sobre resiliências e mares

Porque resistimos mesmo que distraídos

Sophia Rocha

Reservo-me o direito de ser ampla. Eu contenho multidões. Eu e Walt Whitman.

A mística feminina e o Feminismo distorcido

É preciso parar de colocar as mulheres em sacos com rótulos de "mais feministas" ou "menos feministas" devido às escolhas, opiniões, hábitos e valores diferentes. O Feminismo se estende às necessidades culturais e éticas específicas, por que ele não vai se estender a você? Uma reflexão acerca dos escritos de Betty Friedan em A Mística Feminina. Sobre ser dona de casa e ser feminista. Sobre ser mulher, e isto bastar.


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Infelizmente, o feminismo sempre foi vítima de pessoas que o tomam nas mãos para lhe dar uma forma completamente distorcida e distante do real propósito e conceito. Entretanto, não sei o que é pior: o feminismo distorcido ou a completa falta dele, principalmente quando a atitude blasè vem das próprias mulheres. Com isso, eu quero dizer que acho que o sentimento feminista é inerente à mulher, num maior ou menor grau - todas as mulheres deveriam ser feministas.

Ora, uma das definições do Feminismo é a busca da compreensão da desigualdade, examinando os papéis sociais das mulheres para responder questões como a construção social do sexo e gênero. Foram os movimentos feministas que fizeram campanha pelo direito das mulheres de votar, de ocupar cargos públicos, de ter salários justos - ou a igualdade de remuneração - de ter propriedade, educação, de obter contratos, dos direitos iguais dentro do casamento, licença maternidade, entre outros. Além deste conceito universal, o movimento tem criado outras formas de Feminismo, que atendam necessidades éticas e culturais específicas, e não somente as de um mundo ocidental, branco e de classe média.

O feminismo também têm trabalhado, ao longo dos anos, para promover a autonomia e a integridade física, a fim de proteger as mulheres e crianças de estupro, assédio sexual e violência doméstica. Por causa disso tudo é que eu não entendo quando uma mulher olha para mim e diz que não é feminista. A mesma mulher que tem um cargo excelente numa empresa renomada, a mesma mulher que dirige, vota, que é protegida por leis para as mais diversas circunstâncias de sua vida. Porque este movimento é feito para ela, para mim, para todas nós. Porque é uma boa causa pela qual lutar, sempre. E todas nós usufruimos os resultados ao longo dos anos. Os movimentos feministas são considerados como uma das principais forças por trás de grandes mudanças sociais históricas. Como uma mulher, depois disso tudo ser conquistado, depois de diversas mulheres terem lutado em seu lugar, afirma-se não feminista?

1971BettyMarch.jpg Betty Friedan liderando um grupo de manifestantes do lado de fora de um escritório provisório do Congresso americano em 1971.

Recentemente, li o best-seller "The Feminine Mystique" (A mística feminina), publicado em 1963 pela feminista, pensadora e escritora americana Betty Friedan. No livro, Betty compara a ocupação de uma dona de casa com os campos de concentração nazistas, tamanho é o inferno relatado por algumas mulheres. A ideia soa exagerada. No entanto, a comparação não é feita para criticar um estilo de vida, muitas vezes escolhido e vivido em sua plenitude de contentamento por muitas mulheres. Baseado em relatos reais, diversas entrevistas e anos de pesquisas, o livro critica uma cultura machista que pressiona a mulher a cumprir o papel que lhes é imposto, através da educação e doutrinação feminina, mas tudo isto é visto com normalidade pela própria sociedade.

Neste processo, o qual a autora chama de "crescente desumanização", muitas mulheres acabam por tornarem-se um conceito mistificado e glorificado da dona de casa, que vive em função dos outros e jamais para si mesma. Uma gradual perda da identidade feminina que é desperdiçada para servir ao outro. A dona de casa, aqui, é a completa anulação de si mesma. Ela não vive, ela cumpre um papel. Não é surpresa o fato de que o livro ganhou notoriedade em muito pouco tempo e estremeceu a sociedade machista norte-americana da época.

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Para perceber melhor esse processo, e suas consequências sociais, a autora afirma que a "domesticação e infantilização da mulher" afeta não somente a saúde física e mental feminina, mas também os valores e conceitos do universo feminino, qua passam de uma geração a outra. A autora aponta que após a Crise de 1929, e o período pós-Segunda Guerra, esse conceito foi reforçado e estimulado, através da mídia - que pregava como ser uma dona de casa perfeita, criando mulheres frustradas que desenvolviam diversos distúrbios psicológicos, oscilando desde a depressão até o consumismo - condições consideradas, até hoje, como sendo fenômenos naturais femininos e, tristemente, tratados com um ar cômico.

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Nos conflitos raciais, políticos, sexuais e de gênero dos anos 60 e 70, Friedan emergiu como uma das vozes mais poderosas do mundo, lutando pela reforma de leis opressivas e visões sociais que restringiam as mulheres. Seu livro deu início ao movimento que, para a questão dos gêneros, seria o equivalente e tão significativo quanto o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, liderado por Martin Luther King, Jr.

Conhecedora de inúmeros relatos anônimos e, sobretudo, testemunha de diversas circunstâncias nas quais as mulheres eram abusadas física e psicologicamente, exploradas e jogadas ao lugar mais sombrio de uma sociedade discriminatória e preconceituosa, Betty foi fundadora e primeira Presidente da Organização Nacional Americana para as Mulheres, em 1966, e não teve medo de ser a voz que levou temas demasiado polêmicos para a época como o direito ao aborto, igualdade de salários, oportunidades de promoção e licença maternidade aos ouvidos de uma sociedade extremamente machista.

