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Augusto Cruz

Amarcord: As memórias Fellinianas

Amarcord sintetiza os elementos mais comuns à filmografia de um dos maiores, senão o maior, diretor do cinema italiano: Federico Fellini. Da trilha sonora do parceiro Nino Rota, às personagens exageradas, à crítica à Igreja e ao fascimo, além de uma bela homenagem à sua cidade natal, Rimini.


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O título Amarcord é uma referência à tradução fonética das palavras "io mi recordo" usada na região de Emilia-Romagna, na Itália, onde o diretor Federico Fellini nasceu, mais precisamente em Rimini, uma pequena província dessa região. E o filme é uma semiautobiografia do Mestre Fellini.

Na tela há explícitas referências aos anos 30 na então pobre Itália: o crescimento do fascismo e a perseguição aos comunistas, a descoberta da sexualidade entre os adolescentes, o catolicismo, o modelo de educação da época e as discussões familiares, típicas dos italianos. Tudo isso, porém, faz parte da grande homenagem que Fellini faz a Rimini e suas verdadeiras personagens e nos mostra que um autor (cineasta, escritor, pintor, músico, arquiteto ou escultor) encontra em suas raízes a principal fonte de inspiração.

Apesar da ironia, das piadas, de personagens exageradamente caricatos e da desconstrução da sociedade, temas sempre tratados com maestria por Fellini, o magistral diretor ainda nos brinda com momentos de rara sensibilidade.

Como em todos os seus filmes as figuras que rondam a tela são inesquecíveis, como a prostituta Gradisca (Magali Noel), o garoto Titta (Bruno Zanin), totalmente impressionável, o padre que ouve confissões para criar suas fantasias, o pai explosivo na mesa do almoço e muitos outros.

Marcante no filme a trilha sonora de Nino Rota, cuja música tema é doce, terna, suave e tem som de felicidade.

Muitas das cenas do filme nos remetem à nossa própria infância ou adolescência, ainda que ocorridas nos anos 30. As brincadeiras e crueldades do colegial, o início da atração sexual, a descoberta do sexo e o desconforto dos nerds que sempre existiram, sofrendo o que hoje chamamos de bullying, uma doidivana ninfomaníaca e linda...

A solidão também está presente no filme. Vários são as personagens que se veem a sós, ou temerosos de viverem sozinhos. A Itália tem semelhanças com o Brasil, não apenas na paixão pelo esporte bretão, mas pela forma como os entes de uma família convivem entre si. Não há a fuga de filhos, como nos países anglo saxões e outros não latinos.

A unidade da família serve inclusive como metáfora ao Estado Fascista que se afirmava naquela época. Tudo pelo Estado, nada contra o Estado. Tudo pela família e nada contra a família.

Como contraponto ao jovem e sonhador Titta, os idosos que aparecem no filme por vezes amargos, por vezes tristes, mas sempre dispostos a participar do cenário social, perseguidos ou dissimulados, mas cônscios de seu dever com a pátria.

Tudo que Fellini nos apresentou em dezenas de outros filmes é repetido cuidadosamente em Amarcord: sua ojeriza à Igreja Católica, sua raiva do facismo, as voluptuosas musas, a "italianidade" e a maravilhosa música de Nino Rota, companheiro de inúmeras trilhas sonoras, as rostos curiosos filmados em ângulos desfavoráveis e muito mais!

A câmara suave de Fellini faz rir, chorar, ter raiva e, principalmente, faz recordar. Quem não viveu sua Rimini?

Amarcord: Anche io mi recordo.

Bravíssimo!


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