Pedro Zuccolotto

Amante da arte de fotografar, com um desejo eterno por livros, estudante de jornalismo, músico, viajante e também um simples escritor. Vivendo a vida com meu sarcasmo natural e fazendo o simples ser belo

A Sangue Frio (Truman Capote) - Crítica e análise

Um livro que mostra como o jornalismo pode se mesclar à literatura de forma esplendorosa.


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O jornalismo literário é um âmbito da literatura que possui excelentes obras, e entre elas está A Sangue Frio, fruto de um trabalho de investigação e apuração jornalística feito em 1965 por Truman Capote – autor de Bonequinha de Luxo – com ajuda inicial da sua amiga de infância Harper Lee – autora de O Sol É para Todos.

Placa de Holcomb.jpg Placa da cidade de Holcomb. Foto cedida pelo fotógrafo Jonathan Berry.

O livro conta a história do assassinato dos Clutter, uma família que vivia uma vida pacata em Holcomb, interior do Kansas, “lá onde cresce o trigo”. A família era constituída pelo pai (Herb Clutter), pela mãe (Bonnie Clutter) e pelos quatro filhos (Kenyon, Nancy, Beverly e Eveanna), sendo que apenas os dois mais novos (Kenyon e Nancy) ainda moravam com os pais na cidade. Tudo ocorria normalmente até a noite do dia 15 de novembro de 1959, quando os quatro foram assassinados de forma brutal sem nenhuma razão aparente. E o pior, pelo fato da família ser reconhecida e amada por praticamente todos da pequena cidade, o medo se instaurou com a dúvida de quem poderia ter cometido um crime tão cruel. Assim, uma investigação assídua começa, e cinco anos depois os dois autores do crime, Perry Smith e Richard “Dick” Hickock, são presos e executados.

Manchetes.jpg Manchetes do jornal local do dia em que encontraram a família morta (esquerda) e do dia em que Perry e Dick foram executados (direita). Fotos cedidas pela Polícia de Garden City.

Processo de escrita

O trabalho não foi fácil. Durou cerca de cinco anos e rendeu em torno de oito mil páginas de anotações. Foram necessárias entrevistas com moradores da cidade, familiares e policiais, consultas a documentos, diários e cartas, e muita observação – inclusive da execução dos criminosos. Somando tudo isso à utilização da verossimilhança – maior proximidade possível com a realidade – o livro foi criado, o que deu liberdade para Capote dizer com categoria que inaugurou um novo gênero literário: o romance de não ficção. Também houve a necessidade de se aproximar dos autores do crime, Perry e Dick, para apurar o por que e como tudo aconteceu na fatídica noite do crime. Eventualmente, Capote se apaixonou por Perry Smith e criou um amor que terminaria em tragédia, pois Perry foi executado depois do julgamento.

Dick e Perry.jpg Dick (à esquerda) e Perry (à direita). Fotos cedidas pela Polícia de Garden City.

Recepção da obra

A obra não foi bem recebida pelas duas filhas sobreviventes de Herb Clutter, Beverly e Eveanna. O argumento usado é que elas desejam imortalizar a vida deles e não o jeito que eles morreram. As duas sempre negaram todos os pedidos de entrevista feitos por Capote, pois não concordavam com o que estava sendo escrito por ele. Além disso, as irmãs tentam passar aos seus filhos a história do que aconteceu com a sua família de uma forma que preserve seu verdadeiro legado. Em compensação, o livro se tornou um best-seller rapidamente, e até hoje é um ícone do jornalismo literário e da literatura norte americana.

Túmulos dos Clutter.jpg Túmulos da família Clutter. Ao meio de Bonnie e Herb, à esquerda de Nancy e à direita de Kenyon. Foto cedida pelo fotógrafo Jonathan Berry.

