sociedade generalizada

Sobre uma sociedade frágil e efêmera em que o conhecimento se evapora

Arthur Gandini

Arthur Gandini é jornalista especializado em economia e estudante de ciências e humanidades

A desumanização na esquerda e na direita

Sim, a Direita transforma os seres humanos em coisas inferiores ao dinheiro. Mas talvez a Esquerda não faça muito diferente quando transforma os indivíduos em soldados em favor de uma causa... Os resultados são similares


collage2.jpg Foto: Montagem/Library of Congress/G.P.Goldshtein

Já dizia Karl Marx em seu Manifesto do Partido Comunista, em 1848:

“A burguesia, lá onde chegou à dominação, destruiu todas as relações feudais, patriarcais, idílicas. Rasgou sem misericórdia todos os variados laços feudais que prendiam o homem aos seus superiores naturais e não deixou outro laço entre homem e homem que não o do interesse nu, o do insensível ‘pagamento a pronto’. Afogou o frémito sagrado da exaltação pia, do entusiasmo cavalheiresco, da melancolia pequeno-burguesa, na água gelada do cálculo egoísta. Resolveu a dignidade pessoal no valor de troca, e no lugar das inúmeras liberdades bem adquiridas e certificadas pôs a liberdade única, sem escrúpulos, de comércio. Numa palavra, no lugar da exploração encoberta com ilusões políticas e religiosas, pôs a exploração seca, direta, despudorada, aberta. A burguesia despiu da sua aparência sagrada todas as atividades até aqui veneráveis e consideradas com pia reverência. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência em trabalhadores assalariados pagos por ela. A burguesia arrancou à relação familiar o seu comovente véu sentimental e reduziu-a a uma pura relação de dinheiro.”

Não é novidade para ninguém hoje que o mundo é movido a dinheiro. Você pode ser um economista que estuda como funcionam o mercado e o Estado como agentes econômicos e sua interrelação; um cientista político, que analisa o funcionamento do Estado também frente ao poder econômico; ou simplesmente alguém que sabe que está ferrado se, no final do mês, não tiver dinheiro suficiente para pagar as contas.

A crítica do pensamento econômico de esquerda segue a análise da atuação revolucionária da burguesia no século XVIII, observada por Marx e Engels, que colocou o dinheiro no centro de tudo, sendo o indivíduo algo em segundo plano, uma ferramenta, um fator de produção, parte integrante da mão de obra. De lá para cá, muito mudou o pensamento em favor do livre mercado e também o próprio capitalismo no qual, atualmente, o setor financeiro é o que obtém os maiores lucros e promove a maior concentração de renda do capital que é distribuído pela população de forma desigual. Surgiram movimentos econômicos, além do socialismo, contra a lógica capitalista como a economia solidária, a economia colaborativa, o cooperativismo, entre outros. Entretanto, a desumanização do indivíduo ainda continua a ser um dos sintomas fundamentais deste sistema. Mesmo as correntes à esquerda que possuem mais voz dentro do pensamento econômico não fogem da desumanização capitalista. A ideia de incentivar o crescimento econômico e prevenir a população de baixa renda das crises capitalistas - assim como evitar as próprias crises - por meio do estímulo ao consumo por parte do Estado, ainda se baseia no estímulo ao consumismo. Consiste muito o exemplo do que ocorreu no Brasil na década passada: as pessoas saíram da miséria e subiram de classe social comprando geladeiras, televisões, automóveis e outros bens. O consumismo é um elemento central do capitalismo, pois ameniza a exploração do indivíduo pela sociedade: ele sabe que trabalha todos os dias e não recebe o que merece, sofre assédio moral do patrão, mas no final do mês, receberá um salário para poder gastá-lo em compras, no lazer ou de outro modo que lhe proporcione prazer. O consumismo está em tudo, hoje, inclusive nas igrejas: em uma mesma rua, pode-se encontrar várias opções ao gosto do freguês. Paga-se uma determinada quantia (o dízimo) para receber o produto (a fé). Normalmente, trata-se de um mercado com preços caros. Esta lógica também está nas relações de paixão: aplicativos como o Tinder nos permitem pesquisar diversos produtos e sempre arrumar novos, os parceiros ou parceiras. O extremo da lógica é que nós somos produtos, nós somos consumidos pelos outros, a lógica de mercado está em tudo.

O discurso totalmente à esquerda no espectro do pensamento econômico, o marxismo, segue contra tudo isso e como uma alternativa. Só é possível acabar com esta lógica dando um fim no mercado e no Estado, afinal, este é, segundo Marx e Engels, apenas “um comitê para administrar os negócios comuns da burguesia”.

