sociedade generalizada

Sobre uma sociedade frágil e efêmera em que o conhecimento se evapora

Arthur Gandini

Arthur Gandini é jornalista especializado em economia e estudante de ciências e humanidades

Os limites da tecnologia em uma sociedade sem limites

Passamos boa parte do nosso tempo dentro de uma realidade virtual... só o futuro responderá se saberemos lidar com os limites desta tecnologia


Texting & Driving-Male.jpg Foto: MorgueFile

Você acorda e abre os olhos devagar enquanto suas pupilas ainda se acostumam com dificuldade à luz. Sua mão tateia a cômoda ao lado para pegar o celular e apertar o botão que faz o despertador parar de tocar. Você desbloqueia a tela do aparelho e vê que horas são: 5h30. Não pode demorar muito para não se atrasar, mas, antes, necessita olhar as mensagens que recebeu no WhatsApp, no chat do Facebook, nos e-mails... Levanta, então, da cama, e se dirige ao banheiro para tomar banho. O banho dura 15 minutos em tempos de pressa e de racionamento em São Paulo. Volta para o quarto e pega o celular para conferir novamente se recebeu mensagens. A conversa com seus colegas do grupo de faculdade, com dois amigos e com uma amiga demora cerca de 5 minutos. Sua amiga não te responde e você olha para a tela por alguns segundos. Se o sinal da mensagem não ficou azul, é porque ela não deve a ter visualizado.

A jornada continua após tomar um café correndo. Enquanto o ônibus não chega, tira o celular do bolso para ver novamente as conversas na classe e responder um de seus amigos. Sua amiga não visualizou a mensagem ainda. Por que será que interrompeu a conversa? O ônibus chegou e você entra olhando para o celular. Coloca-o no bolso para passar o bilhete na catraca e o tira novamente após sentar em um banco. Desta vez não há mais mensagens novas, a não ser do seu grupo da faculdade. Sua amiga ainda não visualizou. Será que eu mando uma nova mensagem? Desta vez, você entra no aplicativo do Facebook para ver notícias e compartilhamentos dos amigos. O ônibus para em frente do metrô. Coloca o celular no bolso, desce a escada rolante, passa pelas escadas, passa pela catraca, mais uma escada. Enquanto o trem não chega, você olha mais algumas notícias e um amigo seu manda uma mensagem. Você ia olhar, mas o trem lotado chegou. Carrega o celular na mão e, no trem lotado, segura-o com uma mão e usa a outra para se segurar no trem. Enquanto troca de linha depois, para fazer a baldeação, caminha olhando o celular e quase tromba com alguém o qual só viu de relance.

Ao chegar à plataforma para pegar outra linha, encontra um colega de faculdade e entra com ele conversando no trem. Após dois minutos de conversa, ele tira o celular o bolso e começa a ver suas mensagens. Você faz o mesmo por consequência assim como outras pessoas fazem no vagão.

O breve começo de rotina é fictício, mas é comum a diversas pessoas e pode ser estendido a diversas situações, não apenas a de um estudante: ao trabalho quando seu chefe te envia uma orientação por meio do WhatsApp; quando você deixa de trabalhar ou atrasa suas tarefas por causa do Facebook no celular ao lado de seu computador ou que carrega em seu bolso; no bar, com seus amigos, quando vários se voltam para os seus celulares na mesa sem olhar para os demais (o que rende a piada: “vamos sair para mexer no celular juntos?”); nos familiares que conversam dentro da mesma casa por WhatsApp ou deixam de responder o outro por estarem no celular, e por aí vai.

Que sociedade doente é a nossa onde as pessoas passam ao menos boa parte de seu dia, para não dizer a maior parte dele, dentro de uma realidade além da real? Pessoalmente, voltei a me dar conta desta questão há duas semanas quando fui fazer uma reportagem de rua, algo que não fazia, com algumas exceções, há quase dois anos. Ao pedir o boletim de ocorrência ao delegado sobre a descoberta de uma refinaria de cocaína perto de Paranapiacaba, em Santo André, ele me perguntou se eu possuía WhatsApp e me enviou imagens do B.O por meio do aplicativo. Outro policial, do mesmo modo, enviou-me fotos da droga apreendida. Não me recordo, mas questiono que ao menos algum policial daquela delegacia, no momento em que a adentrei, deveria possuir um celular na mão para o qual estava voltado. Esta discussão envolve tecnologia, tempo e a vivência coletiva.

