sobre tudo sobretudo.

Estudante de Psicologia. Aspirante das artes e de tudo o que é sentido. Até do mundo.

Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável"

Epílogo: Na volta a gente compra

Eu acredito no Sérgio Vaz. Se não for sempre, é quase sempre. Mas eu acredito nele principalmente quando dizendo "Acho que depois que a a gente cresce, fica pequeno" o anjo-poeta faz o favor de resumir em versos toda a minha tese. A minha tese de que as crianças sabem mais. Os profetas são crianças.


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Certa vez, escrevi sobre meu palpite de uma das nuances mais primitivas dos meus desejos. Estrategicamente, eu digo palpite porque isso me libera da pressão de estar certa. E, naquela vez- que em específico eu transformei em crônica e decidi intitular “Afinal, o que há entre aquilo de que preciso e aquilo que quero?”- eu me deparei com o símbolo mais gostoso da minha infância: uma boneca.

Aquela crônica, de alguma forma me retorna agora como a história em que eu me narro parindo um querer.

Na cena em que ela ocorre, lanço ao meu pai “É esse o problema, pai. Você me dá tudo que eu preciso e não tudo o que eu quero.” frustrada por não ganhar uma boneca, sob a alegação de que não a precisava.

Gera-se um crescer. E se todas as vezes que meu pai ou minha mãe me tivessem dito “na volta a gente compra, na volta a gente vê, na volta eu penso” a gente realmente comprasse? Ou só realmente voltasse?

Qual é a força de um desejo não atendido? Ou, com quantas pessoas “feitas” e “crescidas” se faz a lucidez de uma criança? Eu não sei. E eu certamente não saberia ainda hoje que quando a gente cresce, o “na volta a gente compra” somos nós que dizemos a nós mesmos. E que em muitas vezes isso vai significar um “nem na volta do caminho, nem na volta de Jesus, querida. Esqueça, fi. Você não pode. Não precisa. Não deve.”

Aliás, eu queria muito poder perguntar a todas as bonecas, brinquedos e doces recusados desse mundo, quantas pessoas eles fizeram.

O GRÃO

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Acho que quando a gente lê o Sérgio, uma espécie de abismo se abre. Um abismo que não se apresenta por opção. Algo pra que a gente realmente perceba que há muito a perceber.

E me dei conta. Eu quero ter um filho que escute James Vincent. Que conheça e reaja a Roslyn, a faixa dele com o Bon Iver. Eu quero beijar. Eu quero saber que não cheguei aos meus lugares favoritos por sorte. Eu quero que as pessoas descubram que não é preciso se domesticar a algo que elas não escolhem. Não acham justo. Eu quero que eu saiba que a coragem é uma indumentária de tamanho único. Eu quero lembrar que eu já quis ser irreverente. E quero fazer questão de que meu filho seja.

Só que no fim das contas, isso nem é tanta coisa perto do maior grão que eu já vi. A olho nu.

Um grão chamado desejo.

Imagens: 1- Portfólio Amélie Graux via Pinterest 2- Instagram Sérgio Vaz @poetasv


Júlia Rathier

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