Pedro Zuccolotto

Amante da arte de fotografar, com um desejo eterno por livros, estudante de jornalismo, músico, viajante e também um simples escritor. Vivendo a vida com meu sarcasmo natural e fazendo o simples ser belo

Por que as pessoas não assinam jornais?

Inquietações de um estudante de jornalismo


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Recentemente resolvi assinar um jornal. Comecei a procurar os preços dos que mais acesso para tomar uma decisão — apenas planos de assinatura digitais. O jornal Estadão cobra R$ 19,90 por mês para acesso completo ao site. O Nexo cobra R$ 12,00 por mês. A Folha, que foi a escolhida, cobra R$ 29,90 por mês, mas possui desconto para universitários de 67%, custando R$ 9,90 mensais (Você assina jornal ou não, comenta ai e me conta o motivo).

Claro que como jornalista posso ser suspeito para falar sobre o assunto, mas o que me inquietou foi relacionar o custo com o benefício. Vivemos em um mercado em que o jornalista não é muito valorizado — no geral, as profissões de comunicação não são. A principal fonte de renda dos grandes jornais e revistas são os anunciantes, não seus assinantes. Isso cria um cenário desastroso do ponto de vista de valorização da profissão — afinal, a sociedade, em sua maioria, não acha que o trabalho jornalístico vale dinheiro. Para tentar contornar isso, muitos sites de notícias utilizam o paywall, ferramenta que muitas pessoas odeiam e já descobriram como burlar.

Estudei durante esse semestre — com o querido professor Roberto Joaquim — que, na verdade, o que está em crise é o modelo de negócio do jornalismo e não o jornalismo em si. Afinal, em meio a diversas situações pavorosas para a sociedade — leia-se crise de refugiados / pobreza / corrupção / etc — a imprensa é uma poderosa arma de combate. Contudo, temos esse problema, principalmente no Brasil, de que as pessoas não querem pagar para ler as informações. A pirataria também foi um fator que contribuiu. Isso vem se revertendo em alguns setores específicos, como no caso do audiovisual — leia-se Netflix.

Aos números

Por que a maioria prefere pagar uma Netflix, por exemplo, e não um jornal? Creio que existam muitos motivos. O primeiro é a facilidade trazida à palma da mão em relação ao processo de piratear, que consiste em procurar, baixar e procurar legenda. No final de 2017, estimava-se que havia cerca de 6 milhões de usuários na plataforma. Com o jornal, no entanto, já recebíamos de graça nas mídias sociais há muito tempo. Ficamos tão acostumados a consumir informação de forma gratuita que esquecemos que, atrás desta notícia que você lê em um veículo, existe alguém que precisa escrever. Esse alguém, por acaso, estudou jornalismo por 4 anos ou mais, leva isso como profissão e depende disso para pagar suas contas.

O interesse nos jornais vem diminuindo há algum tempo. Em 2010, segundo pesquisa encomendada pela Secretaria de Comunicação (Secom) da Presidência da República, 46,1% dos brasileiros liam jornais impressos. Destes, 24,7% liam diariamente. Em 2013, o número abaixou para 25% dos brasileiros, com a leitura diária nos 6%.

Agora sobre a circulação, com dados da Associação Nacional de Jornais. Em 2002, a Folha tinha circulação de 346 mil exemplares por dia. Em 2015, eram 189 mil. Segundo dados do Instituto Verificador de Circulação (IVC) publicados no Poder360, a circulação digital da Folha passou de 159 mil em 2014 para 164 mil em 2017, mas a impressa foi de 211 mil para 121 mil no mesmo período, ou seja, houve um ganho de 5 mil mas uma perda de 110 mil. Com os outros veículos no Brasil, algo parecido ocorre.

1_68Z6VR1J6joZl6gyPkc6Ow.pngGráfico retirado de uma matéria do site Poder360

Como afirmei antes, isso cria um cenário onde os jornais se sustentam pelos anunciantes. Do ponto de vista de um negócio, é um horror. Não há uma valorização do material por parte do principal consumidor. Só o New York Times, no final de 2017, somou 2.6 milhões de assinantes digitais. É sinal de que algo está errado.

O que mudar?

No começo deste ano, foi publicado um estudo da Media Insight Project sobre o que leva os leitores a assinarem um jornal. Foram consultados 90 jornais de 12 companhias jornalísticas diferentes dos EUA. Dados curiosos foram mostrados. Como pré-condições para assinar, 60% queria acesso às notícias locais, 40% queriam acesso a vários artigos que julgaram interessantes e 31% queriam ajudar o jornalismo local. No final das contas, 45% assinou devido a uma promoção ou amostra grátis. Entre os assinantes do impresso, o gatilho foi um desconto (26%). Entre os assinantes digitais, o gatilho foi eliminar o paywall (47%).

Porém, o estudo é feito com norte-americanos, que possuem uma ótica diferente da nossa. Aqui, temos diversos fatores que fazem destoar desses dados. Há o nível de educação e leitura da sociedade. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro. A crise econômica presente também retém o dinheiro no bolso dos brasileiros e, claro, há todo o juízo de valor embutido culturalmente na sociedade sobre os jornais, principalmente em tempos de fake news e disputas políticas extremamente polarizadas.

Em um relatório traduzido por Ada Félix na Revista de Jornalismo ESPM, o que se tem hoje é um cenário modificado pelas redes, onde a linearidade e passividade do leitor foram eliminadas. A cadeia produtiva confortável de antes, típica da era industrial, foi modificada, já que hoje a velocidade e a escala da produção de informações está infinitamente maior. Deve-se mudar a forma de relacionamento com o leitor, valorizando o público mais digital, ao contrário da Abril que, por exemplo, oferece apenas planos de assinatura para impressos ou impressos+digitais — sendo o último mais caro, claro. É preciso adaptar-se, descer do pedestal e aceitar a mudança.

Acima disso, falta também a valorização por parte da sociedade sobre o trabalho do jornalista, que hoje é essencial. A imagem da imprensa hoje é manchada, principalmente por polarizações políticas ou pura ignorância. Alguns veículos também produzem outros projetos midiáticos, como a Folha e seus documentários disponíveis de graça no YouTube — alguns premiados internacionalmente, como a série Um Mundo de Muros. Isso agrega ainda mais valor no jornal, que acaba não tendo o devido reconhecimento. Contudo, acredito que se houvesse um maior incentivo por parte da imprensa, talvez o cenário seria revertido. Agora, só resta a dúvida sombria do que o futuro guarda para a imprensa.

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Pedro Zuccolotto

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