Pedro Zuccolotto

Amante da arte de fotografar, com um desejo eterno por livros, estudante de jornalismo, músico, viajante e também um simples escritor. Vivendo a vida com meu sarcasmo natural e fazendo o simples ser belo

Combinações

Observações de uma sexta-feira


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São 18:34 no transporte público metropolitano de São Paulo. Linha verde do metrô. Enquanto leio em pé, no meio da boiada, uma figura se destaca entre as pessoas. É uma garota. Roupa normal, olha pro chão enquanto o vagão desliza pelos trilhos. Seus cabelos são castanhos com as pontas verdes em um tom que combina exatamente com seus olhos. É uma combinação sagaz. Cria uma harmonia de cores que combina muito bem com a pele do seu rosto, levemente pálida.

Olhei meu reflexo no vidro da porta fechada do vagão e vi que, curiosamente, eu tenho a minha combinação: olhos castanhos e cabelos castanhos. Tons parecidos. Minha pele, nem tão pálida como a dela, cria uma certa ressonância no conjunto. De forma curiosa, muitas pessoas também têm essa combinação, mas é tão repetida que se camufla no cotidiano. A repetição esconde a beleza.

De tanto ir e vir, todos os dias, os padrões começam a se mostrar para mim, como no coração da natureza selvagem. Todo dia, antes de entrar no metrô, cumprimento uma cadelinha, da raça poodle, que fica em cima de uma cadeira de um cabeleireiro do caminho. Hoje, no entanto, descobri que na verdade são duas cadelinhas, exatamente iguais — estariam elas brincando com a minha inocência?

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Quando chego na estação final antes do ônibus, também vejo dois rostos conhecidos que, até três dias atrás, me seriam completamente estranhos. O primeiro é de um homem que, diariamente, perto das 19 horas, estaciona sua moto em frente á saída de pedestres. Carregando uma roupa pesada de motociclista, um capacete extra e uma mochila de delivery, todo dia ele aguarda uma mulher que aparece quase sempre 10 minutos depois dele chegar. Todos os dias ele se abraçam, dão um beijo e saem.

O segundo rosto é de uma mulher. Carregando maquiagem no rosto — batom e sombra — e uma bolsa aparentemente cara na mão, ela chega todo dia, por volta desse horário, para esperar um carro. Todos os dias ela saca um fone de ouvido grande e vermelho para se distrair. Especificamente hoje, sexta feira, ela está usando botas marrons com forro de oncinha (uma combinação não muito boa, se me permitem a observação).

Mas algo quebra os padrões: aparece um homem, cambaleando, com uma lata de cerveja na mão. Parece irritado com algo. Em meio ao torpor alcoólico, ele balbucia algumas palavras que não consigo entender, mas há duas coisas que ele repete com frequência: “hierarquia” e “filhos da puta”. Ele sempre fala olhando pra cima, como se estivesse brigando com quem está no poder, ou talvez ele só não saiba para onde olhar. Aos poucos, crio intimidade entre estranhos que nunca troquei uma só palavra.

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Pedro Zuccolotto

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