solidão sociável

O uivo do Silêncio e a descoberta humana do verdadeiro Conhecimento

Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo.

As adaptações cinematográficas de obras literárias e seus percalços

Adaptação é a lei natural que propicia a sobrevivência. Quando se adapta, novas perspectivas se apresentam. Se há um livro, as mentes deliciar-se-ão diante de sua leitura. Se há um filme, vê-los-ão com alegria e surpresa. Ambos encantam os olhos, entranham-se por nossos pensamentos e se desfazem em novas ideias. Mas quando um advém do outro, uma epidemia apresenta-se imediatamente: a do crítico de cinema de adaptação.


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Inúmeras adaptações cinematográficas de obras literárias sempre estão presentes em várias salas de cinema de todo o mundo há muitas décadas. Algumas destas obras, aliás, não eram famosas até a sétima arte projetá-las nas telas de vários países. A lista seria infindável, sem sombra de dúvida: Harry Potter (J. K. Rowling), As crônicas de Nárnia (C. S. Lewis), A culpa é das estrelas e Cidade de Papel (John Green), O senhor dos Anéis e O hobbit (J. R. R. Tolkien), The Godfather/O poderoso chefão (Mário Puzo), Academia de Vampiros (Richelle Mead), servindo de base exemplar para a discussão vindoura. Entretanto, existe um termo que assombra muitos fãs de literatura, e até mesmo os fãs de cinema se arrepiam ao escutá-lo pelas ruas: adaptação.

Sim, a boa e velha palavra ecoa pelas mais escabrosas catacumbas das almas de muitos e muitos admiradores de ambas as artes, como uma lendária e muito poderosa maldição: a de romper, a de descartar, a de não ser fielmente transposto do papel para o rolo. Porém, o que é realmente adaptar? E eis a ideia: sairmos do senso comum ao evoca-la em nossas rodas de conversa.

Adaptar, segundo o dicionário Houaiss[1] (Do latim adaptāre) - verbo bitransitivo e pronominal 1. Ajustar(-se), acomodar(-se) ou encaixar(-se) [uma coisa a outra] 2. Modificar (algo) para que se acomode, se ajuste ou se adeque (a uma nova situação, um determinado fim, um meio de comunicação etc.) 3. Tornar ou ser adequado a; acomodar(-se), harmonizar(-se)

Aqui temos um importante ponto de partida: a própria atitude de adaptar, quando posta em prática, já pressupõe uma mudança do novo produto em relação ao original, uma acomodação; isto é, se o roteirista adapta o literário em cinematográfico, tem que estrutura-lo sem que haja todas as informações e conteúdo da literatura. Esta reconfiguração narrativa constitui uma nova maneira de observar o produto, ou melhor, faz-se necessário uma nova base criadora para o que feito saia – e aí sim seja o que chamamos de filme. Alguns me contestariam que acabo de apresentar um argumento óbvio, quase tolo. Todavia, se fosse tão óbvio, por que ainda insistimos em dizer que uma adaptação fílmica sempre apresenta problemas? Por que tantos fãs literários ovacionam certas passagens e apedrejam outras?

Primeiramente, uma possível saída (não a apresento como uma resposta, nem solução, por tratar-se mais de uma proposta ousada): está a avaliação do cinema através da meta-arte. Sim, meta-arte: a arte por si mesma! E como? Dessa forma: analisemos um filme levando em consideração suas características essenciais, suas ferramentas tradicionais; em outras palavras: suas ferramentas convencionais. Decidamos, a partir disto bem observado, chegaremos ao possível êxito ou não. Como forma ilustrativa ao que apresento, tomemos The Godfather/O poderoso chefão, de autoria e direção de Francis Copolla, um dos grandes mestres cinematográficos: logo na primeira cena, Don Vito Corleone (executado pelo grandioso Marlon Brando), tem um gato em seu colo, um gato aparentemente manso e controlado por seus carinhos. Para alguns, um momento de forte simbologia: a demonstração de poder do tranquilo Don, grande chefe da famiglia, da máfia. Uma leitura bem pertinente, aliás. Entretanto, ao recorrermos ao livro, isto inexiste: há a cena em seu aposento de reuniões, com grande descrição representada no filme, sem gato algum.

Ouviríamos vozes gritando heresia! Sim, isso é real, e podemos ver após um grande lançamento de adaptação os vários comentários pelas redes sociais e outros meios cibernéticos. A cena é perfeita, se observada apenas do ponto de vista da produção meta-artística: do filme como filme, do filme pelo filme. Caso não saibam, o gato não foi nem planejado, muito menos posto pelos diretores durante a gravação: Marlon Brando o pegou, enquanto passeava calmamente por entre as câmeras, o colocou em seu colo e ali ficou durante toda a rodagem da cena. Sim, o gato não foi idealizado, muito menos pensado como símbolo de supremacia e poder: foi uma ação do próprio ator, nada mais. O efeito que propiciou foi fantástico – e é nisso que temos que nos ater. Outra característica marcante na própria obra cinematográfica é a presença de laranjas sempre antecedendo mortes no enredo: ao se apresentar o ambiente e, em algum local, houver laranjas, alguma morte estaria encaminhada. Assinatura do diretor nesta obra, ele deixa sua marca, tal qual uma assinatura no rodapé de uma pintura. E não rompe, muito menos destrói a obra original, a escrita por Puzo. Foi feita uma adaptação! Sim, uma nova arte, uma arte que pode – e deve – ser apreciada a partir de sua própria produção, de formato exclusivo, assim como a poesia e a escultura carregam os traços característicos de seus autores. Uma arte que requer vários artistas, aliás: roteirista, diretor, produtor, atores, atrizes, câmeras, pontos de vista, cenário, iluminação, sonoplastia, entre outros.

O segundo aspecto, seguindo tal fio lógico, há um nível de narrativo diferenciado ao se fazer um filme e um livro: a narração, quando apresenta um “eu”, perde o poder quando no cinema. O subjetivismo se entranha como objetivismo, não se perdendo, como se crê, mas se estrutura de outra maneira: em vez de vastas e vastas páginas de pura descrição, um movimento de câmera já supre o ambiente descrito por um longo conjunto de adjetivos e substantivos. O que o personagem sente tem outros modos de serem expressos: a mudança climática, a natureza ao redor refletir seu interior, expressões faciais, etc. Disponho desta pequena divagação exatamente para retomar a discussão inicial: a impossibilidade de se colocar as obras artísticas (literatura e cinema) em uma mesma balança, como equivalentes e, portanto, cabíveis de avaliações e análises com os mesmos olhares.

Por fim, sem um tom real de conclusão, mas sim com um tom provocador, a palavra adaptação soará sempre em grandes planícies da crítica com o teor negativo – ou pelo menos longe de boas intenções. Voltemos à meta-arte: se há tanta vontade de “vampirismo” em vez de adaptação, proponho adaptarem uma escultura para uma poesia. Que as façam idênticas. É impossível. Há, sem dúvida, como elucubrar que um filme adaptado será sempre um objeto novo, um novo trabalho, uma peça nova no mundo das artes. Adaptar será sempre um processo seletivo, minucioso, com acréscimos e perdas, dependente de um artista, estudioso e analista. Nem sempre de boa qualidade, como o exemplo usado acima, mas isso é assunto para outra oportunidade.

[1] Retirado de Houaiss Eletrônico


Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo. .
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