sobre tudo sobretudo.

Estudante de Psicologia. Aspirante das artes e de tudo o que é sentido. Até do mundo.

Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável"

As Larissas de quem falamos e uma reflexão sobre a colcha de retalhos

Ao rastro da ignorância que a comoção seletiva deixa, num caminho que é percorrido por muita gente. Sobre a moeda da vaidade humana e todo o declínio, marcado pela invisibilidade de outrem.


Em primeiro lugar, é preciso dizer que esse texto se estende à crítica de um comportamento social do ser humano, e está longe de ser uma maneira de criticar a surpreendente atuação da atriz Grazi Massafera como a ex-modelo usuária de crack Larissa na novela Verdades Secretas- que mereceu todo o reconhecimento envolvido.

Este escrito, é sobre o ser humano e a sua mania de escolher por raça, beleza, prestígio e status de quem sentir compaixão nas horas de derrota do outro. Ou será, que a gente não ouviu ninguém por aí dizer que “Larissa era tão bonita! Tinha um futuro pela frente! Por quê é que foi cair nas drogas? Uma moça, bonita... Bonita.. Bonita. Tão jovem.

Até quando a gente quer falar de tristeza, é tempo de comentar a beleza. Parecemos viver num tempo em que a aviltante forma com que discutimos vidas que não são nossas, vem aos nossos olhos como uma capa das mazelas do mundo, quando na verdade, elas são o interior.

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Essa mesma ignorância que romantiza sofrimento na nossa arte, é a ignorância de apelar pro estético, quando queremos representar o real. Ora se tivéssemos o prazer de poder bater no peito pra glorificar a arte em todas as suas formas, e dizer que ela é só verdade, por sublimar o agressivo e contido do homem, esqueceríamo-nos das Larissas, mas também das Joanas, dos Pedros e do mundo real que a arte quando é das inconsistentes, esquece de contemplar.

As Larissas e as pessoas de quem falo, não são todas ex modelos, brancas, jovens e bonitas. Mas todas são humanas, e têm futuro. Que apenas talvez não seja como o futuro que imaginamos pra Larissa personagem de Grazi Massafera, até que a trama tivesse fim. O que já revela uma boa parte do que vem a ser a colcha de retalhos. A colcha de retalhos é uma conotação pra maneira como passamos o tempo. Ora dia bom, ora ruim. Sucesso e insucesso num grande par antitético que é mais costura do que outra coisa mesmo. Porque é impossível que nunca haja falhas . A colcha de retalhos, é o nosso tédio cínico que faz ignorar as coisas ruins quando elas não acontecem com pessoas que salvaríamos por algum motivo. E não seria audácia alguma salientar, que mais comumente esses motivos são de identificação.

É a nossa estranha forma de presumir destinos e inferir possibilidades em vidas que não são nossas, e o que é pior: de formas diferentes baseadas na fantasia acortinada pela hipocrisia. É o nosso "achismo" ou pensamento infundado que fica evidente nos pequenos rastros da ignorância. É fundirmos realidade só em beleza.

É a imagem, o pensamento ou a atitude disforme das "pessoas de bem" que gostamos de ser chamadas, afinal as nossas boas ações "alcançam a quem é possível alcançar".

E como fica, se alguém disser que isso é vaidade? O narcisismo das massas, aparece também na solidariedade e principalmente quando essa é direcionada.

Isso é também sobre a esperteza de escolher a forma mais conveniente da criatividade escudada da ideologia, pra representar a história. E, depois de toda essa descarga de crueldade, enfatizar o olhar que estendemos.

A questão é: ora essa, se não pudéssemos ser vaidosos a ponto de nos considerarmos o esboço da humildade propriamente dita, poderíamos até culpar outras pessoas, mas aí não nos caberia a posição de identificação com uma figura justa. A via que a demagogia ganha é nada mais do que uma tentativa falha de conectar-se com o exemplo de uma imagem justa.

Sugestão óbvia: A tentativa de conectar-se por identificação com a imagem divina.

Eis que essa tentativa, por mais falha que seja calhou de ser usada pela grande maioria das pessoas.Desde então,a comoção seletiva, é sair pela tangente quando a gente sabe que tem muito mais coisa pra ser vista.

Se pudéssemos pensar e contabilizar de quantas outras formas degradamos a nós mesmos, ainda assim, essa tarefa de representar é do sublimato . Mas esse, por sua vez, está indefectível das marcas da desigualdade, pois vivendo socialmente, tem-se a vaidade numa moeda que circula não só pela beleza física,também pra buscar afirmar a “bondade” que o ser humano nunca teve. E assim faz-se espaço pra imbecilidade da comoção seletiva se perpetuar.

É portanto através principalmente da futilidade, que o ser humano consegue atingir aos seus altos níveis de imbecilidade. A nossa própria colcha de retalhos, é por fim um instrumento. Colcha mesmo, sabe? Mas como toda colcha, ela serve pra cobrir alguma coisa. Nesse momento, é o preconceito dos recortes que fazemos na realidade, achando que a linha com que se costura, melhora alguma coisa além de aparência.

E que vejamos as Larissas negras, as pobres, as desabrigadas, as velhas e não só as Larissas. Mas também as Joanas, os Pedros e todos mais que a colcha de retalhos por vezes não nos deixa ver.

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Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável".
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