Pedro Zuccolotto

Amante da arte de fotografar, com um desejo eterno por livros, estudante de jornalismo, músico, viajante e também um simples escritor. Vivendo a vida com meu sarcasmo natural e fazendo o simples ser belo

Paternidade ecoando pelas gerações

Sobre A Place Beyond The Pines, de Derek Cianfrance, 2013


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Alerta: a leitura será mais interessante caso já tenha visto o filme.

O ser humano costuma ter pouca noção do impacto que suas ações podem gerar a longo prazo. Isso pode ser transportado para camadas bem distintas da sociedade, abrangendo desde a camada mais geral e macro que atinge a todos, como as ações do homem perante o meio ambiente, até a camadas mais particulares, como famílias e relacionamentos. Trabalhar com recortes específicos de realidade como essa pode ser a chave para uma obra prima no audiovisual.

Dirigido pelo promissor Derek Cianfrance, A Place Beyond The Pines é um filme sobre o legado da paternidade, mas que foi vendido como uma história policial. A trama se passa na cidade de Schenectady (N.Y.) e conta a história de Luke (Ryan Gosling), um motociclista com talento singular que descobre que tem um filho recém-nascido com sua ex-namorada Romina (Eva Mendes). Para dar sustento a eles, Luke usa suas habilidades para assaltar bancos e acaba encontrando Avery (Bradley Cooper), um policial.

A trama é longa: possui duas horas e vinte minutos, três atos com protagonistas distintos em tempos diferentes. São como três histórias em uma que se costuram sob um mesmo fio, sendo esse o elemento chave para entender como a trama trabalha seu principal foco: os ecos que as atitudes geram para gerações futuras e como podemos mudar isso. É interessante notar que essa complexidade narrativa do roteiro vem se tornando uma assinatura do diretor, já que Blue Valentine também trabalha com histórias paralelas que dariam um filme cada.

A narrativa em si trata de como esses ecos podem levar a caminhos opostos, principalmente no mundo de Luke. O diferencial está em como o diretor trabalha com as imagens com um gatilho para que o espectador reforce a ideia de reverberação e legado — mostrando que o uso inteligente da linguagem pode dar um bom fôlego a um filme.

Luke escolhe o caminho errado para fazer a coisa certa. Ele vive uma vida instável e confronta a lei para sobreviver e tentar deixar algo para seu filho, o que acabada o levando à morte. Jason, 15 anos depois, começa a seguir os passos do pai inconscientemente, se envolvendo com a violência da mesma maneira. Observe como as imagens acionam o gatilho e trazem essa sensação. Sempre é trabalhado ângulos semelhantes de ações equivalentes, porém proporcionais ao mundo e época de cada personagem.

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Este recurso é empregado também para mostrar contradições fortes. O diálogo de Jason com seu pai adotivo poderia ter sido feito em qualquer lugar da cidade, porém foi feito na mesma lanchonete em que seu pai biológico lhe deu sorvete pela primeira vez. As cores também são trabalhadas para mostrar a diferença do humor e da situação.

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O ápice desse recurso se da no início e no final do filme. No começo, Luke entra com sua moto para fazer a performance do globo da morte. No final, Jason se vai pela estrada em busca da liberdade. Enquanto o pai se prende nas suas consequências, o filho foge, quebrando esse ciclo. Isso também remete um pouco à questão de que devemos sempre nos preocupar com a evolução da próxima geração, tratada de forma singela em Logan.

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A trilha sonora também foi trabalhada com cautela. As composições originais, feitas por Mike Patton, trabalham muito bem a melancolia e a carga do filme, especialmente The Snow Angel. Já a música da cena final, The Wolves (Act I And II), de Bon Iver, delimita bem toda a reflexão filosófica retratada no longa: destino e consequências.

Someday my pain, someday my pain Will mark you Harness your blame, harness your blame And walk through

O processo de escrita do filme também chama a atenção. Em uma entrevista para o IndieWire, o diretor explicou toda a complicada e sagaz jornada que foi escrever esse roteiro. Sua primeira versão tinha 158 páginas (quase três horas de filme) e o responsável pelo financeiro pediu para reduzir a 120 (duas horas) se ele quisesse o dinheiro para produção. Dereck então reduziu as margens da folha para disfarçar o tempo excedido — e o melhor é que ninguém percebeu. O contrato exigia limite de duas horas e vinte de filme e, na versão final, ficou com exatamente um frame antes de estourar esse tempo. Ele também contou como foi a (inusitada) escolha de Ryan Gosling para o papel principal:

“Estávamos conversando sobre ‘Blue’ e eu perguntei ao Ryan durante um jantar “Hey cara, você fez tanta coisa em sua juventude, existe algo que você não fez mas sempre quis?”. Ele disse, “Bem, eu sempre quis roubar um banco, mas sempre tive medo da cadeia para fazer isso”. Eu disse “Estou fazendo um filme sobre um ladrão de bancos, você faria?” e ele disse “Eu faria se fosse com uma moto(…)”

0_HZ-hp4Ge8xyD5NXS.jpgRyan Gosling (esquerda) e Derek Cianfrance (direita). Créditos: Robert Wright para o The New York Times

The Place Beyond The Pines é um filme que se marca pela complexidade narrativa tratada de forma linear, o que demanda um trabalho mais bem pensado e executado porque clama tanto um trabalho maior nas imagens quanto na escrita do roteiro, o que claramente foi feito com atenção. Outro ponto forte de destaque são as imagens. Sean Bobbitt, que também foi responsável por Shame e 12 Years a Slave, realiza um trabalho incrível de fotografia e colorização, trazendo um mood único que combina com cenário e tom da trama. As atuações, com nomes de peso, não deixam a desejar em nenhum momento — até mesmo para os jovens atores que interpretam os filhos. Agrada desde os mais críticos que procuram algo mais complexo até os que querem um filme de ação para se entreter. Ah, e claro, tem o Ryan Gosling tatuado sem camisa, o que dificilmente vai desagradar alguém.


Pedro Zuccolotto

Amante da arte de fotografar, com um desejo eterno por livros, estudante de jornalismo, músico, viajante e também um simples escritor. Vivendo a vida com meu sarcasmo natural e fazendo o simples ser belo.
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