sobre tudo sobretudo.

Estudante de Psicologia. Aspirante das artes e de tudo o que é sentido. Até do mundo.

Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável"

Sábado-feira

Sábado é feira. Sábado é mais feira que o resto da semana. Sábado é mais feira que a semana inteira. Em Raul Seixas, a gente lê jornais dizendo que a gente já era. Mas baby... oh, baby, a gente ainda nem começou.


Sábado. Um adorno na semana. Num fevereiro que eu não via a hora de acabar, o limbo de um tédio de esguelha, me fez refletir sobre o tempo e as concessões que faço por pura ansiedade.

Logo eu, que queria saber fazer envelope como gente grande aos sete. Que queria estudar em São Paulo aos quatorze (benzadeus, adolescência) porque achava que podia, não importava quantos ônibus tivesse medo de pegar na minha própria cidade.

Eu, que aos quinze queria fugir pra praia sem me planejar, porque achava que o mar me ajudaria com algumas respostas que a maioria do mundo parecia não ter. Ou pior, não queria me dar.

Ser adolescente é tipo ver um filme do dinamarquês Von Trier com legenda em alemão. Você não entende as coisas e não sabe por quê não entende. Todo mundo parece ter um tipo de código pra conversar e agir, do qual você não manja. E, adivinhe: eles têm. E não traduzem. Porque não te entendem. Ou pelo menos ninguém coloca na sua cabeça que sim.

Eu, que cresci vendo minha mãe tendo turma de janta na quarta e o meu pai jogar bola na segunda, glorificava os sábados porque sempre tive que esperar por eles. Aliás, tudo parece uma espera quando você tem escola. Intervalo. Sinal. Fila indiana de cantina ou de saguão.

“Na faculdade, eu vou ser dona de mim igual aos sábados. Vou fazer só o que eu gosto. Vou fazer o que eu sempre quis. A álgebra vai ser exilada da minha vida. Eu nunca mais vou ver um shorts de educação física daquela lycra deprimente. Eu não vou mais ter medo do tempo.” Estonteantemente madura, me iludia que seria.712ab89dce75befcec037f0e840023c8.jpg

Pois bem, a faculdade. Esse lugar onde eu jurava não sei por qual Deus que as tolices mundanas teriam cura. Que ia ser todo mundo ok. Cool. Brastemp. Funcional. Compenetrado. A era iluminada, ipsis litteris.

obvious novo.jpg Quando a gente chega no que eu- como a cafona que nunca me abstive de ser- chamo de adultez, a gente percebe a briga que comprou. Lutos absurdos.

Acontece que não me despedi dos cadernos ilustrados, guardando com a mesma fruição os adesivos nele disponíveis. Daquele jeito que a gente já sabe que guarda certas coisas, pruma data tão especial, mas especial num grau que nunca chega.

Não me despedi da prateleira de AllStar, que inclusive tem os mesmos sobreviventes tanto quanto possível. Não me despedi da mania de fazer cabeçalho e só mudar a cidade que já não era a mesma. Mas sinto que me despedi de muitas coisas das quais era importante que me despedisse.

Me despedi do costume de deixar tudo como estava, quando sabia que não podia mais ver a “última hora” tão diante dos meus olhos. Porque, apesar de eu ainda ter e honrar aos meus, seria eu por mim.

Me despedi da mesquinhez de fazer os outros esperarem por mim nas mais variadas tarefas, tanto quanto pude. Ninguém é criança pra sempre, e se o mundo muitas vezes não perdoa nem quem é criança, que dirá quem já deixou de ser.

Há um equívoco gostoso de se cometer nessa conta cara que é crescer. Os juros, eu acho. O que a gente paga pelas juras que fazemos de termos crescido totalmente. A gente fica naquela breguice nostálgica como se tivesse mudado tudo. Como se agora não fizéssemos nada do que crianças fazem.

Eu, que aos sete queria saber fazer envelope como gente grande. Que queria estudar em SP com quatorze não importava quantos ônibus tivesse medo de pegar na minha própria cidade. Que aos quinze, ainda bem que não fugi pra praia como queria. Porque, olha. O mar não ia ter as respostas que eu precisava. Eu vou muito mais à praia agora e ele continua não tendo.

Não me despedi dos shorts de lycra deprimentes. Pois agora, eu uso lycra deprimente é na academia. E muitas vezes, aos sábados, que é quando tenho tempo.

Salvo a graça serena de se enganar, tem uma coisa que fica muito nova a cada momento da vida: a humildade. Hoje, eu agradeço pelas coisas que minha vida não me permitiu atropelar. Pela grandeza e maturidade que aprendi que não tenho. Pelas oportunidades que a cada dia eu reaprendo a agradecer. E, principalmente, pelas respostas que na adolescência os signos da não me facilitaram, bem como o mar. E que na vida adulta nem um mestre lá na PUC, um artigo na Pepsic ou a minha devoção em Freud.

Porque afinal, é disso que eu acho que são feitos os sábados. De perguntas.

Eu não sou inteira por mais formada que me torne. Eu sou fluida, como lá no fundamental quis que os sábados fossem. Mas ao contrário de folga, agora eu vejo: Sábado é feira. Sábado é mais feira que o resto da semana. Sábado é mais feira que a semana inteira.

Júlia H. Rathier

2019


Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável".
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