solidão sociável

O uivo do Silêncio e a descoberta humana do verdadeiro Conhecimento

Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo.

A sociedade atual pensada através da música

A música nos embala desde sempre. Ao nascermos, ao andarmos, ao irmos para o trabalho, a música está ali. Eis que, em um convite modesto, a lista abaixo mostrará um percurso para explicar nossa sociedade atual através de algumas músicas, algumas brasileiras, outra internacionais, mas todas com um fundo reflexivo sobre o cotidiano que vivemos faz algumas décadas - e precisa ser modificada, muitas vezes.


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Vivemos em tempos modernos. A modernidade, entretanto, não está diretamente vinculada à tecnologia ou aparatos tecnológicos como computadores e celulares, mas sim a um período de mudanças drásticas em geral, tal qual a própria noção de ciência, assim como de grandes descobertas e tomadas de decisão. Historicamente, vivemos na modernidade a pelo menos quinhentos anos, desde a expansão marítima iniciada pelos europeus no século XVI. Para alguns pesquisadores, lidamos com a modernidade no momento em que Burguesia e Aristocracia se deram as mãos, gerando novas formas governamentais, principalmente a partir de duas grandes revoluções do século XVIII: a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. Independente de quando exatamente, a modernidade está muito em nós, vivemos as concepções de que moderno se refere diretamente ao novo, e que este novo é praticamente irrisório e está em constante surgimento.

Com toda esta reflexão inicial, não somente a sociedade, os poderes político e econômico que sofreram e sofre as influências das mais diversas formas de pensamento. A música, elemento essencial da vida humana, indispensável para alguns, vital para outros, também recebeu e incorporou demais todas minúcias e falácias em todos os tempos pelos quais passou até então. Desta maneira, viemos aqui para mostrar, em um percurso musical, como sentimos, refletimos e, inclusive, rechaçamos diretamente aquilo que vivemos. Com a intenção de não ser catedrático, muito menos crítico ferrenho, convido a todos para o pensamento, para o debate de como, sutilmente, temos ferramentas e instrumentais para encarar o cotidiano que se coloca diante de todos nós, com suas queixas, injustiças e tradicionalismos decrépitos que precisam ser combatidos.

O percurso pretendido aqui se dará de uma forma pouco sistemática, sem ser em ordem cronológica, por exemplo, mas a partir de músicas que se referem a questões sociais e políticas pontuais. Longe de ser o único percurso correto, mantenho a postura de que, para mim especificamente, este percurso faz sentido e se completa como o necessário para a mínima compreensão que nos leva a mudança de ideias, e a partir desta mudança de ideias, para a mudança de comportamentos, afim de adquirirmos, dia a dia, uma melhora significativa.

1. Yoav - Adore, adore

Antes de falar sobre a música em si, uma anedota de como ela veio a meu conhecimento. Há muitos anos, em 2010, para ser exato, eu assistia à série The Mentalist e, em um dos capítulos, a música estava no aparelho da vítima que gerou o caso daquele episódio pontual. Para descobrir, recorri ao Google, mas ele não sabia. Tive que tirar um print da tela e dar muito zoom para conseguir ler o nome.

Anedotas à parte, sem dúvida é uma música que merece ser a primeira da discussão. O próprio título já se remete ao verbo adorar, mas não o adorar equivalente a gostar, mas sim ao de adoração. A letra, como um todo, discute todos os tipos de situação em que a adoração é prejudicial, e não só, é imposta. O primeiro verso já abre o contexto do enredo: "Essa é a história / Que o tempo esqueceu", mostrando como já não temos mais como surgiu, mas que está aí muito "naturalizado". De todas as maneiras, o próprio abuso de poder se reflete em versos como "Preparados ou não / Aqui vou eu / Estou livre", mostrando mais uma vez que o abuso precisa de um abusador, uma vontade de abusar, nada além. E quando esta vontade se estrutura, veremos tudo aquilo que estamos muito acostumados: "Ponham-se em seus joelhos / E me adorem!". Desta forma, Yoav estreia a nossa lista de maneira a tratar como a adoração é um problema conjuntural, que se não for combatido por via da razão, haverá a binaridade já existente: um "superior" e seus adoradores (consciente ou inconscientemente).

2. A-ha - The sun always shines on tv

Sem dúvida nenhuma, o título da música reflete exatamente o pretendido por aqui. "O sol sempre brilha na tv" não é nada mais do que a própria crítica a estereotipias que os programas televisivos (normalmente novelas e filmes), que existe uma melhora repentina, sem muita explicação. Esta falta de lógica, uma esperança impensada, é o problema: se não há qualquer tipo de atitude de mudança, o mundo sempre refletirá aquilo que somos e como vivemos. Desta maneira, a crítica principal da música está, em si, na falsidade das circunstâncias, em uma falsificação da esperança, não em dizer que a esperança é ruim por si só. Na mesma toada, ao vermos o clipe, a banda canta em um local para manequins vestidos como seres humanos. Falsear a vida, a mudança, a esperança é problemático. Esperar a mudança na vida, ter esperança de que tudo pode ser melhor, não.

