sobre tudo sobretudo.

Estudante de Psicologia. Aspirante das artes e de tudo o que é sentido. Até do mundo.

Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável"

A crônica do movimento

A historieta da falsa liberdade humana


Passos de lobo, passos de elefante, o intermediário é no mínimo uma onça. Todos habitando a mesma selva. E eu não estou falando de fauna e de flora mas de um cenário urbano.

É isso o que se vê em espaços de espera e ansiedade, como uma rodoviária. Aqui, ninguém tá tranquilo. Todos aguardam pela ida ou pela volta, de si mesmos ou de alguém. As divergências são apenas horários em que alguns são os primeiros a serem os últimos, outros perdem e outros por conta da estranheza com o local, tratam de insistir ferrenhamente na adaptação.

O objetivo é comum, por mais circunstanciado que seja: movimentar-se. E o engraçado nessa curiosa cena, é que todos ali são por via da natureza muito diferentes entre si, mas pra tentar diminuir a distância, tentam compartilhar os motivos de sua ida ou vinda sempre a desejar que isso seja encarado com muita seriedade e muitas vezes até condolência. Todos se comunicam como se tivessem muita intimidade, desejam coisas a quem nunca viram, compartilham credos, dizeres, aforismos.

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A afobação mútua se desconta por vezes em petiscos, pelo tamanho dos discursos ou os dois em combinação- e quem não gosta de ruminações que se vire com a misofonia. Em se tratando de solidão aglomerada, penso que isso não poderia ser comparado a uma selva vide a força e infalibilidade da cadeia alimentar. Mas a um zoológico, talvez.

Todos presos a diferentes cativeiros, uns mais confortáveis, outros menos, alguns com criaturas mais ativas do que outras. Há coisas em comum embora haja um espectro de diferenças que surgem aleatoriamente e remontam à seleção natural. Sobre o tempo, ninguém nunca tem certeza do quanto esperar ou estar ali pode ser tedioso ou inútil. A gente se acostuma.

Mas uma coisa é certa: Os cativeiros que ali existem são de três tipos: nuns habitam o pesar da saudade e noutros, já a sensação de pertencimento ao que fora desconhecido. Noutros, os dois juntos. Engano exclusivo da nossa espécie, é achar que o poder de transitar faz-nos livres. Design sem nome.jpg


Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável".
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