0220_friedan.jpg Betty Friedan

Mas, Betty Friedan, mesmo que sempre impassível na sua luta para igualdade de gêneros, famosa pela sua personalidade difícil e temperamental, insistia para que as mulheres agissem com bom senso. Pedia para que não usassem as mesmas armas do machismo, para que não fizessem do movimento uma forma de repressão aos homens, os quais deveriam ser vistos como aliados e não inimigos. "Uma mulher não deve esperar ter privilégios especiais apenas pelo fato de ser mulher, mas ela também não deveria se ajustar aos preconceitos e discriminação voltados contra ela", disse.

betty_friedan_cc_img.jpg Betty Friedan

A escritora insistia, também, que a figura do marido era aliada, e que o conceito de família não deveria ser rejeitado. Por isso, Betty foi considerada uma feminista burguesa pelo grupo mais radical do movimento. "Não entre na onda de queimar sutiã nem de ser anti-homem", disse numa audiência para jovens femininas em 1970. Em Agosto do mesmo ano, Friedon iniciou o famoso "Women's Strike for Equality", no qual conseguiu reunir 20 mil mulheres, em New York, que pediam a igualdade de oportunidades para as mulheres em postos de trabalho e educação. As manifestantes e organizadores do evento também exigiram o direito ao aborto e à criação de centros de acolhimento de crianças, a criação das creches.

Sobre este movimento, que teve manifestações em todo o país, Betty incentivou todas as mulheres de uma nação a levantarem-se pelos seus direitos. Salientou que "as mulheres reagiriam de formas bem distintas: algumas não iriam cozinhar naquele dia, em protesto, outras teriam que se envolver num diálogo honesto com os seus maridos, algumas estariam às ruas na manifestação. Outras, estariam escrevendo um plano que iriam ajudá-las a se envolverem com o movimento e a definir onde elas queriam chegar. As mulheres estariam fazendo suas próprias coisas à sua maneira."

atahualpa_header_2.jpg Betty Friedan no "Women's Strike for Equality", em Agosto de 1970, Nova Yorque.

Concordo que houve - e ainda há - a doutrinação feminina, mas também, dentro desta sociedade que pratica esta doutrinação, existe um grupo de mulheres que, absorvendo o conceito amplo do feminismo, segue com suas vidas por essas vias da dona de casa, por livre e espontânea vontade. E qual o problema, se nesta realidade encontrarem segurança, prazer e bem-estar? O que Betty defendia era a liberdade com a qual a mulher deveria escolher como viver a própria vida, fazendo suas próprias escolhas e trilhando seus próprios caminhos - sejam eles ser mãe, esposa, dona de casa, sejam eles outros quaisquer. Mas, dizia que a mulher deveria viver suas próprias escolhas, e não cumprir um papel que lhe foi imposto.

Recentemente, a jornalista e escritora Chitra Ramaswamy publicou um artigo no jornal britânico The Guardian, no qual alfinetava o manifesto de Betty Friedon e discorria sobre adorar ser dona de casa e que isto não lhe tirava a condição, e o direito, de ser feminista. Concordo. E Chitra usa o termo "dona de casa" em seu mais amplo significado: limpar a casa, cozinhar, fazer as compras, saber onde está o aspirador de pó. Providenciar, enfim, todo o cuidado que um lar exige - para além do conforto que o marido e filhos esperam ter no ambiente caseiro. E sim, isso tudo, ela adora e faz com orgulho. Assim como outras tantas milhares de mulheres que adoram ser donas de casa e são felizes. E daí, ela diz: "eu não sou menos feminista por causa disso".

c513c733-8ae4-46f8-85be-1e869ad84eed-1020x612.jpeg Photograph: Alamy

Assim como Chitra, muitas mulheres - ao lado de seus maridos - escolheram viver apenas do salário deles para que estivessem a tempo integral a cuidar da casa e da família. E não há absolutamente nada de errado com isso. E essas mulheres continuam a ser mulheres, tanto quanto aquela que brada aos quatro ventos que é livre, independente e desempedida para seguir o caminho do sucesso. Qual sucesso? O seu, o meu ou o da vizinha? É preciso parar de colocar as mulheres em sacos com rótulos de "mais feministas" ou "menos feministas" devido às escolhas, opiniões, hábitos e valores diferentes. O Feminismo se estende às necessidades culturais e éticas específicas, por que ele não vai se estender a você?

E Betty Friedan, mesmo ao criticar compulsivamente o modo de vida imposto às mulheres, soube discernir umas questões de outras, de maneira muito relativa, sobre o que é viver uma imposição e o que é viver uma escolha - e saber lidar com as consequências dentro de uma sociedade machista. Ela também nos ensina sobre o que é o movimento feminista e o motivo pelo qual ele existe. Para ser feminista e lutar pela causa, não necessariamente é preciso estar à margem da sociedade, ou não casar nem ter filhos porque ser mulher é "muito mais que isso". O meu feminismo pode até ser diferente do seu, você pode até não entender minhas opiniões, mas isso não faz de mim menos feminista do que você, e vice-versa. Porque esse sentimento é tão inerente a mim quanto o é a você. Porque há muitas mulheres no mundo e é preciso entender que nem todas as opiniões estarão em sintonia. Entretanto, é certo que num determinado ponto, todas se identificam e se unem. Assim como a jornalista escocesa, eu sou dona de casa e esposa, e quero ser mãe. E continuarei sendo feminista à mesma maneira. Porque ser feminista é pura e simplesmente ser mulher. E basta.


Sophia Rocha

Reservo-me o direito de ser ampla. Eu contenho multidões. Eu e Walt Whitman..
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