Pedro Zuccolotto

Amante da arte de fotografar, com um desejo eterno por livros, estudante de jornalismo, músico, viajante e também um simples escritor. Vivendo a vida com meu sarcasmo natural e fazendo o simples ser belo

Quando a tecnologia supera o convívio

Celulares ao vento e aos olhos, sempre.


fireworks-74689_1920.jpg

Noite de ano novo. Famigerado dia 31 de dezembro de 2016, o ano que durou mais que um ano. Um mar de pessoas vestidas de branco aguarda os minutos finais antes do show de fogos, incluindo eu. Uma rolha sai voando de uma garrafa de bebida em algum lugar — aliás, onde elas vão parar depois disso? Outra dimensão talvez? — para uma família brindar ao ano novo. É aquela famosa frase: “ano novo, vida nova”. Será mesmo?

As crianças brincam e correm na multidão. Para elas hoje talvez seja apenas mais um dia normal de saída com a família, sem nada de especial — de certa forma realmente é isso. Ao meu lado, uma família um tanto… peculiar, aos meus olhos. Pai, mãe, 3 filhas pequenas e a avó — todos de branco, claro — em uma rodinha. Todos seguram taças, enquanto o pai aguarda com a garrafa. O pai chama a atenção de todos e diz “selfie da família!”, saca o celular enquanto todos se posicionam e tira a foto. #felizanonovo.

Quase que instantaneamente, a mãe e as filhas também sacam seus próprios celulares e começam a usa-los. Cada uma com seu iPhone — não me pergunte qual modelo pois para mim são todos iguais. Uma no WhatsApp, outra no Facebook, e por aí vai. Todos utilizando o celular, menos a avó. Em cinco minutos começam os fogos. Até aí, para mim, era uma cena normal. Quantas vezes nos deparamos com um grupo de pessoas que, no mesmo ambiente, estão usando no celular? Várias. É algo relativamente comum hoje. Mas, talvez como tudo na vida, é normal até você realmente parar para pensar nisso. Contudo, tenho que admitir que estou até agora pensando o que uma menina de 7 anos posta no Facebook. Nem eu tenho o que postar.

boy-1946347_1920.jpg“É assim que usa?”

Voltando à virada do ano. O relógio bate meia noite. Oficialmente dia primeiro de janeiro de 2017 no Brasil. O monstro brutal chamado 2016 ficou para trás. Agora sim, as garrafas de champanhe são abertas. Rolhas são disparadas sem dó nem piedade. “Feliz ano novo!”, gritam todos quase que como um coral. #sincroniatotal. Os fogos de artifício começam a estourar no ar. Diversas cores vivas pintam o céu a cada explosão — e o melhor, sem aquele TA TA TA TA TA, BOOM ensurdecedor de dia de jogo de futebol que não faz nada além de encher o saco e me dar um baita susto. Bebo um gole do espumante na minha tacinha — na verdade era um copo normal e genérico porque não tínhamos taças, por isso, para efeito de ambientação, eram taças lindas — , mas um outro brilho me chama a atenção. Na verdade, outroS brilhoS. De celulares.

Eu não vou nem entrar no quesito de “quantas pessoas realmente assistem os fogos que filmam”, pois não é o foco aqui — mas sério, alguém realmente assiste? O que quero tratar aqui é como essa cena me fascinou e a cadeia de pensamentos proporcionada por ela. Considero que estamos cada vez mais inseridos na “era do registro”. A maioria das pessoas, sem generalizar, registra muitas coisas da vida. Coisas demais. Tiramos fotos de tudo e todos, filmamos muitas coisas e, no final das contas, os eventos que deveríamos realmente apreciar acabam sendo vistos através de uma tela na palma da nossa mão, sejam eles show de fogos, concertos ou qualquer outro. Está tudo acontecendo logo ali, na nossa frente, mas muitas vezes nos ocupamos mais em registrar do que apreciar aquilo — e digo “nos preocupamos” porque eu também faço isso ocasionalmente. Talvez hoje, pelo registro ser mais fácil, acabamos dando menos atenção ao apreciar o momento. É diferente de tirar fotos artísticas e de paisagens quando se viaja, por exemplo. Fotografia é uma arte que amo. Mas essa cultura de fotografar tudo no cotidiano chega a parecer uma doença, uma compulsão — que nem colocar esse maldito filtro para ficar com cara de cachorro nas selfies.

audience-1867983_1920.jpgO importante é filmar.

Até aí, filmar pode ser considerado ok. Mas eu simplesmente não consegui compreender — até agora, pasme — o por que a mulher na minha frente estava transmitindo o show de fogos em uma live no Facebook. #aovivasso. Quem sabe faz ao vivo, não é mesmo? Não me entra na cabeça como isso pôde acontecer. Apenas não entra. A pessoa em vez de apreciar o negócio com os próprios olhos prefere transmitir ao vivo no Facebook? Mas aí eu lembro que quem não está fora de casa fazendo algo especial pode muito bem estar navegando nas redes sociais e talvez até queira ver os fogos transmitidos ao vivo. Não chega a ser triste isso? Talvez deprimente também, não sei. Talvez eu que seja o chatão aqui.

Isso me faz lembrar de uma notícia de 2015 — que, parando pra pensar agora, já é considerado 2 anos atrás, Jesus — em que uma senhora de idade “chamou a atenção” em um evento porque admirava com os olhos o que acontecia enquanto todas as outras pessoas filmavam. Chegamos a tal ponto que quando alguém foge do padrão literalmente vira notícia. O quão bizarro é isso? Daqui a pouco teremos notícias como “homem anda na rua sem olhar no celular e não tromba em ninguém" ou “casal é flagrado interagindo ao vivo sem aparelhos eletrônicos”. Eu não quero terminar minha faculdade de jornalismo para isso.

blanding_091515_blackmass2_liv_boston_globe_boston_globe_via_getty_images_1.jpg“Mulher aparece sem câmera em Brookline, nos EUA, durante pré-estreia de ‘Aliança do Crime’ (‘Black Mass’), estrelado por Johnny Depp (Foto: John Blanding/The Boston Globe/Getty Images)” — G1


Pedro Zuccolotto

Amante da arte de fotografar, com um desejo eterno por livros, estudante de jornalismo, músico, viajante e também um simples escritor. Vivendo a vida com meu sarcasmo natural e fazendo o simples ser belo.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// //Pedro Zuccolotto