sobre tudo sobretudo.

Estudante de Psicologia. Aspirante das artes e de tudo o que é sentido. Até do mundo.

Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável"

O largo retrato da ansiedade

Manifesto de uma alma inquieta com a pressa do ser humano de ser. Precisamos de tanta ansiedade?


As palavras que por mim deslizam, querem montar o mais expressivo protesto contra o ócio. Mas atrasada na miríade de minutos psíquicos, vesti-me no invólucro da impaciência e atropelei os significantes. Montei então, a ansiedade. Protestar eu podia, mas contra a própria bestialidade de achar que o produto da tristeza era sempre de origem imprestável. O torpor significa o conjunto de horas mais longas que passamos conosco, glorificando o fato de o silêncio existir, mas se enganando sobre tudo estar ridiculamente medíocre. A gente sabe que se não houver o mínimo de ansieade, não levantaremos de nossas camas. O que a gente se esquece muitas vezes, é que a motivação para levantar deve ser a de viver ao nosso modo. O silêncio não é necessariamente a suspensão de desejos e sim, por vezes, o trajeto deles. Só que a gente se esquece disso e também, que capa de herói quem pode usar é personagem de filme. Destarte, a humanidade que parece não perceber o quanto se corola da própria ignorância todos os dias, resolve pintar de quadro em quadro, a angústia. Sem reparar nos detalhes.

As gravuras trazem prédios imensos que nem de arranha céu uma pessoa sensata chamaria, porque pra tocar o céu, tem que ser livre. A liberdade não é o tipo de sopro que se nota numa atmosfera como essa. Existem carros enfileirados nas ruas, com pessoas que parecem estar muito ocupadas sustentando o ardume de terem acordado ou, calcificadas nos números que o relógio da torre traz. Você vai se atrasar, homem! Corre, é pra hoje! Cigarra não se cria em terra de formiga!- diz o cara que não almoça mais em casa, porque as grandes decisões e tramitações do mundo dos negócios precisam ser assinadas e a família pode (e deve) esperar.

A textura dos quadros tem a mesma leveza, que um coração que está cansado de não se encontrar. Ou seja, nenhuma. A profundidade em tela foi pintada pra descansarem das questões interrompidas das quais a humanidade acha que pode se esquecer. Ingênuos, nós. A gente traduz em tudo o que fazemos, aquilo que somos. A aquarela com que decidem pintar, vence a possibilidade de melhorar, com a penumbra. Existiam tons quentes, mas eles não amam calor. Apenas o suportam. O preto e o cinza apesar de não serem cores quentes ou frias (quiçá, cores) sobressaem em nome da neblina que afoga. Quanta pressa a gente serve, na travessa de cada refeição? Você já perguntou ao seu filho se ele teme algo? Será que a mesma desfeita que nos invade, nos iludindo sobre a síndrome de pequeno poder, é a única gravura pras telas que sobram pra serem pintadas? A crítica, a desfaçatez , a ansiedade de ser grande. A verdade-mais-ou-menos-verdadeira de se culpar por uma coisa, enquanto o mundo me pede outra.

Nenhum desses fundos, significa a suspensão de um desejo. Nós precisamos ter calma inclusive com quem somos. Em palavras, estamos embebidos. Confunde-se, porém a cautela e a inutilidade. Tratando como sinônimos, coisas que não se equivalem, todos estamos fazendo da arte de se descobrir um desenho mais cego do que ela costuma ser. Não nos culpemos portanto, por fazer o que é a nossa tarefa de existência. Desejar mesmo que seja o ócio. E principalmente, não esqueçamos: desejo não se mastiga, não se compra, não é homeopático e não se dissolve em água. Bicho-homem, aprenda: você deseja pra existir. A gente engole em seco o que não é remédio. imagem nova.jpg


Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável".
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