Pedro Zuccolotto

Amante da arte de fotografar, com um desejo eterno por livros, estudante de jornalismo, músico, viajante e também um simples escritor. Vivendo a vida com meu sarcasmo natural e fazendo o simples ser belo

O Punk no Brasil e sua relação com a Ditadura Militar

Um artigo sobre a conturbada relação entre o movimento Punk e a Ditadura Militar de 64


Por Juliane Assis e Pedro Zuccolotto

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O que é o movimento Punk

O movimento contracultural Punk surgiu na década de 70, em Londres. Sua ideologia consiste principalmente na contestação do sistema capitalista, que tem como objetivo transformar tudo e todos em mercadoria. A maioria dos grupos sociais que se identificavam como Punks se categorizavam também como anarquistas no âmbito político.

Esses grupos contestavam a situação em que viviam, pois o movimento sempre teve sua origem nas parcelas mais desfavorecidas da sociedade. O sentimento de revolta comum nos integrantes desta categoria os unia cada vez mais, criando uma identidade que ressaltava a individualidade. O movimento também servia como uma resposta aos hippies e ao rock progressivo, que pregavam a “paz e o amor”.

A cultura Punk esteve presente em vários âmbitos da sociedade. Conhecidos por estar à frente de lutas sociais defendendo suas ideias, esse grupo teve relevância tanto na política quanto na música e na moda. Por meio das letras, das melodias e das roupas se identificavam, criando um personagem etnógrafo capaz de transmitir uma mensagem a sociedade.

Na música, o Punk era identificado por seu som sujo, agressivo e rápido. Como exemplos, há Sex Pistols, The Clash, Ramones e The Stooges. Nas letras, o sentimento de revolta estava sempre presente. Por exemplo, em God Save The Queen, segundo hit dos Sex Pistols lançado em 1977 durante a comemoração dos vinte e cinco anos da ascensão da Rainha Elizabeth II ao trono inglês, os primeiros versos são “Deus salve a rainha / Seu regime fascista / Fez de você um retardado / Bomba-H em potencial”. Na vestimenta, usavam jaquetas de couro, jeans rasgados, roupas sujas, tarraxas e penteados coloridos que desafiam a gravidade.

gettyimages-84892061-6d8d7f2b-8355-4f27-a8aa-5256fd65f38a.jpgBanda Sex Pistols em show

Apesar de ter sido criada com o objetivo de criticar setores da sociedade, a cultura Punk se tornou hostilizada pela indústria cultural, esta que associou e adaptou tudo deste movimento a algo palatável para vender como um produto midiático.

Por fim, o Punk se desenvolveu em outros países e se adaptou às lutas e condições sociais de cada um. No Brasil ele foi um caso específico, pois se instaurou durante uma Ditadura Militar e gerou muita controvérsia ao representar um papel de significativa importância entre os jovens.

O Punk no Brasil

No Brasil, o movimento começou a surgir no final dos anos 70, em plena Ditadura Militar. As exclamações dos moradores das periferias das grandes cidades não eram ouvidas e a população estava saturada do controle autoritário imposto pelo Estado. No país, o Punk começa a surgir como um movimento de caráter mais ofensivo do que no resto do mundo, dialogando intensamente com a juventude brasileira.

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O início do movimento foi difundido em São Paulo, entre os universitários e trabalhadores mal remunerados. A insatisfação originou-se devido a soma de vários fatores, tais como: más condições de trabalho, falta de emprego, falta de liberdade de expressão e controle excessivo do governo.

O movimento musical Punk, com suas músicas ácidas e agressivas, surgiu como uma válvula de escape. Nessa época, nasciam no Brasil as bandas Restos de Nada e AI-5, umas das primeiras do estilo que foi se disseminando, aparecendo em diversas cidades pelo país. Aborto Elétrico e Plebe Rude foram um dos principais disseminadores da estética Punk no cenário nacional. No Norte, na Bahia, Camisa de Vênus apresenta o estilo.

Em 1982 ocorre um fato importante para o movimento no Brasil: diversos simpatizantes do Punk organizam o festival “O Começo do Fim do Mundo”, no Sesc Pompéia, em São Paulo, que contou com a presença de nomes relevantes no cenário Punk, como Inocentes, Cólera e Ratos de Porão. Esse festival incentivou a organização independente de shows e festivais.

