sobre tudo sobretudo.

Estudante de Psicologia. Aspirante das artes e de tudo o que é sentido. Até do mundo.

Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável"

Donnie Darko, o amor e Marina no Instagram

Donnie e Marina numa nota sobre coisas das quais não podemos culpar ninguém, senão a nós mesmos. Nobody made us do it. We did it. By ourselves.


Janeiro. Calor que não perdoa ninguém nessa terra brasileira. Mas mesmo assim, a gente não com um otimismo de budista mas com a estratégia de escoteiro, consegue achar coisa pra retratar.

De dentro de um quarto com a espera sendo mais um lugar- porque aliás, ela sempre é- o ócio.

Deslizo a tela do celular esperando que o comando de decodificação venha verificar se além de afoita, eu também não calhei de esquecer a minha senha. Que identidade prática, penso.

Mas é porque é 2019. Se fosse 2009 (e a propósito, esse comentário até então nada tinha a ver com o desafio dos #10anos) a gente tava era nem sonhando com conta integrada de Instagram ao Facebook.

E quando for 2029, a gente vai pensar provavelmente com uma boa dose de riso, que era tudo pífio demais antes. A tal da obsolescência nunca desce do trem do tempo. Essa é a lógica de quase tudo e por ela eu também pensei em deslizar os meus dedos pelo Feed de notícias à procura de mais coisas que só fossem novas pra mim até eu me impressionar por outras.

Em se tratando de conteúdo audiovisual e midiático a validade desce pra sei lá, uns 5 minutos- quando cê tá com paciência.

O jogo dos 7 erros. Cê caiu na cilada. Erro1: Não é vício. Só tá aí rolando a tela desse celular porque essa é mais uma de suas maneiras de envolver os dedos, quando o cabelo tá preso em coque e você não pode mexer. É questão de autossuficiência e de evitar o cacoete.

Erro2: Não é isso. Ou não só isso. Você pode estar injuriada porque não há ninguém iniciando uma conversa. E a fita é: tu nem sabe se conversar dessa forma te dá mais sensação de inclusão ou de exclusão.

Erro3: Você não precisa escolher, porque aliás a sensação é fusionada. Você tá inclusa na era digital, de que o mundo participa, na modernidade. No recurso. Até na patota. Porque dá pra trocar memes fingindo que lá fora não tem nada esperando, tranquilamente. E também excluída, reclusa, porque tá privada do tipo de companhia menos abjeta. Do olho no olho, pele com pele. Arrepio com arrepio ou do contato imediato, como proclamaria o Arnaldo Antunes.

Erro 4: Você não precisa escolher. Mas não é só pela causa anterior. Você também não precisa escolher porque isso aqui não é o filme do Black Mirror. Que por sinal, é tão angustiante quanto.

Erro 5: Chega dessa autopiedade moderna. Você não só acostumou a passar o tempo no celular, como também recorre a ele pra fazer uma porcentagem maior do que você admite de coisas. Por exemplo, e um exemplo glorioso: ver Grey’s Anatomy e pensar em soluções para a vida sentimental da Meredith Grey que te causa canseira pela tolice.

Erro 6: Você tá quase. Quase lá. Não desdenhe de alguém por agir como você mesma já agiu em várias momentos da vida. Especialmente quando isso tem a ver com o amor. E não importa se o seu par não tiver nada a ver com o charme de um Derek Shepherd nem com a valentia de uma Arizona Robbins. Nada justifica.

Erro 7: Você chegou. Ou melhor dizendo, parou. É aqui. Instagram, de novo. Já passou tempo desde que você começou a negar que estaria aqui por distração. E que tem vício no pacote.

Marina Ruy Barbosa acaba de postar uma foto. É linda a bicha, tu pensa- que atualmente é a única coisa que todo mundo (ou quase todo mundo) concorda sobre ela.

Atrás dela, de fundo, uma parede em que recosta o corpo na pose. Mas, não é qualquer parede. É uma parede-painel de glamour com um letreiro em luz neon verde, tipo de fachada de loja londrina. Letreiro em que tava escrito: “LOVE MADE ME DO IT”. A procedência, você não sabe.

Só sabe que é genial e que talvez não tenha a intenção de ser mais nada.

50127066_747949048911053_8715831483689892158_n.jpg De repente, outra luz. A da cabeça. É isso! “O amor me fez fazer isso.”

Você tem um insight doido daqueles que queria ter em terapia pra poder honrar a tua trajetória. Mas, é aqui. Na cama. Rolando uma tela de celular. Lembrou-se de que em outra ocasião já tinha lido algo parecido. Algo que tinha a mesma força mas um significado diferente.

“THEY MADE ME DO IT”/ ELES ME FIZERAM FAZER ISSO. Em Donnie Darko, do célebre Richard Kelly. They made me do it, essa sentença que culpa o outro pelos nossos atos.

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Dentre as associações mirabolantes de uma pessoa que não tem medo de excessos- vide à experiência de freudiana declarada- estava situado o amor, e Donnie Darko numa mesma malha articulada. O amor nos neuróticos e o automatismo mental nos psicóticos. O que você ansiava dizer com toda essa balbúrdia é que talvez o amor seja assim, a única coisa tão nossa que ninguém pode assumir. Tão o contrário de They made me do it. Tão o contrário do simplismo da alucinada guru Kitty Farmer. A louca da linha-limite-entre-medo-e-amor em Donnie Darko. Tão o contrário do coelho Frank que ordena a cabeça do Donnie. Amor deve ser essa coisa que exatamente porque ninguém sabe o quanto conhece, ninguém transfere.

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Acho que a Marina nem sabia que tava diante de uma parede não só bonita mas tão plenamente lúcida. Uma parede que enuncia algo tão importante: o amor como laço social de identidade.

Aquela coisa bizarra que me faz achar a Meredith Grey bizarra, sem perceber que eu posso ser mais bizarra ainda.

E se tem um amor aqui que é referência pra vários outros amores que já nutri na vida, é o meu por você, Shonda Rhimes.

Já era hora de falar. Brigada, Shonda. Valeu mesmo.

Você não só me fez admitir o vício que eu tenho nessa sua obra-prima que é Grey’s Anatomy (consequentemente, vício em celular) como também me colocou mais diante de mim.

Um beijo da tua fã que acabou de perceber que deixou de querer ser uma Christina Yang, projeto de autocontrolada autossuficiente que só surta na vida sentimental lá de vez em quando. Porque eu acabo de descobrir que tô orgulhosa de ser Izzie Stevens - total. Em cada suspiro. Em cada célula. Em cada trouxismo. Felizmente eu não posso culpar ninguém pelas coisas que fiz por amor.

They don’t made me do it. I did it. For love. And I’d again.

Júlia,

2019


Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável".
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