O discurso capitalista e aceitação da economia de mercado como forma de administrar os recursos e bens escassos entre a sociedade envolve um pragmatismo de que não há alternativa para ela. O socialismo é algo inviável politicamente e, talvez, também economicamente. O marxismo também é pragmático: é precisa acabar com tudo que está aí. Talvez seja justamente pelos dois lados seguirem um pragmatismo que acabam por desumanizar o ser humano de alguma maneira, algo que a Esquerda muitas vezes não percebe. Esta reflexão não se trata de um convite ao centro do espectro do pensamento econômico, mas de uma reflexão sobre como caminhos repetidos podem resultar em fins conhecidos.

Em nome da Revolução

Sob o discurso de acabar com o capitalismo e, dentre seus males, a desumanização do ser humano, os partidos políticos de Esquerda instrumentalizam seus militantes. No passado, os extremistas a favor de golpes revolucionários tratavam e ainda tratam seus membros como apenas “soldados da revolução”. Podem e, muitas vezes, precisam morrer em nome dela. O passado (e, neste caso, o presente) nos mostra que o capitalismo matou e ainda mata milhões de fome. O regime soviético, entretanto, matou 40 milhões sob a liderança de Josef Stálin que, independente de seguir ou não na prática um regime socialista, matou em nome deste ideário não apenas burgueses, mas também socialistas. Poderia-se aqui comparar números e quem matou mais na história, capitalistas ou socialistas, mas isto seria também uma forma de desumanização ao transformar indivíduos em apenas números.

Não é preciso buscar na história e no extremismo a desumanização da esquerda. Partidos políticos hoje, mesmo que não possuam projetos e plataforma socialistas, utilizam sua militância em prol dos interesses do partido, muitas vezes a revelia dos reais interesses de seus caciques. A militância petista por muito tempo acreditou na imaculabilidade de seus líderes e muitos ainda hoje acreditam. Os partidos de esquerda, que lidam com a massa, têm como meta conquistar o maior número de militantes que possam, de forma voluntária, desempenhar funções nos partidos desde carregar bandeiras em manifestações a funções de direção partidária. O centralismo democrático presente no PT, e também herdado pelo PSOL, partido hoje em ascensão – provoca verdadeira guerra entre suas tendências internas que buscam cooptar filiados “independentes”, que não pertencem a nenhuma corrente. A competição (um elemento tão presente na lógica capitalista) ocorre também entre mandatos de diferentes parlamentares do mesmo partido. Os mandatos também buscam obter o maior número de apoiadores e financiadores. Isto acontece pelo fato de que o capitalismo – desprezando aqui sua dominação política, cultural e midiática – aproveita-se de comportamentos muito anteriores a ele presentes nas relações humanas, como a efetuação de escolhas dentro da ideia do custo-benefício e a obtenção de vantagens. Pode-se argumentar que, apesar de tudo isso, há relações fraternas dentro dos membros de um partido político. Entretanto, quem tem dito que elas não existem também entre os próprios capitalistas? A questão aqui é que a desumanização ocorre dos dois lados. O discurso humanitário da Esquerda acaba não sendo práxis.

Este pragmatismo na Esquerda, muito provavelmente, é o que acaba levando a fins parecidos em relação aos da Direta e, muitas vezes, uma aproximação dela. O partido em sua busca de poder não apenas desumaniza pessoas (e mata, no caso do extremismo), mas como pode se corromper ao capital e à busca da governabilidade por meio dos acordos que os governos capitalistas efetuam.

Talvez uma saída para o capitalismo não esteja nas mãos da Esquerda, pelo menos não na que segue os caminhos de cometer o mesmo erro da desumanização da Direita. Talvez a saída esteja nos movimentos já mencionados como a economia colaborativa ou, para quem professa alguma fé, em uma concepção religiosa que não esteja mercantilizada. O papa Francisco, por exemplo, hoje um crítico dos males da economia de mercado como o individualismo e a exclusão, costuma passar a ideia de que a saída para o capitalismo não é o socialismo, mas, sim o cristianismo. Como seria o mundo se todos pensassem que nem a figura histórica que disse, segundo o mito cristão, que, para sermos uma pessoa melhor, deveríamos vender tudo que temos e dar para os pobres? A Direita econômica pode argumentar que a lógica capitalista é a melhor forma de promover o crescimento econômico. Iniciativas como o regimento de fábricas como cooperativas mostram que isso não é verdade. De qualquer forma, a Esquerda tem falhado em mostrar reais alternativas.

A existência da esquerda, organizada, em parte, por meio de partidos políticos, é necessária para se contrapor à lógica capitalista. Entretanto, quando a Esquerda repete o mesmo modus operandi do que combate, não resulta em efetivas mudanças.

Ser de “de direita” ou de “esquerda” pode ser absorvido pela lógica capitalista e não ser nada mais que a escolha de um produto dentro do mercado cultural de preferências políticas. Devemos acima de tudo sermos seres humanos na sociedade que construirmos para nós mesmos.


Arthur Gandini

Arthur Gandini é jornalista especializado em economia e estudante de ciências e humanidades.
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