Pedro Zuccolotto

Amante da arte de fotografar, com um desejo eterno por livros, estudante de jornalismo, músico, viajante e também um simples escritor. Vivendo a vida com meu sarcasmo natural e fazendo o simples ser belo

O Sol é Para Todos (Harper Lee) - Crítica e análise

Uma história sobre injustiça e racismo contada por uma criança de doze anos em uma época em que o preconceito reinava entre as pessoas.


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Análise pré-leitura (sem spoilers)

Considerado um dos romances mais importantes do século XX e escrito por ninguém menos que Harper Lee, O Sol é Para Todos (To Kill a Mockingbird) conta uma história com temas controversos como preconceito social, racismo e conformismo com a injustiça. A trama se passa em Maycomb – interior do Alabama – no começo dos anos 1930 e é contada por Jean Louise “Scout”, a sensível filha de doze anos do advogado Atticus Finch. Scout narra a sua rotina na cidade rural e pacata, contando as aventuras envolvendo seu irmão mais velho Jem, seu melhor amigo Dill e seus vizinhos. Mas a sua vida passa a mudar quando seu pai se torna o homem responsável pela defesa do famigerado caso de Tom Robinson, um homem negro acusado de estuprar Mayella, uma mulher branca. A cidade, que antes se portava como um lugar amigável e com vizinhos simpáticos, mostra as velhas garras do preconceito e da intolerância.

O livro foi o ganhador do Prêmio Pulitzer de literatura em 1961 e teve uma adaptação cinematográfica ganhadora do Oscar de melhor roteiro adaptado em 1962. Além disso, teve uma continuação lançada ano passado chamada Vá, Coloque um Vigia (Go Set a Watchman), quebrando o silêncio de mais de 60 anos da autora. Harper Lee era amiga de Truman Capote (inclusive o ajudou a escrever sua grande obra A Sangue Frio) e faleceu no dia 19 de fevereiro deste ano, aos 89 anos.

A obra em si faz com que seus leitores levantem questionamentos sobre a história e sobre sua própria vida. Chega a ser estranho como a autora conseguiu escrever uma obra que se adapta tão bem aos problemas dos dias de hoje. Logo, além de ter uma excelente arte de capa, O Sol é Para Todos consegue sua marca exímia de obras clássicas que todos deveriam ler.

02.jpg Rouxinol (ou Mockingbird, em inglês)

Análise pós-leitura

Essa análise é para as pessoas que já leram o livro. Aqui, farei algumas observações e explicarei algumas metáforas da obra. Se você não leu, recomendo que primeiro o faça, mas sinta-se livre para continuar.

O Sol é Para Todos traz muitas metáforas e simbologias durante a narrativa que ajudam a compreender a mensagem trazida pela história. O título original em inglês To Kill a Mockingbird – que pode ser traduzido como “matar um rouxinol” – traz em si o significado principal da obra e é citado algumas vezes durante a narrativa. Quando Scout e seu irmão ganham espingardas de ar comprimido Atticus explica seu ponto de vista para Jem: “Preferia que você atirasse em latas no quintal, mas sei que vai atrás dos passarinhos. Atire em todos os gaios que quiser, se conseguir acertá-los, mas lembre-se: é pecado matar um rouxinol”. Scout ainda ressalta isso ao dizer “foi a única vez em que ouvi Atticus dizer que alguma coisa era pecado”. O rouxinol em si representa a inocência porque, como diz a própria senhorita Maudie no livro, não destrói jardins e não faz ninhos nos milharais, apenas canta. Isso é representado de várias maneiras ao longo da história, com diversas situações em que pessoas inocentes são injustiçadas de alguma maneira – Tom que não mereceu ser preso, Boo Radley que era infortunado pelas crianças e até mesmo Scout e Jem que quase são mortos. Além disso, o título também é citado no final do livro (que já será explicado).

Já o título traduzido para o português remete à ideia de liberdade como direito universal de qualquer ser humano. O Sol é o direito à liberdade, e todos devem tê-lo independentemente da cor da pele, religião, origem, ou qualquer outra característica.

