sobre filmes e lobos

Cinema e outras espécies, com um olhar particular sobre esta grande matilha chamada "mundo".

Diego Ribeiro

Gostou do texto?

Confira esse e outros tantos no site www.inspiracine.com.br

Inspira Cine, respire cinema.

Facebook: /inspiracine
Instagram e Twitter: @inspiracine

Família acima de tudo?

O filme deixa claro aquela máxima de que somos produtos de nossa família. Claro que isso não ocorre de uma maneira cartesiana, mas sim mostrando as relações de causa e efeito das práticas dos pais nos próprios filhos. Uma espécie de reflexo ou projeção do que somos e queremos nos outros.


maxresdefault (1).jpg

Ovacionado em diversos festivais e tendo como parte da equipe os irmãos Almodóvar e sua produtora El Deseo, o filme "O clã" traz aquela dose de brutalidade cinematográfica anual argentina que tem nos acostumando mal, ou até bem eu diria, com filmes predecessores, como "Relatos Selvagens", " O segredo dos seus olhos", etc.

0013313233.jpg

"O clã" conta a história da nada convencional família Puccio, uma história real que chocou o país porteño na década de 1980. À primeira vista, o que se pode chamar de família tradicional: pai, mãe e filhos, mostra-se como uma organização ainda mais estruturada e inteligente, uma gangue destinada a sequestrar pessoas e fazer disso a principal renda dos Puccio. Bem tradicional, não é mesmo?

Com o desenrolar da trama vamos ficando ciente sobre o papel de cada um nesta linha tênue e perigosa, entre família e crime: o pai Arquímedes (Guillermo Francella) é o grande cabeça das operações e comanda sua família com mãos de ferro, doutrinando os filhos para as atividades criminosas e os fazendo uma lavagem cerebral diária. Alejandro, vivido por Peter Lanzani, é o filho mais velho da família e o que mais sofre entre aceitar ou relutar a postura do pai. O irmão caçula é Maguila (Gastón Cocchiarale) que ao descobrir o "negócio" da família irá, inicialmente, tentar escapar dele. Lili Popovich encarna Epifania, a matriarca da família, e choca o público por tamanha frieza e falta de empatia. Ela sustenta a imagem da Família "margarina, pois não questiona o marido em nada e se mantém tranquila todo o tempo mesmo, sabendo o que se passa dentro de sua própria casa.

el_clan_still.jpg

Além da família, Arquímedes conta com velhos amigos da época da ditadura que o ajudam nas operações de sequestros, mostrando o quanto a organização criminosa estruturou-se naquela época, espalhando o terror na sociedade argentina. Não basta a matriarca, outro fator culminante em "O clã" é a frieza do pai. O patriarca da família é um homem desprovido de qualquer sentimento e/ou escrúpulos. Salva-se, nesse ponto, sua família, mas ainda assim é um cara simples sem maiores extravagancias. Seus atos são "justificados" no decorrer da narrativa como um meio de preservar e cuidar de sua esposa e filhos.

clan.jpg

O espectador mais atento logo notará que não é o dinheiro que move Arquímedes, e sim uma espécie de raiva que ele nutre pela "nova argentina" pós-ditadura, em que os militares não tem mais prestígio, onde o capital internacional e a crise eminente favorecem algumas poucas famílias. É uma raiva que consome o patriarca da família e o faz praticar os sequestros; um sentimento de ter sido posto de lado pela sua idade, inoperância e desimportância, assim, buscando uma compensação no crime.

eca9f3_el_clan_goya.jpg

O filme deixa claro aquela máxima de que somos produtos de nossa família. Claro que isso não ocorre de uma maneira cartesiana, mas sim mostrando as relações de causa e efeito das práticas dos pais nos próprios filhos. Uma espécie de reflexo ou projeção do que somos e queremos nos outros. O filho mais velho, Alejandro, compadece o público que vê no personagem um ser humano dividido entre o amor pela sua família e por sua mulher; e para piorar, o temor ao pai, que o mantém perto como refém psicológico, ameaçando-o e o chantageando das diversas formas para que o rapaz continue a o servir em suas atividades ilícitas.

el_clan_.jpg

O longa brilha e irradia qualidade com sua trilha sonora, suas tomadas bem feitas, seu roteiro preciso e suas atuações impecáveis. A forma como o bem e o mal, família e crime, sequestradores e reféns, convivem em cada cena dão um frio na barriga do público e faz com que o cinema inteiro fique imóvel e inerte, esperando atentamente cada próxima reviravolta.

1165.jpg

"O clã" mostra que, por mais que seja difícil admitir, a família não deve estar acima de tudo. Há padrões, valores, e sentimentos que temos que buscar desenvolver estando inserido em um seio familiar ou não, que nos fazem pertencer a uma sociedade, a sermos seres sociais e não está a margem causando mal a terceiros. Um presente argentino para 2015 que mostra como os lanços sanguíneos podem ser, literalmente, sanguinários e nocivos a toda uma sociedade quando uma família está alicerçada no crime, na desonra e na pura maldade.

Só ou com seu clã, não perca este grande filme que se destaca no cinema latino-americano e mundial.


Diego Ribeiro

Gostou do texto? Confira esse e outros tantos no site www.inspiracine.com.br Inspira Cine, respire cinema. Facebook: /inspiracine Instagram e Twitter: @inspiracine.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Diego Ribeiro