Pedro Zuccolotto

Amante da arte de fotografar, com um desejo eterno por livros, estudante de jornalismo, músico, viajante e também um simples escritor. Vivendo a vida com meu sarcasmo natural e fazendo o simples ser belo

Aprendendo a explorar detalhes com Um Lugar Silencioso

Sobre A Quiet Place, de John Krasinski, 2018


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Cada vez mais o cinema vem provando que a linguagem é o que mais pesa em um filme. A forma acaba tendo mais peso do que o conteúdo em si, contribuindo positivamente para uma narrativa mais trabalhada, rica e que fuja do óbvio.

Pensando nessa questão, Um Lugar Silencioso (A Quiet Place) da uma verdadeira aula de como utilizar a linguagem de uma maneira única e impactante. A trama se passa em um mundo dominado por criaturas extraterrestres que caçam os humanos através do som, forçando os sobreviventes a viverem da forma mais silenciosa possível. Nesse cenário acompanhamos a família Abbott, composta por Lee (John Krasinski), Evelyn (Emily Blunt) e seus filhos.

A magia acontece justamente nesse detalhe que, apesar de parecer pequeno de início, é o que define toda a trajetória e o tom do filme. Trabalhar em uma ficção onde para sobreviver não se pode emitir sons é limitar um dos maiores recursos utilizados no roteiro: o diálogo. Nessa premissa, o uso da criatividade se torna um pilar para trabalhar com imagens que supram o que precisaria ser dito com palavras. Isso vai desde as coisas mais estampadas na cara do espectador, como a dinâmica entre a família e o ambiente, até o subtexto, que seria o relacionamento entre os membros dessa família e seus sentimentos.

Para a execução dessa narrativa mais ousada, o design sonoro do filme foi cuidadosamente trabalhado. Em momentos de tensão, até os mínimos detalhes auditivos são trabalhados para criar o suspense necessário. Seus responsáveis foram Ethan Van Der Ryn e Erik Aadahl, que já tiveram uma boa experiência sonora com Transformers e Godzilla.

O longa também é a estréia de John Krasinski na direção. John ("alto e bonito", segundo o IMDB) é conhecido principalmente por sua participação no sitcom The Office, o que causou certo receio em parte do público quanto ao tom do filme e de sua atuação.

0_kLb76ARQD6yECIHn.jpegJohn Krasinski, por Heather Sten para o The New York Times

Em uma entrevista para o New York Times, o diretor afirmou que uma das motivações para fazer esse filme foi um questionamento sobre como as pessoas iriam reagir a um filme não tão barulhento quanto os famosos blockbusters que dominam o cinema hoje. Afinal, estamos tão acostumados com a poluição sonora que grandes barulhos já são como velhos conhecidos para nós.

"Nós vivemos em um mundo onde você assiste a todos esses filmes, como os da Marvel, e tem muito som acontecendo, muitas explosões. Eu amo esses filmes, mas tem algo sobre todo esse barulho que te agride de certa maneira. Nós pensamos, e se tirássemos tudo isso?" — John Krasinski

A Quiet Place pode ser considerado como um filme da categoria pós-terror, o que provavelmente influenciou o diretor na escolha da maneira de contar essa história. Com exceção de alguns momentos, não há uso massivo dos recursos tradicionais do terror como "jump scares" ou "cheap surprises". Outro detalhe importante é a duração do filme de cerca de 90 minutos, provando que nem sempre é preciso de duas horas para entregar um bom filme com uma história bem amarrada.

Com uma história original, extremamente concisa e com momentos bem dosados de drama, suspense e terror, Um Lugar Silencioso da uma verdadeira aula de como explorar uma narrativa utilizando criativamente a ausência de um importante recurso presente tanto no cinema quanto nas nossas vidas. É um filme diferente que se consagra pelo uso criativo de sua linguagem.

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