sobre tudo sobretudo.

Estudante de Psicologia. Aspirante das artes e de tudo o que é sentido. Até do mundo.

Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável"

Afinal, o que há entre aquilo que preciso e aquilo que quero?

Uma leitura psicanalítica do que impulsiona uma jovem a questionar-se sobre a "cara" que o desejo tem.


Reza a lenda, que o amor nos movimenta. Uma ressemantização do amor, à luz da Psicanálise em Lacan, é a de “dar aquilo que não se tem, àquele que não é”. Mas de que amor é possível falar senão o romântico? Pois bem, o amor em Psicanálise, nunca o é. Se nem o eu, furta-se de relacionar o momento de amor ao objeto, e o autoerotismo com a satisfação das pulsões ao momento de sua formação egoica , esse amor de que falamos não pode ser puramente uma elaboração romântica shakespeariana, e sim a denúncia de algo que elabora uma ponte para o outro. O amor vem a ser um recurso para uma formação estrutural, e é outrossim uma das vias pelas quais o narcisismo transita na formação do eu.

Destarte o narcisismo, não é coisa alguma senão o meio pelo qual reconhecemo-nos na relação com o outro. Esse mesmo narcisismo de que falamos- por ser encomendado através do outro- intrigara a uma jovem aluna de um grupo de estudos em Psicanálise que lera o texto freudiano de Introdução ao narcisismo e surpreendentemente, em um dos encontros resgatara uma verdade encoberta que calhou de ser comentada. Mediante a oportuna exemplificação de que o amor em Psicanálise vem a ser algo muito além de uma inspiração poética conforme a intelecção que se fez em discussão do texto, tão logo lembrou-se de um momento ao lado do pai, aos seis anos de idade, em que questionou-o sobre o por quê de não dar a ela uma boneca que havia visto e queria muito. Ele, em uma postura decidida, respondera: “Filha, dou-lhe tudo de que você precisa. Você não precisa dessa boneca agora.”. A jovem devolveu-lhe a inquietação com o argumento, que mal sabia ela, era o mais legítimo possível para um ser demandante: “É exatamente esse o problema, pai! Você me dá tudo o que eu preciso, e não tudo o que eu quero!” A construção possível é a que admite esse espelhamento antes comentado.ballerina-soosh.jpg A acrescentar, tem-se a ideia de que não raramente o Outro quando ama em demasia a si mesmo (aí sugerir-se o Mito de Narciso, original referência do termo “narcisismo) insiste em nos ver como reflexo dele, e acaba por tentar transformar isso em signo a ser seguido por aquele que oferece-se como objeto. Todo o engodo implicado nessa relação é uma manobra de sujeito que assinala a existência da linguagem, e a sua localização no campo do Outro, mas que denuncia a imposição de um significante como signo e que tenta nos convencer que aquele signo diz respeito à nós. Partindo disso, há um empobrecimento da linguagem do Sujeito, em nome da imagem do espelho, significada pelo signo do outro e que aliena o nosso desejo. Neste insidioso caminho identificados ficamos, e não nos sobra momento para a personalidade própria. É importante observar que o enunciador da recusa no episódio da boneca- recusa essa que aqui pode ser reportada como geradora de frustração, uma vez que para a Psicanálise quando o Outro recusa-se a dar algo de que ele não é privado, chamamos de frustração- é justamente o portador da insígnia fálica.

É curioso, que o pai enquanto esse Sujeito cuja função no complexo edípico é a da inscrição no simbólico e admissão na norma fálica, seja o mesmo ser que na relação demandante não hesite em identificar-se como o principal provedor, que no episódio, pela fala, ganha uma conotação de objeto. O “ lhe dou tudo aquilo que você precisa” ganha numa lógica de identificação do lugar do Outro psíquico, o encaixe nessa posição de portador da insígnia fálica, o que nos remete nada menos do que à um narcisismo. O invólucro do narcisismo, é, por sua vez a relação dual de um sujeito para consigo e seu sentimento de eu, uma vez que a estruturação psíquica, disso depende.

Minha finalização, poderia ser no sentido de: “Afinal, o que há entre o aquilo de que preciso, e aquilo que quero?.” A inscrição na falta muito bem daria conta de contornar a melhor resposta já eleita, para um ser demandante: Há um eu, que não é a sua extensão, tampouco uma réplica sua. Que como Outro do lugar psíquico que te desliza na linguagem, continua a fazer-te perguntar, sem que possa parecer possível de responder, algum dia. A reedição da completude me fará perguntar inúmeras vezes, e eu, bem acossada que estiver pela resolução, como uma garotinha que pede uma boneca, não recebe e não entende o por quê, irei dizer: É fato que o inconsciente não se esgota, e a vontade também não. Essas duas fontes que sugerem a mim uma análise interminável na busca da "cara" do desejo. Desejo que há entre aquilo que preciso e aquilo que quero. Por fim, essas duas fontes são as mesmas a me intrigar por entre pontes de todos os “aquilos” da minha vida.

Imagens por: Sooshobvious.png


Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável".
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