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Augusto Cruz

O Encanto de Blade Runner

Mais de 30 anos se passaram e Blade Runner mantém-se extraordinário. O visionário Philip K. Dyck encontrou em Ridley Scott a sensibilidade que sua obra precisava para ser adaptada para o cinema.


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O ano é 2019. No degradado planeta Terra vivem (sobrevivem) pobres, latinos e milhares de orientais, além de alguns ocidentais decadentes, ex-condenados ou com alguma deficiência física. São os inabilitados para viver nas colônias lunares. A essa altura o homem produz robôs à sua imagem e semelhança para auxiliar no processo de exploração de planetas, porém com muito mais força e inteligência. São chamados de Replicantes. Um motim provocado por uma série especial de Replicantes que resultou na morte de humanos os tornou ilegais na Terra. A execução desses androides é chamada de remoção. A polícia possui policiais especializados nesta tarefa e são conhecidos como Blade Runners.

O filme é baseado no livro “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?” de Philip K. Dick (Editora Aleph, 2014), um dos maiores romancistas da moderna ficção científica e anteviu o nosso planeta: poluído, repleto de orientais, publicidade em excesso, chuva constante, verde zero e urbanização selvagem. É nesse mundo que somos apresentados a Deckard (interpretado por Harrison Ford) que é um ex-blade runner, um exterminador de androides “aposentado”, chamado pela polícia para eliminar a nova série de robôs quase perfeitos que se rebelou contra os humanos A partir de sua contratação são introduzidos novos tipos, desde robôs quase humanos a humanos quase robôs...

A riqueza de detalhes do livro de Dick é transposta para a tela grande do cinema por um diretor que àquela época era praticamente um iniciante: Ridley Scott, esteta dos vídeo clipes que invadiu a televisão nos anos 80 e 90 do século passado. A nova linguagem da tevê estava sendo introduzida no cinema, e filmes como Ases Indomáveis, Nove e Meia Semanas de Amor e Fome de Viver (do irmão de Scott, Tony), entre muitos outros, marcaram época. Todos seguiram a mesma linha adotada por Scott de narrativa rápida, uma boa trilha sonora e personagens marcantes.

O filme traz a riqueza de detalhes descritos no livro de Dyck com profusão, desde as publicidades de Coca-Cola, aos Hare Krishnas, da fotografia digital (embrionária àquela época), à trilha sonora de Vangelis . O filme impressiona.

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Os diálogos, sempre com múltiplas interpretações, envolvem o espectador e ao mesmo tempo torna o filme enigmático, com personagens idem e com situações clímax desconcertantes.

Nenhum dos efeitos especiais se sobrepõe ao enredo. A cada fotograma, o filme se abre para novas descobertas do espectador, do mais relaxado ao mais atento, mantendo a tensão nas relações dos humanos entre si ou com os androides.

Não bastassem estes encantos o filme ainda nos conduz por questões dicotômicas e filosóficas em temas instigantes, como: criador e criatura; morte e vida; clonagem; eugenia; passado e futuro; tecnologia e tradição.

Há explícitas referências a obras como Metrópolis, de Fritz Lang, na composição da cidade e na demonstração da amargura da vida terráquea, ou a Pinóquio, com a composição dos androides e seus criadores, no entanto, a maior inspiração da cenografia e da fotografia reside nos films noir das décadas de 30 a 40. Imagens enfumaçadas, narrativa em off, “planos americanos”, personagens com pouco senso de moral, mulheres sensualmente fatais empunhando cigarros, diálogos ferinos, trama envolvente, com direito a reviravoltas, e um grand finale que deixa em dúvida se é pessimista ou otimista, se foi um happy end ou não, depende da ótica, dos valores e ideais do próprio espectador.

Curioso é que à época de seu lançamento o filme foi execrado pela crítica americana, inclusive por Pauline Kael e Leonard Maltin, críticos mais lidos por aquelas bandas. O filme recebeu classificação R (restricted) por conter cenas de violência.

O tempo, porém, revelou Blade Runner como um dos maiores cults do cinema, e não apenas do gênero ficção científica.

Já devo ter assistido ao filme umas trinta vezes, inclusive no antigo Cine Maria Bethânia (que saudade!) e em cada revisão, uma novidade salta da tela.

A versão levada para os cinemas quando de seu lançamento e teve seu final alterado, mas recentemente já foi relançada em “versão do diretor”, que traz uma mudança fundamental e que remete ao livro de Dyck.

Filme para ver, rever e para discutir com amigos.

Imperdível!


version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Augusto Cruz