sobre tudo sobretudo.

Estudante de Psicologia. Aspirante das artes e de tudo o que é sentido. Até do mundo.

Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável"

O heroísmo dos atos publicáveis

O amor era impublicável, e a melhor forma de expressarmos o que sentimos. Até que o homem o substituiu pelo heroísmo. Que é uma necessidade, e não uma verdade.


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Era o amor o ato impublicável, até que de supetão tornou-se mais bonito na mais improvável de todas as vias: Os olhares de terceiros. A expressão do amor ou da cumplicidade aumentou a noção de compatibilidade entre as pessoas num nível que é antes de tudo, mais narcísico do que outra coisa.

O casamento híbrido entre dar e receber, no momento histórico e de produção em que vivemos, tornou-se a noção reforçada de que é mais saudável amar se os outros puderem ver. A couraça do mundo social torna hoje com as necessidades comerciais e a inclinação de viver também virtualmente, todas as nossas relações muito diminutas. Pois o homem além de tratar grande parte da vida como trata o trabalho e aquilo que consome, se viu no compromisso de ser melhor nas funções que seus eletrônicos e recursos não podem possuir, e esqueceu- se é que algum dia já soube- que é normal não ser " a referência" de tudo para todos. do-amor-virtual-ao-real.jpeg

Dessa forma, tentamos sobretudo no amor, impressionar a quem esteja olhando. Continuo não sabendo se o amor publicado hoje seria uma verdade somente cinematográfica/teatral- mesmo ainda se tiver poucos espectadores- pois ora essa, o prestígio essencial não deveria ser entre os dois? Como entender um sentimento que protagoniza duas vidas num evento particular, e interessa mais à uma plateia que está ali sem precisar? Ou ainda: Haja tela/palco pra tanto!

Outra indagação é: Por quê um romance só é bonito quando dramático ou catastrófico? É crível que esses solavancos emocionais experimentados, sejam águas das caudalosas fontes da vaidade. Elas servem os sedentos de hoje pelo heroísmo- embora falso- que desenha o homem nesse intuito de fazer com que a sua história surpreenda aos outros. Isso vale tanto para aqueles que se colocam apenas à procura de histórias que pareçam-lhes uma nova guerra entre Capuletos e Montéquios, quanto para aqueles que tentam infinitamente figurar os novos Romeu e Julieta.

Ao homem em geral e à sua atitude de pseudo shakespeariano da era do curtir e compartilhar, o melhor aviso, tomaria forma de algo que ele mesmo fala: O momento atual não permite que estejamos seguros daquilo que sentimos. Mas tonou-se regra, que antes mesmo de sabermos, podemos deixar que o outro saiba à guisa de aprovação. Exatamente o que fazemos com aquilo que produzimos.

O mais sensato a fazer, é pelo menos deixarmos de pensar que um romance iniciado em boteco ou mesmo na escola é por algum motivo menos bonito ou valoroso do que todos os outros. Afinal, até mesmo o próprio paradigma sobre o qual vivemos admite isso, pelo fato de nenhum romance ser insosso se o sal é a gosto. E principalmente, porque nem o comércio por si só dá conta de fazer a vitrine muito mais interessante do que a experiência.


Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável".
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