Novas relações

Não é de hoje que o modo de produção capitalista nos faz viver cada vez mais sem tempo. Precisamos, conforme nossa renda, trabalhar mais ou menos na sociedade para satisfazer desde nossas necessidades básicas às consumistas alimentadas pela mídia e que amenizam e compensam de certa forma o sofrimento de nossa vida sem tempo. Esta vivência cíclica nos leva ao individualismo: possuímos pouco tempo para nos relacionarmos com os outros e somos pressionados a sermos individualistas, já dentro de uma sociedade onde o dinheiro como base enfraquece outras estruturas como a família e a ideia de coletividade. Aí entra a tecnologia para nos ajudar a interagir com os outros. As imagens do boletim me enviadas pelo delegado pouparam o esforço de imprimir um boletim ou do outro policial precisar me enviar arquivos por e-mail ou colocar em um pen drive fotos das drogas para deixar comigo. As mensagens via aplicativos como WhatsApp permitem que conversemos com pessoas quando não podíamos conversar, seja por motivos geográficos ou de disponibilidade de tempo. Entretanto, também cria necessidades de contato. Ficamos conectados o tempo todo e ao mesmo tempo desconectados. Se converso com diversas pessoas no celular, mas me desligo do que está ao redor de mim no mundo físico por causa da abstração no celular, estou conectado ou desconectado? Podemos viver apenas conectados na realidade virtual?

As consequências negativas não são apenas de relacionamento interpessoal e de organização, mas também físicas, quando passamos o dia voltados para o celular com as costas curvadas para baixo, sem contar os efeitos da luminosidade do aparelho nos olhos, por exemplo. A necessidade de se concentrar em diversas coisas ao mesmo tempo, em diversos aplicativos e em duas realidades – a virtual e a real – também nos torna pessoas sem foco.

O que torna grave refletir sobre tudo isso é o fato de ser algo muito novo. A popularização dos smartphones e tablets é recente e, no Brasil, por exemplo, toda esta realidade não existia há quatro anos. As pessoas andavam concentradas nas demais no transporte público, conversavam via SMS com periodicidade menor e sem o compromisso de responder e o aviso ou a marcação de mensagem visualizada. Outra alternativa hoje é o chat do Facebook. Se voltarmos mais alguns anos, as conversas eram feitos pelos scraps do Orkut, rede social acessada mais apenas pela juventude naquela época. Hoje, todos estão praticamente na rede social de Mark Zuckerberg. Não ter uma perfil no Facebook, no Brasil, é como não ter um RG e o mesmo paradigma caminha para existir em relação ao WhatsApp. O Orkut desapareceu com um piscar de olhos, um piscar parecido com o que surgiu o WhatsApp.

A questão não se resume aos problemas atuais com o avanço da tecnologia, mas onde tudo isso irá parar. Certa forma de pensar acredita que a humanidade se ajusta com o tempo aos seus problemas e excessos, como na questão econômica. Os reformistas acreditam que as democracias farão com que, com o passar do tempo, as elites façam concessões e permitam mais poder do Estado para se reduzir a desigualdade global. Perder os anéis para proteger os dedos é melhor do que revoluções produzidas por uma concentração de renda e falta de mobilidade brutais no mundo. Mas o mesmo aconteceria com os excessos e as consequências da tecnologia?

Até que ponto os indivíduos da sociedade aguentariam estar presos a uma realidade virtual sem se resultar em um novo movimento de ludismo no século XXI em que seriam quebrados não as máquinas das fábricas alemãs, mas os smartphones que estão nos aprisionados. Não somos mais escravizados pelo patronato do capitalismo industrial, mas pela tecnologia - também alimentada por uma elite -, que escraviza toda uma sociedade que também se auto escraviza por meio desta tecnologia.

As tecnologias surgem, mas cabe ao ser humano decidir até onde seguir com elas. A clonagem, por exemplo, pareceu ser demais para o ser humano e achou-se melhor não seguir com elas. Óculos como os do Google Glass, por exemplo, algo tão inovador, parece, ao menos até agora, também ser demais para o ser humano. Não será agora que ficaremos imersos na realidade virtual o tempo todo por meio de nossa visão. O século XXI promete ser tão dinâmico e extremo – ou talvez até mais – do que o século XX.

Resta agora saber até onde irão nossos limites frente a uma sociedade que parece não ter limites. Não sabemos ainda o limite da tecnologia, mas sabemos que este caminho será uma decisão nossa.


Arthur Gandini

Arthur Gandini é jornalista especializado em economia e estudante de ciências e humanidades.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 2/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Arthur Gandini