sobre filmes e lobos

Cinema e outras espécies, com um olhar particular sobre esta grande matilha chamada "mundo".

Diego Ribeiro

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Que horas ela volta e a reprodução do estereótipo nordestino

Num filme que se passa num país tão multicultural e numa cidade que foi construida com o suor de milhares nordestinos mostrar que a história de mãe e filha se repetem é querer explorar um padrão já cansado e não condizente com a realidade do nordestino, e também desafiar a inteligência do bom brasileiro.


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Aclamado em diversos festivais dentro e fora do país o filme "Que horas ela volta?" ainda se encontra em cartaz em várias cidades do Brasil, mas será mesmo que vale a pena? O que há de novo na retirante protagonizada por Regina Casé que não houve em outros filmes de mesma temática? Qual a validade do discurso trazido pelo filme?

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Enquanto nordestino, baiano, soteropolitano e habitante recente de São Paulo confesso que assisti esse filme há um tempo atrás com certa inquietude, e assim tardei para expressar o que senti a respeito da obra. Confesso também que posso ser até um pouco rigoroso no texto, mas o filme tão elogiado e criticado não me pareceu tão digno de destaque.

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A trama inicia trazendo a história de Val (Regina Casé) uma típica imigrante nordestina que se muda de Pernambuco para São Paulo para buscar "melhores condições" para sua família e filha que ficaram em sua terra natal. Com o passar do tempo, da distância e da impossibilidade de retorno Val parece transpor a saudade e o sentimento que nutre pela filha para Fabinho (Michel Joelsas) filho dos seus patrões, o qual é a responsável por cuidar sendo assim uma espécie de babá e empregada doméstica.

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Diante desse pano de fundo o filme já cai naquele velho clichê dos pais ocupados que não cuidam do filho, e da "babá-mãe" vivida por Regina mostrando a proximidade entre os dois. Com o passar de exatamente treze anos a personagem é surpreendida com a notícia de que sua filha irá para São Paulo prestar vestibular, e assim passar um tempo com a mãe que não a vê desde garota.

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Com a chegada de Jéssica (Camila Márdila) à rica casa do Morumbi o filme ganha fôlego. Isso porque a jovem nordestina que nasceu numa geração diferente da de sua mãe onde a subserviência e descaso do Nordeste não estão mais em voga não aceita a condição a qual Val se coloca, talvez em parte por julgar o "abandono" da mãe e outra por achar que esta é apenas um apêndice da casa.

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A partir desse ponto Anna Muylert diretora do longa trabalha com a dicotomia patrão X empregado mostrando a pseudo e fantasiosa relação que o primeiro impõe sobre o segundo, fazendo-o acreditar que ele é da família mas nem tanto. Paulatinamente a trama vai encaixando seus personagens, mas novamente o filme peca quando se tenta retratar o "imigrante nordestino" dando trejeitos e piadas prontas para a personagem de Regina Casé, e a tratando em determinado momento como uma espécie Didi Mocó. Alguém que está ali para fazer rir e nada mais.

Será que o "nordestino" nesse filme precisava ser mostrado nesta roupagem "alegórica"?

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Para quem conhece o mundo afora dos limites da cidade de São Paulo sabe a importância cultural, artística, musical, educacional e também econômica da maior região do país, que de uns tempos pra cá vem se tornando um polo de investimento, fazendo que esse ciclo de imigração fosse interrompido e até invertesse recentemente.

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Desse modo, o que mais me incomodou no filme é o fato da reprodução do estereótipo nordestino e o fatalismo imposto sobre mãe e filha, mostrando inconscientemente que tal "imigração" continua como se as pessoas do nordeste do país ainda não conhecessem métodos contraceptivos e tivessem que levar seus filhos para a terra prometida "São Paulo" a fim de não morrer de fome ou outras mazelas.

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Num filme que se passa num país tão multicultural e numa cidade que foi construída com o suor de milhares nordestinos mostrar que a história de mãe e filha se repete é querer explorar um padrão já cansado e não condizente com a realidade do nordestino, e também desafiar a inteligência do bom brasileiro.

Não foi dessa vez que o cinema "esquentou" regina.


Diego Ribeiro

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