3. Cazuza - Burguesia

Cazuza, ó, Cazuza! Sem dúvida, um ícone da arte musical brasileira, conhecido por sua posição política muito forte e comentários ácidos em relação às classes sociais mais abastadas. Com esta música, para ser sincero, não tem muito o que dizer dela, apenas escutá-la. Ela, de certa forma, se dá interpretada. Burguesia é sim uma produção que critica diretamente uma classe social/econômica, mas vai mais além, ela toca como queremos ser a própria burguesia cotidianamente, dia após dia. Ela nos chama a uma reflexão muito além de Cazuza e seu jeito de ser, exagerado, como diria ele em outra música. Ele nos convida para a reflexão, para pensarmos como vivemos em um mundo de ilusão, um mundo de "cabelos de boneca", onde tudo fica no parecer, não tange o ser - ou tenta-se naturalizar o parecer para que se torne o ser.

4. Cazuza - O tempo não para

Ainda com Cazuza, esta música já nos convida para uma reflexão ainda mais pertinente e contundente. O título já é autoexplicativo: "o tempo não para", isto é, não há nada que deixará tudo como está neste momento. A própria imagem da "piscina cheia de ratos", como algo a ser tratado e que é dissimulado, de certa maneira (já apresentado pela música Burguesia), se complementa como tudo está desencontrado em um jogo de pareceres sem os seres, sem a humanidade, pois as próprias "ideias não correspondem aos fatos". É uma chamada grandiosa, para a própria atenção do que somos e como estamos. Mais, para dizer que há um paradoxo entre o que pensamos e como agimos, e isso não pode acontecer, pois, quando alguém defende um ideal, uma ideia, uma ideologia, suas ações são consequência daquele jeito de pensar, daquela forma de ideologia, etc. Ao se contradizerem, você automaticamente anula todo o valor como ser pensante e ideológico, como produtor de ideias. Aliás, a contradição, o paradoxo, nada mais é do que uma exteriorização da própria mentira, da própria falsidade, que o o tempo nunca permitirá permanecer impune.

5. Legião Urbana - Faroeste caboclo

Não cito esta música pelo simples fato de ter quase dez minutos, ser uma das mais belas criadas em língua portuguesa, etc. Ela aparece na lista pelo simples fato de suscitar a discussão como temos escolhas, e nossas escolhas se espraiam para as vidas de outras pessoas. João de Santo Cristo nasceu pobre, em um local sem muitos recursos, mas cresceu com ódio. O ódio dele se torna um problema, ele se torna um problema. Não há, de forma alguma, uma justificativa pertinente, mas o próprio desvio se concretiza em ações ilegais no futuro, inclusive na morte dele mesmo. Os atos, os caminhos tortuosos, tudo sempre se mostrava paralelamente ao amor por Maria Lúcia, deixando claro que o amor seria o meio de salvação.

Longe de ser romântico, o contraponto amor x ilegalidade se mostram nas atitudes e, inclusive, na vida que nosso protagonista leva. A tranquilidade, também ligada ao sentimento redentor, vem em momentos de proximidade para com ela. Porém, as atitudes mal pensadas ou apenas focadas em ganho de dinheiro, de poder, nada mais são do que meios que terão consequências posteriores, a tal ponto que o filho de sua amada não seria dele, mas do arqui-rival Jeremias.

6. Gabriel, o pensador - Cachimbo da paz

Quando pensei na lista, esta música surgiu em meio a tantas outras listas do Youtube. E veio bem a calhar, porque ela aponta para duas ótimas reflexões: a da questão das drogas, da hipocrisia em relação a seu uso; e à questão que tange a violência em relação aos "diferentes" de nós.

Em relação à ilegalidade das drogas, se vê a hipocrisia na própria questão do consumo por parte de todos, no prazer em tal uso, mas que é freado pelas leis, por leis que, anos após o lançamento da música, se pode dizer que são para manter uma moral ilusória, mais do que proteção real. O índio retorna com mais cachimbo da paz, mas é preso por isso. E mais, é preso junto com outros tão perigosos, violentos, etc. E mais: o que é droga? Há o comparativo com o cigarro, e o que realmente faz bem ou faz mal? E mais: há proibição de uns e não de outros por qual motivo? Se dá lucro, é permitido? Se é a bebida que causou o atropelamento "do padre e dos noivos na porta da igreja", que permitiu esfaquear "por não fazer fiado"?

Ainda, tratando da violência, a própria questão de aonde pararemos? Estamos "presos atrás das grades", mas de grades que são desejadas por nós mesmos. Temos medo, medo do diferente, medo de algo que nem sabemos se realmente existe. A morte do índio mostra bem isso. Ele foi "sorteado", morto por causa de uma grande superlotação, de algo que promete a melhora e não melhora. No fim, a conclusão é bem óbvia: "Essa tribo é atrasada demais / Eles querem acabar com a violência / Mas a paz é contra a lei / E a lei é contra a paz".

