é submetida à escolha de cada indivíduo dA espécie, tampouco se adapta às necessidades particulares de cada um.

Entrando em pormenores, a convenção promete um nome a cada indivíduo. Junto dele, vem o tipo de ser vivo que ele será, dependendo diretamente da situação de seu nascimento e do contexto no qual ele se dá. Daí surgem categorias entre os indivíduos da espécie. Elas são várias e, muitas vezes, incorporam lutas entre si com discursos que quando submetidos a reflexões, não passam de mitos ou teorias segregacionistas. Com sucesso, essas categorias dignificam mais ou menos o indivíduo, a ponto de, a ele, esbanjar até recursos para suprir necessidades biológicas ou fazê-los faltosos, inacessíveis. A segunda opção parece trágica, mas é fatídica e, muitas vezes, se justifica pelo acaso ou por manipulações sobrenaturais – o que aqui se esclarece, não é verdade -. A convenção impõe um ritual que separa os seres em fases da vida por maturidade e complexidade. Ou seja, um ser dA espécie recém-nascido não exerce o mesmo papel social que um ser adulto – sim, há uma projeção do aspecto biológico, o qual funciona mais ou menos assim também. Dentro do ritual, os seres seguem as mesmas instruções para... Para quê mesmo? Bem, há muitas finalidades, mas nenhuma se faz lógica o bastante para justificar a adestração a qual tratamos. De qualquer forma, as instruções não são tão simples, afinal, elas sobrevivem a mais de 150 mil anos. Basicamente, elas se colocam como consequentes, ou seja, em caso de perda da instrução um, a três demora mais a acontecer, o que atrasa todo o processo. Isso significa que, além de segui-las, a espécie deve fazê-lo no tempo determinado – sujeito a penalidades e marginalização.

Primeiro, as instruções te fazem acreditar que o mundo se resume no binarismo. Assim, temos o bem ou o mal. E para esses dois extremos, contamos com representantes sobrenaturais que observam todas as escolhas feitas, o que será determinante para o julgamento final. Dentro dessa lógica, constroem-se outros mitos para dar base a toda estrutura que sustenta a convenção, tais como o fato de um indivíduo idolatrar ou não uma filosofia religiosa; decidir ou não por se especializar em uma das ciências e, assim, construir uma carreira; resolver ter ou não uma família tradicional, dentro dos padrões de sexualidade e comportamento estabelecidos. Depois de consolidados nas mentes dos indivíduos dA espécie, esses mitos se encontram no tempo, energia e esforços de cada um para se provarem verdadeiros. Isso significa que, desde a hora de acordar do sono à hora de dormir novamente, a convenção estará ditando as rotinas, estabelecendo metas e prazos, disseminando teorias, concretizando padrões comportamentais, impondo normas e, assim, fazendo-se perfeitamente regulada e reforçada pelos monopólios do poder, bem como um jogo de tabuleiro. Para ordem completa, A espécie tem seus representantes – eles são escolhidos para usar a força e exercer o poder em nome do coletivo.

rato-de-laboratorio1.jpg Imagem retirada do Google

Quando se vê, A espécie já se tornou um tipo de cultura de praga que sai por aí contagiando organismos livres para decidir sobre seus corpos. Com a ajuda da convenção, que se faz presente como uma chantagem mental prometedora do sucesso, os indivíduos vão fazendo de seus papéis, nada mais do que aquilo que já fora previsto gerações anteriores: são superiores e bons aqueles que seguem a convenção, se colocando acima de todos os outros seres que compartilham do mesmo espaço, de todas as outras formas de vida e expressão que dispõem do mesmo direito. O natural é hostilizado e a natureza, fonte de uso e descarte; a liberdade é confundida com poder; a felicidade, com ter.

Já pensou em um documento que você assina sem saber, abdicando de suas próprias cláusulas pelo “bem comum”? Documento esse que justifica a disciplina pela ordem, o que, na verdade, é o caos contido? Agora pare de pensar e continue a fazer o que parou para pensar. O tempo voa!


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