Pedro Zuccolotto

Amante da arte de fotografar, com um desejo eterno por livros, estudante de jornalismo, músico, viajante e também um simples escritor. Vivendo a vida com meu sarcasmo natural e fazendo o simples ser belo

O Gigante Enterrado (Kazuo Ishiguro) - Crítica e análise

Uma humilde crítica e análise sobre um livro que me encantou.


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Análise pré-leitura (sem spoilers)

Kazuo Ishiguro se mostrou um escritor fantástico na obra O Gigante Enterrado – a primeira que eu li deste autor – onde, com maestria, escreveu uma história envolvente que toca em temas delicados como amor, esquecimento, tempo e perdão.

A história toma lugar em uma Grã-Bretanha medieval, marcada por conflitos entre bretões e saxões e pela queda do respeitável Rei Arthur. A população sofre com a exposição a diversas ameaças – como ataques de ogros, presença de dragões e outras criaturas fantásticas – e a uma névoa misteriosa que paira sobre toda a terra e faz as pessoas esquecerem gradualmente as suas memórias. No meio disso tudo, há um casal de velhinhos, Axl e Beatrice, que estão determinados a viajar para a aldeia do filho. Porém, devido à névoa, não se lembram do rosto do filho, e muito menos do caminho que devem tomar. Com isso, o casal acabará se envolvendo em uma aventura muito maior do que eles poderiam imaginar.

A edição que eu li – da Companhia das Letras – foi bem traduzida e bem confeccionada, com uma arte de capa impecável e uma tradução fluída e confortável.

São muitas lições que podem ser aprendidas com este livro – lições que passam longe de serem clichês que estamos cansados de ver. Às vezes, esquecer é bom. Às vezes, tudo o que precisamos fazer é aceitar e deixar ir, pois certas coisas são inevitáveis. E muitas vezes, devemos deixar nosso orgulho de lado e perdoar. Certas coisas não são importantes e não merecem ganhar tanta importância em nossas vidas. É necessário colocar na balança na hora de brigar, de discordar, de cortar ou manter laços, ou seja, existem coisas pelas quais simplesmente não vale a pena se desgastar.

No final das contas, O Gigante Enterrado é uma obra literária que pode ensinar muitas coisas aos seus leitores. Cheio de metáforas - que não são facilmente perceptíveis -, com uma ambientação incrível, personagens carismáticos e uma história que prende o leitor, eu diria que é uma obra obrigatória para a formação – tanto intelectual quanto espiritual – das pessoas.

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Análise pós-leitura

Essa análise é para as pessoas que já leram o livro. Aqui, farei algumas observações e explicarei algumas metáforas da obra. Se você não leu, recomendo que primeiro o faça, mas sinta-se livre para continuar.

Durante a narrativa, Ishiguro consegue tocar em assuntos que nos fazem refletir muito sobre a visão que possuímos da vida. Um dos conflitos existentes é o quanto o amor pode se desgastar com o tempo. Axl e Beatrice são uma imagem perfeita desse desgaste temporal. Não conseguem se lembrar de toda a sua trajetória juntos, e têm medo do que podem se lembrar. Porém, ao mesmo tempo creem que, se durou tanto tempo nada poderá destruir isso.

O cavaleiro solitário do falecido Rei Arthur, Sir Gawain, diz ter uma missão: proteger a dragoa que produz a névoa. Por quê? Prestando atenção aos fatos citados, é visível que a terra em que a história se passa foi fortemente marcada pela guerra, logo, a vingança e o revanchismo estão no coração de todos. E o pior, esses sentimentos são passados ao longo das gerações. Arthur não queria reinar sobre tudo e todos. Ele não almejava riqueza ou poder – como muitos de nós fazemos -, mas sim a paz. E para conseguir isso, fez com que as pessoas se esquecessem dos fatos que as levam a querer vingança. Será que isso não mostra que se esquecêssemos certos acontecimentos em nossas vidas, poderíamos viver mais pacificamente? Ao mesmo tempo é levantada a questão sobre isso ser moralmente correto ou não – afinal, a população vive em uma ilusão -, e um conflito é travado entre Sir Gawain e Wistan, cuja missão é eliminar essa dragoa.

Então, o barqueiro é apresentado. Contando sua história, diz que é o responsável por selecionar através de um questionário os casais que podem ir para uma certa ilha juntos, separando aqueles cujo amor não é forte o suficiente. Com ele, aparece uma personagem que o culpa por ter se separado do marido - a senhora - dizendo que o barqueiro é um ser cruel e ardiloso. É essa mesma figura do barqueiro – não necessariamente a mesma pessoa, mas sim outro com a mesma tarefa – que no final das contas separa Beatrice de Axl. O curioso é que, ao longo da narrativa, o que é passado para o leitor é que os barqueiros levavam sempre os maridos, e deixavam as esposas para trás. Então por que o caso dos nossos protagonistas é diferente?

Beatrice passa o livro se queixando de dores, e, quando se consulta com uma médica, percebe que está doente, embora diga ao marido que está tudo bem. Nesse momento, fica claro que ela está chegando ao fim de sua vida e o barqueiro é o encarregado de levá-la. O barqueiro é a morte, que antes abandonava as esposas pois os homens iam à guerra e, consequentemente, muitos não retornavam.

É ao mesmo tempo bonita e triste essa trajetória. Por um lado, viveram uma vida feliz juntos – embora não consigam se lembrar de tudo, gerando certos conflitos às vezes – mas por outro, o fim inevitável alcançou Beatrice primeiro, deixando Axl sozinho para trás. Simultaneamente, é uma metáfora bonita pois algum dia Axl a encontrara na ilha. É só uma questão de tempo.

Outro detalhe que pode passar despercebido é o título da obra. Kazuo não a nomeou desta forma à toa. No final do livro, depois de matarem a dragoa, Wistan diz “O gigante, que antes estava bem enterrado, agora se remexe”. O gigante enterrado em questão é justamente tudo o que se encontrava adormecido no esquecimento: a vingança, o revanchismo, o ódio, e por consequência, a guerra. Nunca - apesar de o mundo do livro ser recheado de criaturas fantásticas - se tratou de um ser místico gigante, e sim de uma metáfora.

Por fim, fica fácil concluir que O Gigante Enterrado, além de uma bela história, é uma obra que passa um ensinamento para a vida, transmitindo valores importantes.

Trechos que valem a pena serem citados:

“ Não é fácil sair de um lugar que você conhece há tanto tempo. ”

“ Será que não é melhor que algumas coisas permaneçam encobertas? “

“ Os efeitos do tempo podem ser um grande disfarce. ”

“ Quando já não há mais tempo para salvar, ainda há bastante tempo para se vingar. “

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Pedro Zuccolotto

Amante da arte de fotografar, com um desejo eterno por livros, estudante de jornalismo, músico, viajante e também um simples escritor. Vivendo a vida com meu sarcasmo natural e fazendo o simples ser belo.
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