7. Legião Urbana - Pais e filhos

Esta música surge como um alerta: o que nós fazemos com nossos dias? O que queremos diariamente? E tudo aquilo que sentimos, desejamos, revelamos? Contamos como a outra pessoa nos é especial? Ou deixaremos que o tempo passe (e ele vai passar!) e ficaremos depois remoendo o que perdemos? E mais: qual a relação com nossos pais? Como os encararemos dentro de alguns anos? Ou não encararemos, esperaremos que estejam em um velório para haver uma despedida?

Não podemos deixar para depois o que podemos fazer agora. Se reclamamos que não nos entendem, o que fazemos para que sejamos entendidos? E mais: nós estamos dispostos a compreendermos aos outros? Uma pequena atitude, uma ação mínima pode mudar o seu dia, o meu dia, o nosso dia. E evitar que nossos arrependimentos sejam grandes futuramente.

8. Depeche Mode - Enjoy the silence

Seguindo na lista, eis um convite para nos aproveitarmos. Aproveitar o silêncio, o momento conosco mesmos. E muito raro. Raro em um mundo barulhento, cheio de buzinas, músicas altas, sons ensurdecedores, que nos tiram o direito de permanecermos dentro de nós mesmos, de atingirmos nossas profundezas da alma para entendermos o que realmente sentimos e vivemos. Muitas agonias, a fuga em si do mundo, se dão pelo fato de não nos escutarmos. De não desejarmos o silêncio nosso. Sim, muitas vezes ele será perturbador: se deparar consigo é o mesmo que encarar o que você é, sem dissimulações, sem máscaras. Veremos nossas falhas, nossos sofrimentos, nossas frustrações. Mas veremos a força que temos, sentiremos a essência do que somos de verdade. Afinal, "Tudo que eu quero / Tudo que eu preciso / Está aqui, em meus braços".

9. Laurent Wolf - No stress

E, quando não encaramos nosso silêncio, quando não paramos e aproveitamos um pouco a vida de verdade, como queremos, sem as obrigações sociais, mascaradas diariamente, eis que o limite vai embora com o famoso stress. Sim, esta música é altamente referencial e importante para nos chamar a atenção de que falta muita vida nos nossos dias. Aceitamos as obrigações com naturalidade, nos forçamos a ser robóticos, produtores de algo que nem bem sabemos o que é, mas tudo tem que ser perfeito. E esta cobrança, esta exigência passa a ser complexa, e ilimitada, nos forçando a coisas que nem sabemos ao certo porque fazemos. E eis que, quando ultrapassamos os limites, nossas almas nos convidam para uma reflexão: explosiva, sim, mas necessária. A pergunta fica no ar: o que você faz para você ser feliz? O mundo do trabalho, o cotidiano, o trânsito, tudo é motivo de reclamação. Reclamação gera frustração. Frustração, desilusão. E tudo isso nos retira de nós mesmos, sofremos e explodimos, somos grossos, rudes, e, muitas vezes, inconsequentes.

10. Eminem - Without me

Esta música aparece aqui como uma praticamente menção honrosa. Without me é de 2002, já completando seus catorze anos de idade. O clipe, da mesma época, se refere diretamente a um jogo pleno de humor e ironias em relação a quadrinhos e séries muito comuns da época. Eminem, fantasiado de Rap-boy, satiriza diretamente o Robin, ajudante do Batman. E não somente isso, a aparição de programas televisivos, os famosos reality shows. E, quando dizemos sobre Eminem e seu humor, muitas vezes escrachado em relação a certos personagens, não podia faltar Elvis Presley em um momento muito bizarro, para permanecer no mínimo do comentário que se pode fazer.

Entretanto, o clipe não entrou por apresentar a sátira ou o Elvis. Ele materializa, quase personifica a vontade atual da presença do humor em tudo e, em certa medida, como não podemos sobreviver sem esta postura. Gostando ou não, politicamente correto ou não (e isso geraria uma discussão mais profunda, que não cabe aqui!), vivemos em momentos humorísticos. Eminem, uma década antes, já nos apresentava a alcunha da sociedade atual "a zueira não tem fim". Discutível, obviamente, mas ele mesmo já a incorporava.

11. Eminem - Lose Yourself

Diferente do que se possa pensar, esta música surge aqui e não no local tratando de criminalidade e como ela encarna diretamente na vida das pessoas que a rodeiam, exatamente pelo fato da violência não ser o motivo principal de sua presença. Com ela, se busca a própria noção do início, antes mesmo da batida começar, que fala sobre oportunidades na vida. A música como um todo é uma descrição de como as dificuldades estão diante de nós, inclusive conseguindo nos paralisar, mas que não porque se ater sempre que for o momento de ir adiante, de prosseguir com os sonhos, de "perder-se a si mesmo" em algo. É, na verdade, para pegar o próprio medo que nos deixa atônitos e usá-lo como alavanca, como uma alavanca para onde queremos tanto seguir. Aliás, ninguém nos prometeu que seria fácil. Mas sempre soubemos que vale muito a pena o esforço para irmos sempre além de nós mesmos.


Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo. .
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