O legado

Depois do caso ser encerrado a cidade prestou homenagens à família. Foi criado em 2009 – exatamente 50 anos depois da tragédia – o Parque Memorial da família Clutter, com uma placa em memória à vida da família e à sua importância para a comunidade. O organizador da criação do parque foi Bobby Rupp, o garoto que na época do assassinato namorava Nancy Clutter. Bobby contou com a ajuda da comunidade por mais de um ano para realizar o projeto. O planejamento durou vários meses e houve uma campanha de arrecadação para a construção do parque que, com sucesso esplendoroso, obteve 23 mil dólares. Antes do parque, não havia nada além da casa dos Clutter para relembrar a família. (Você pode ler o texto da placa memorial, em inglês, neste link)

Placa memorial.jpg Placa memorial em homenagem à família Clutter.

Além disso, foi criada em 2015 a Bolsa Memorial Herb Clutter pela Associação Nacional dos Produtores de Trigo – associação cujo Herb foi o primeiro presidente. A bolsa consiste em um auxílio em dinheiro aos estudantes que buscam carreira na área da agricultura na universidade do Kansas.

Adaptações

O livro teve duas adaptações cinematográficas: um filme de 1967 chamado In Cold Blood, que narra o percurso dos assassinos; e um filme biográfico de 2005 chamado Capote, que acompanha a trajetória do escritor ao longo do processo de apuração e escrita do livro. Também houve uma adaptação para HQ chamada Capote in Kansas.

Afinal, foi certo escrever o livro?

Muitas pessoas argumentam que, apesar de ter feito uma bela obra ao escrever A Sangue Frio, Capote marcou de forma negativa a cidade de Holcomb e o caso dos Clutter para sempre. A cidade praticamente desconhecida por quase todos só apareceu no mapa depois do ocorrido e ficou conhecida como a cidade do assassinato da família. E os Clutter são muito lembrados, não pela sua importância na comunidade ou pelas proezas que fizeram, e sim pela maneira que foram mortos, o que para a família é algo doloroso. Além desses aspectos, também existem muitas críticas feitas em relação à apuração jornalística do caso, já que Capote era famoso por não gravar ou anotar nada durante suas entrevistas, e ainda afirmava conseguir lembrar de tudo com precisão. O mais curioso é que é quase impossível terminar a obra sentindo antipatia pelos dois assassinos – talvez esse também seja um motivo pelo qual a família desaprova o livro?

Apesar de tudo isso, é inegável dizer que A Sangue Frio é um clássico do jornalismo literário, escrito de forma magnífica e com uma história que prende até a última página.

Casa dos Clutter.jpg Casa da família Clutter. Foto cedida pelo fotógrafo Jonathan Berry.

Trechos que valem a pena serem citados:

“ O inesperado acontece, as coisas às vezes mudam. ”

“ Quando a hora chega, ela chega. Não adianta chorar. ”

“ Até o fim da vida, tem sempre alguma coisa esperando, e mesmo que seja uma coisa ruim, que você sabe que é ruim, o que você pode fazer? Não há como parar de viver. ”

“ Nada é mais comum do que sentir que os outros tem participação em nossos fracassos, assim como é uma reação comum esquecer os que tiveram participação em nossos sucessos. ”

“ Mas quando a multidão viu os assassinos, com sua escolta de policiais rodoviários de casaco azul, ficou em silêncio, como se espantada de constatar que os dois tinham forma humana. ”

“ A verdade pode ser brutal. ”

“ Vocês estão me mandando para um mundo melhor do que este jamais foi. ”

Clutter_Family.jpg Família Clutter. Foto cedida pela Polícia de Garden City.

Fica aqui meu singelo agradecimento ao meu professor José Faro, que me apresentou o livro, e aos meus colegas que discutiram sobre a obra comigo. Sem vocês isso não seria possível.

Quer ver uma análise como essa sobre algum livro que você gosta ou quer conhecer mais? Coloque nos comentários!


Pedro Zuccolotto

Amante da arte de fotografar, com um desejo eterno por livros, estudante de jornalismo, músico, viajante e também um simples escritor. Vivendo a vida com meu sarcasmo natural e fazendo o simples ser belo.
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