Pedro Zuccolotto

Amante da arte de fotografar, com um desejo eterno por livros, estudante de jornalismo, músico, viajante e também um simples escritor. Vivendo a vida com meu sarcasmo natural e fazendo o simples ser belo

Simplicidade do medo abstrato

É muito fácil continuar a agir quando se coloca toda sua energia para fazer algo estupidamente inútil, ainda mais quando se está no lugar do Thomas.


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É muito fácil continuar a agir quando se coloca toda sua energia para fazer algo estupidamente inútil. Ali, sentado, babando, encostado na parede e em cima de uma poça de vômito seca se encontrava Thomas. Rapaz engraçado, bom de papo, só tinha um defeitinho gigantesco: adorava o êxtase artificial. Sim, drogas — e geralmente as ilícitas. Thomas adorava como a heroína entrava no seu corpo: suas veias se tornavam trilhos para o turbilhão que a droga proporcionava, como um trem que passa rasgando a paisagem. Tchu tchuuu a uns 500 quilômetros por hora.

A triste verdade é que Thomas já não se importava. Sua dignidade havia baixado a tal ponto que sentar babando em uma poça de vômito seca era como sentar em um trono real. Ou sentar em uma cadeira. Ou em uma tábua com pregos. Entende o que eu quero dizer? A decadência é o status quo. Pode doer em mim ou em você, mas nele não.

Thomas acorda. Seus olhos inchados, vermelhos e cansados olham em volta. Um lugar muito escuro. Seus olhos piscam de dúvida. Nos ouvidos, uma batida de festa alfineta seus tímpanos. Seu cérebro parece querer implodir com esse barulho. Suas pernas e braços se movem lentamente, deixando cair o torniquete e a seringa vazia. Thomas se toca que está no banheiro de uma boate — drogado, claro. Seu bolso vibra. Com certa dificuldade, seus dedos encontram o celular. 03:39. “Porra…”. Senhoras e senhores, a mente incrivelmente monossilábica de Thomas volta a pleno funcionamento. Todos a bordo.

Thomas se levanta e sai. A música está mais alta agora — se antes o barulho alfinetava seu ouvido, agora parecia estar martelando um prego. As pessoas chacoalham seus corpos no ritmo. “Nossa…”. Thomas caminha entre os moribundos corpos em movimento, tomando cuidado para não cair e acabar desmaiando em outra poça de vômito. Os olhos de Thomas miram com força na porta grande com o letreiro SAÍDA aceso em cima.

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A porta se abre e Thomas cambaleia para a rua. Uma chuva cai das nuvens e bate no asfalto. “Chuva…” constata habilmente Thomas e sua mente monossilábica. De verdade, ele está perdido. Na vida, quero dizer. Sabe o caminho para casa, só não quer pega-lo. No meio da chuva, surge uma figura. Uma mulher, jovem, bonita e de olhos claros — pelo menos, era o que acredita ter visto Thomas, no escuro, semi-drogado. Thomas nem pensa duas vezes — provavelmente porque não conseguiria completar tal raciocínio — e se convence de que precisa dessa moça. “Sim…”, balbuca.

Suas pernas o levam em direção à moça. Ela, já acostumada com esse tipo de situação, atravessa a rua. Ele também. O clássico jogo de gato e rato. Ela corre. Ele também. Não demorou nem um minuto para ele se jogar em cima dela. Ela não grita, apenas se debate um pouco. A mente de Thomas se alerta. “Estranho…”. Mas logo se acalma, claro. “Fácil.”

A mulher se chama Jéssica. Jéssica não se mexe, mesmo sentindo o bafo de bebida e o mal-cheiro de quem se drogou no banheiro. O coitado parecia não conseguir nem pensar em duas palavras seguidas. No fundo, ela tinha dó, mas o desprezo era maior. Ele está em cima dela, tentando abaixar suas calças. O cinto, no entanto, se mostrou um inimigo à altura de sua vasta inteligência.

Jéssica é uma jovem de cabelos e olhos castanhos. Uma policial. Estava de folga. Contudo, sua arma sempre anda em seu coldre, escondido na altura das costelas. Afinal, nunca se sabe quando um drogado vai se jogar em cima de você. A jovem dá uma bela testada na cara do drogado. Ele urra de dor e cai no chão, com as mãos cobrindo o local ferido. Ela se levanta, tira a sujeira da roupa e olha para ele. Em meio a dor, ele pronuncia “vaca!”, alto e claro.

O que se passa a seguir é rápido e preciso. Ela saca a arma e mira entre os olhos do rapaz. Ele abre a boca para dizer algo, mas a bala atravessa a pele antes. Seu corpo relaxa. Sangue escorre e se mistura com a água da chuva, parecendo tinta guache numa tela cinza.

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Um baque.

Thomas desperta. Desta vez, é pra valer. Thomas não consegue mexer seus braços nem suas pernas. Seus olhos devoram a sala de maneira frenética, por não saber o que está acontecendo. Não se vê quase nada. Ele olha para baixo e vê suas pernas e seus braços estrangulados por panos e tecidos à cadeira. Cheiro de mofo invade suas narinas com força. As amarras machucam. Só então Thomas percebe que está amordaçado também. Não consegue gritar. “Socorro!” seus olhos gritam.

Uma porta se abre a sua frente. A luz soca seus olhos o deixa cego momentaneamente. Alguém entra e fecha a porta. Thomas não consegue enxergar com clareza quem se estende a sua frente. A criatura se aproxima e Thomas percebe algo brilhante pendulando na mão de quem se aproxima: uma lâmina. “Olá querido”, diz a criatura numa doce voz feminina. Seus cabelos balançam conforme anda. Ela para na frente dele e passa a navalha lentamente embaixo do olho de Thomas. Seus olhos se arregalam de dor e desespero. “Vamos continuar brincando?”

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Pedro Zuccolotto

Amante da arte de fotografar, com um desejo eterno por livros, estudante de jornalismo, músico, viajante e também um simples escritor. Vivendo a vida com meu sarcasmo natural e fazendo o simples ser belo.
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