sobre tudo sobretudo.

Estudante de Psicologia. Aspirante das artes e de tudo o que é sentido. Até do mundo.

Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável"

Lapidação

Lapidando os desejos, arando a nós e aos nossos, a gente consegue ver a estrada de forma mais lúcida.


Das coisas mais difíceis do que um amor à queima-roupa, repousam alguns desejos nossos interrompidos. A tempestade de metas não cumpridas muitas vezes assusta a meteorologia com que o coração compassa.

É engraçado, surpreendermos a nós mesmos com a pequeneza das nossas urgências depois que notamos que elas não são verdadeiramente urgentes. Perceber que em um ano, a gente consegue pensá-las ocupando outro lugar de uma lista mental.

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Quando eu tinha 8 anos, minha urgência maior era ter todas as respostas pras milhares de perguntas que eu não me cansava de fazer. Cansava era a todo mundo que estava ao meu redor. Como se tivesse o sangue fervilhando pra tudo o que um autor chamaria de fantasia ou aventura.

Dentre elas, a vontade de preencher com “astronauta” uma ficha de check-in de hotel ou seja-lá-do-que, que me perguntasse sobre a minha profissão. Ou talvez professora como a de Carinha de anjo, a quem eu assistia admirando e tomando Nescau gelado.

Sempre desejei ser serena. Compassiva, altruísta. No entanto, não tão fortemente quanto percebo que preciso me construir pra ser. Hoje, eu continuo achando que minhas perguntas podem ser urgentes. [Pra mim].

E perceber que elas podem ser urgentes pra mim, e não necessariamente para os outros, me põe numa caminhada que é a de ter como questão urgente, tentar entender o que move as perguntas dos outros ao meu redor. O mundo nunca foi fácil, mas ele tá mais íngreme. As coisas que nos assolam, visitam a nós em tempestade, em lava ou em terra. E assim como os naturais, nossos recursos emocionais são profundamente afetados.

Soube por Ana Claudia Quintana Arantes, que o termo “pali” do latim "pallium" significa manto, e que os antigos utilizavam esse termo pra referirem-se aos tecidos que em longas guerras os protegiam das intempéries meteorológicas pra seguir viagem.

A Ana, intensivista, tratou no TEDtalks de humanidade em cuidados paliativos. Mas não é disso que vim falar. Falo de “pali” como um manto não-paliativo que nós tivemos que criar por todo o 2020. Não tratar o sintoma sem tratar a causa.

Um ano que precisou ter caráter de urgência mas que não pôde significar sentença. Caso contrário, estaríamos nos entregando. A espera pela vacina, a revolta com atitudes, a desesperança frente a incoerências públicas e políticas, foram o nosso tectonismo. A zona de convergência estava em perigo mas a gente não podia desanimar.

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Em mente e em corpo. Em acontecimentos políticos, burocráticos, médicos, sanitários, momentâneos ou não. A gente precisou perceber que o mundo é bem mais íngreme. Nefasto, tempestuoso, às vezes árido, às vezes ameno, às vezes lodoso.

Mas, por mais diversos que tenham sido os relevos, ventos, climas, solos e as chuvas desse ano, a gente descobriu que o que vale mesmo é o que nem costumávamos parar pra pensar. A presença, o afeto, o amor, aparecem de várias formas. O coração aquece de variadas formas. E a justiça precisa ser nosso chão comum. Sem justiça, não há ar que se respire que seja digno da leveza e é por isso que eu acredito no tempo, mas também em força.

Que nossas incoerências e mentiras se afoguem nas próximas tempestades que oferecerem chuva ácida de ignorância e medo. Porque é aí que começa o egoísmo- que precisa ser combatido. Essa combinação é perigosa a qualquer clima. E eu espero, calorosamente, poder olhar pra frente e continuar a ser grata a todos os climas da minha vida. Mesmo já tendo tirado nota baixa em Geografia.

Que as nossas tempestades tragam amor e coragem pros nossos corações.

Feliz calor que vem de dentro, 2021. ♥️


Júlia Rathier

Conhece a si mesma um pouco, e através da escrita cada vez mais. Com o lápis e o papel, se considera apanhadora e livre- ao mesmo tempo- de muitas coisas que não imaginava. Apesar de como todos, ser "insondável".
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