sobre tudo sobretudo.

Estudante de Psicologia. Aspirante das artes e de tudo o que é sentido. Até do mundo.

Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável"

Educação no Brasil de 2019: a dor do membro fantasma

A dor do membro fantasma. Aquela que acomete a quem por amputação, perdera algo. Aquela que pode nos acometer, pois não resume-se a casos na medicina. Socorramos a ciência!


Me lembro de todas as vezes em que ralei os joelhos brincando, minha mãe dizer: "A gente precisa limpar e isso vai arder. Mas é só assim que melhora.” Das vezes em que quebrei algum osso- que benzadeus não foram tantas. Duas. Numa, os ossos de um braço e noutra, os de um dedo- os médicos dizerem uma interessante metáfora: “É a dor do quente. Quando esfriar essa dor, passar o tempo do choque traumático, ela vai mudar. Talvez se torne mais contínua. Agora, ela só lateja.”

Era verdade. E eu sei que as dores frias ou quentes e que a construção dessa metáfora, não se aplicam só a casos na medicina.

Dói. Dói sim, muito. Os cortes, que a gente não têm tido na pele mas nos horizontes. Não se trata de você ter ingressado ou não em uma instituição pública.

Se trata de saber, que tão logo tem se feito impossível a igualdade por aqui, vai continuar havendo gente que nela estuda, que nela cresce, e que nela faz ciência com o acesso ao ensino. Se trata de não ignorar os benefícios dos quais uma sociedade inteira usufrui, a partir do que pode vir de uma instituição pública.

Se trata de reconhecer privilégios, que não é uma atitude tão bonita quanto é necessária e justa. Afinal, nessa história toda humana e comum sobre dores, há dores que podemos sentir nara além de nós, por quem é atingido mais diretamente. E isso, inclusive se chama por aí de empatia.

A educação pública de qualidade é um direito, assim como a ciência tem vindo em enorme proporção dela, goste você ou não.

brasil-cerimonia-limposicao-20190503-001-2.jpg [Foto: Veja.com- Adriano Machado/Reuters]

Minha avó Maria Celestina, dizia que a única coisa que não se pode tirar de alguém, é o conhecimento. E sabe, tem gente que tem tentado. Eu sei que ela falava de bagagem, também. Mas, francamente: que bagagem é possível se construir sem educação? A quem essa ignorância serve?

Não é equívoco que a gente grite de dor. Levante bandeiras, denuncie essa ferida. Por que, afinal, o que machuca inclusive terrivelmente mais do que qualquer ranhura, é a negação de um direito.

A gente não chama o que tão fazendo de negligência, porque não é uma omissão de um dever e aliás, tá longe de ser . É a recusa dele. É um plano insuportavelmente tosco, vil e desvelado. Que gera uma ferida, ulcerosa. Uma falta pro povo. Machucado coletivo.

A gente não quer lutar pros olhos do espelho, Bolsonaro. A gente quer lutar pelo que acredita e pela voz que sabe que tem. Com esse quase-álbum-memorial-de-jargões, eu conto o que meu avô Narciso já disse um dia, também fora de carta: “ Eu quero que você saiba, seja consciente do quanto pode contribuir pra que decisões que melhorem esse mundo, sejam assinadas.”

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A minha mãe, a minha avó, o meu avô, todos os que chamo de meus e felizmente muitas das pessoas que tive a sorte de conhecer, sabem o quanto gostar de gente é importante.

Importante pra que a gente concorde com gente. Quando preciso, discorde de gente. Critique gente. Ensine gente. Aprenda com gente. E, sempre e principalmente: enxergue gente.

É esse o apelo que eu, como gente, faço pra esse governo que não tem se importado com gente.

Antes que continuemos com a dor quente, precisamos receber pra carne e pros ossos- e aqui, mais ainda, pra integridade da alma- a concessão de uma certeza da calma. Antes que a dor tenha tempo de esfriar. E que com isso, depois, se perpetue. Antes que o direito à educação pública de qualidade seja amputado e a dor do membro fantasma seja sentenciada. A educação é essência, Bolsonaro. Ela não é uma parte, mas o todo pra que existam partes. E olhe, ninguém quer a dor do membro fantasma. Pode crer, nem você iria querer.

Tá na hora de aprender com gente. Com quem você gostou de chamar de "idiotas úteis."


Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável".
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