Era comum também a formação de gangues Punk, os chamados Skinheads, nas cidades. Os Punks do ABC Paulista, por exemplo, confrontavam frequentemente os grupos de São Paulo Capital (zona norte e leste). Para os membros dessas gangues, era rotina passar a noite na cadeia devido a agressões e conflitos armados.

Com o passar do tempo, no entanto, houve uma explosão de bandas de grande apelo comercial (como Paralamas do Sucesso, Legião Urbana e Ira!), que foi gradualmente enterrando o Punk no cenário underground da música brasileira.

Resistência à Ditadura

Como o movimento Punk surgiu no Brasil durante o período da Ditadura Militar, ele se concebeu como um símbolo de luta e resistência. Sua ideologia tinha como base os conceitos de liberdade e livre expressão, conceitos esses associados ao anarquismo, o que combinava com as agonizantes necessidades do povo brasileiro, que estava cansado da repressão. Era uma forma de se expressar, se engajar e criticar a pressão causada pela Ditadura.

20130419165322938115o.jpgO Aborto Elétrico fazia apresentações em esquema de guerrilha nas superquadras. Fonte: Correio Braziliense

O movimento Punk contra a Ditadura possuía várias vertentes na música, por exemplo: a banda AI-5 faz referência ao ato institucional número cinco, principal responsável pela censura da liberdade de expressão. Suas letras criticavam o sistema vigente: “Ficamos unidos, como deve ser / Não nos arrependemos do que fizemos / E sim do que deixamos de fazer”. Outra banda com a mesma ideologia era o Aborto Elétrico, que também possuía letras que iam de encontro aos ideais dos militares, como na música Que País é Esse: “Nas favelas, no senado / Sujeira pra todo lado / Ninguém respeita a constituição / Mas todos acreditam no futuro da nação / Que país é esse”. Outras características do personagem Punk eram as roupas, cabelos e atitudes diferenciadas que ajudavam a representar a rebeldia.

Uma das formas mais populares de se manifestar entre os Punks era por meio de Fanzines, um tipo de imprensa alternativa não publicável, que pode ser traduzida literalmente como "Revista de Fãs”. São revistas feitas por grupos com interesses em comum, utilizando colagens a fim de criticar alguma situação. No caso do movimento Punk, eles se reuniam, faziam essas fanzines e distribuíam gratuitamente para outras pessoas saberem a situação ditatorial em que viviam.

Uma das motivações para o avanço do movimento foi o ataque da Polícia Militar ao festival “O Começo do Fim do Mundo”. Nele, quando polícia invadiu, restaram 25 presos e muitos feridos, embora algumas pessoas presentes garantissem que não houve nenhum conflito interno.

O estilo Punk desenvolvido aqui no Brasil, foi além de uma herança do originário de Londres, mas um reflexo da situação política na qual o país vivia. A característica anarquista, violenta, e a oposição à mídia tradicional impulsionou a formação desses grupos que lutavam pelo fim da repressão da ditadura militar por meio de suas manifestações artísticas.

535008.jpgCartaz de evento Punk realizado em 2014

Conclusão

O movimento Punk instaurado no fim da década de 70 no Brasil foi de suma importância para o fim da Ditadura militar, pois trabalhou e desenvolveu o intelecto dos rebeldes, estes que, aos poucos, estavam descobrindo seus deveres e seus direitos. Também é notável a importância que um movimento artístico pode assumir mediante uma situação que cause desconforto nas pessoas.

A música, algo que é comumente consumida apenas para o entretenimento, foi utilizada como uma ferramenta de resistência e autoafirmação do anseio por liberdade. Essas necessidades convergiram para a criação de um estilo musical que era perfeitamente compatível com o que as pessoas sentiam.

As roupas, muitas vezes meros adereços superficiais, reforçavam a opinião e ideologia do movimento. Objetos como jaquetas de couro e jeans rasgados criaram o estigma do rebelde, que foi sendo utilizado para mostrar a todos quem estava insatisfeito com a situação.

Por fim, concluímos que é possível se apropriar de elementos culturais cotidianos, como roupas e música, para reforçar ideologias e apoiar alguma causa. Em específico com o Punk e sua relação com a Ditadura no Brasil, a insatisfação era sempre expressa utilizando esses elementos, o que foi essencial para incentivar a luta e para o desenrolar dos fatos históricos.

0366470514564236a425e90ff20f6822.jpgBanda The Clash em show


Pedro Zuccolotto

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