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A cena do cachorro louco é carregada com todo o peso da situação delicada entre Atticus e seu cliente Tom Robinson. Atticus se mostra, para a surpresa de Scout e Jem, um exímio atirador ao ser obrigado a atirar no cachorro, e essa cena fica marcada na cabeça de Scout por muito tempo. Atticus deixa claro que não gosta e não quer atirar, mas não tem escolha e deve fazer isso – assim como o caso envolvendo Tom, em que Atticus diz que não se perdoaria nunca se não o ajudasse. Além disso, uma boa habilidade em atirar não serve para nada com uma arma descarregada, do mesmo jeito em que as habilidades de Atticus em direito não conseguem salvar Tom de um júri preconceituoso e racista.

O final dá sentido à mensagem inteira da obra. Ewell foi ridicularizado no tribunal e, mesmo vencendo a causa, perdeu toda a sua credibilidade e respeito dos seus amigos e vizinhos. Assim não tem nada a perder e tenta de forma desesperada se vingar de Atticus atacando seus filhos. Mas o inesperado acontece: Ewell é morto com uma facada na barriga. Apesar de muitos leitores ficarem em dúvida fica evidente que o autor dessa proeza foi Boo Radley. O xerife Heck afirma que vai abafar o caso e Atticus pergunta se Scout entende a razão disso. Scout responde gentilmente dizendo: “seria como matar um rouxinol, não? ”, revelando que entregar Boo pelo seu ato heroico seria o mesmo que matar uma criatura inocente. Ao balancear todos os acontecimentos do livro, as dores e as alegrias se equilibram com esse final agridoce, mostrando que na vida nem a dor ou a felicidade tomam o controle completo da situação – isso não soa como amadurecer e crescer?

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Trechos que valem a pena serem citados:

“ Eu não gostava de ler até o dia em que tive medo de não poder ler mais. Ninguém ama respirar. “

“ Você só consegue entender uma pessoa de verdade quando vê as coisas do ponto do vista dela. “

“ Tem gente que... se preocupa tanto com o outro mundo que não sabe viver nesse aqui, basta olhar na rua e ver o resultado. “

“ Nunca sabemos como realmente vivem as pessoas. O que acontece por trás das portas fechadas, os segredos... “

“ Há maneiras de resolver as coisas que você ignora. “

“ Ainda que tenhamos perdido antes mesmo de começar, não significa que não devamos tentar. “

“ Quando a gente quer pegar uma presa, é melhor não ter pressa. É só ficar em silencia que a presa fica curiosa e, tão certo quanto dois e dois são quatro, sai do esconderijo. “

“ As pessoas sensatas nunca se orgulham dos próprios talentos. “

“ A única coisa que não deve se curvar ao julgamento da maioria é a consciência de uma pessoa. “

“ As coisas não podem ser sempre como queremos. “

“ Coragem é fazer uma coisa mesmo estando derrotado antes de começar. “

“ Ninguém precisa mostrar tudo que sabe. “

“ Às vezes precisamos mentir em determinadas circunstâncias, especialmente quando não podemos fazer nada. “

“ Uma multidão, qualquer que seja ela, é sempre formada por pessoas. “

“ Foi preciso uma menina de oito anos para fazer eles recobrarem a consciência, não foi? – perguntou Atticus. – Isso prova que um bando de homens ensandecidos pode ser contido, simplesmente porque eles continuam sendo humanos. “

“ As coisas nunca são tão ruins quanto parecem. “

“ Se só existe um tipo de gente, por que as pessoas não se entendem? Se são todos iguais, por que se esforçam para desprezar uns aos outros? Scout, acho que estou começando a entender uma coisa. Acho que estou começando a entender por que Boo Radley ficou trancado em casa todo esse tempo... é porque ele quer ficar lá dentro. “

“ Sr. Finch, há um tipo de homem em quem devemos dar um tiro antes mesmo de cumprimentá-los. Mesmo assim, eles não valem a bala que gastamos. “

“ As pessoas têm a mania de manter aas rotinas diárias até nas situações mais estranhas. “

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Quer ver uma análise como essa sobre algum livro que você gosta ou quer conhecer mais? Coloque nos comentários!


Pedro Zuccolotto

Amante da arte de fotografar, com um desejo eterno por livros, estudante de jornalismo, músico, viajante e também um simples escritor. Vivendo a vida com meu sarcasmo natural e fazendo o simples ser belo.
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