Pedro Zuccolotto

Amante da arte de fotografar, com um desejo eterno por livros, estudante de jornalismo, músico, viajante e também um simples escritor. Vivendo a vida com meu sarcasmo natural e fazendo o simples ser belo

Por que Vidro falhou?

Sobre Glass, de M. Night Shyamalan, 2019


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Shyamalan terminou Fragmentado (Split) com um excelente gancho para uma continuação, confirmando que este e Corpo Fechado (Unbreakable) fazem parte do mesmo universo. Uma jogada muito boa, já que Fragmentado não foi em nenhum momento vendido desta maneira. Contudo, Vidro (Glass) não conseguiu atender às mínimas expectativas que prometeu cumprir.

O filme começa com David (Bruce Willis) procurando por Kevin (James McAvoy), que continua com seu hábito de sequestrar e matar garotas. Os primeiros 20 minutos do filme são excelentes e mostram a potência máxima que o filme poderia ter atingido: há suspense, o uso dos poderes dos personagens e a briga que todos estavam ansiosos para ver. O problema é que isso acaba quando Dr. Ellie Staple (Sarah Paulson) captura ambos e os leva para uma instituição de tratamento mental. Lá, descobrimos que Elijah, ou Sr. Vidro (Samuel Jackson), também foi capturado — o que já sabíamos por conta de trailers ou pelo pôster. A doutora então começa um árduo trabalho de tentar convencer os três de que eles sofrem de um problema mental e que não têm poderes.

A partir desse ponto o filme troca de gênero e passa a ser algo mais para um suspense do que para um filme de super-heróis. O problema é que essa parte é conduzida pela doutora com diálogos chatos e que cansa rapidamente a história, já que ela tenta invalidar tudo aquilo que o expectador presenciou em dois filmes anteriores. Isso é querer duvidar muito da capacidade do público. Os fatos do universo já foram mostrados. Para completar, há uma insistência incômoda em querer apresentar e explicar conceitos trazidos de HQ‘s através da fala dos personagens, uma ferramenta extremamente chula de um roteiro.

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O diretor já carrega uma fama de querer mostrar o ponto surpreendente no final do seus filmes, haja visto O Sexto Sentido, A Vila e até Fragmentado mesmo, porém os conceitos apresentados em Vidro demandam muito da compreensão de quem está assistindo e acaba não convencendo. A impressão que passa é de um roteiro fraco que foi feito às pressas semana passada e não passou por nenhum tratamento decente.

Infelizmente os problemas não se resumem a isso. Me incomodou bastante a relação criada entre Casey (Anya Taylor-Joy maravilhosa), a menina que Kevin poupou, e o próprio sequestrador. É dado a entender que ela, de alguma forma, se apega ao Kevin, mas isso não foi mostrado em cena em nenhum momento nem em Vidro nem em Fragmentado. Foi uma tentativa de criar uma personagem com algo semelhante à Síndrome de Estocolmo, talvez, mas que falha por não mostrar a evolução disso em cena. Aliás, a participação dela, do filho de David e da mãe de Elijah acabam não acrescentando nem movendo a história para frente, se tornando um recurso dramático quase que barato.

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M. Night Shyamalan criou um conceito extremamente interessante com “heróis possíveis“, digamos assim. É diferente e oferece uma gama enorme de possibilidades, porém o filme se perde nos próprios conceitos e falha em justificar sua própria existência. Pior do que isso tudo, dá um fim aos seus personagens que chega a ser desrespeitoso — sério, numa poça?

O filme tem seus méritos em alguns pontos. As cores são trabalhadas de uma forma interessante, as cenas são bem filmadas e o casting é excepcional — principalmente o McAvoy — mas tudo isso é perdido nesse labirinto que o próprio filme cria e não consegue se retirar. O que consigo sentir é tristeza de ver um universo construído com um conceito tão bom ser desperdiçado com um final bem mais ou menos que soa muito como um Deus Ex-Machina.

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Pedro Zuccolotto

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