solidão sociável

O uivo do Silêncio e a descoberta humana do verdadeiro Conhecimento

Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo.

O perigo nunca é (e nunca foi) o Voldemort

O real perigo nunca será aquele que vemos, tocamos ou até sentimos diretamente: o perigo verdadeiramente prejudicial é aquele que se estende silenciosamente, como se fosse uma brisa, e que nos pega de surpresa enquanto observamos, fixamente, o que consideramos o problema real.


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Muitos virão e dirão: por que Voldemort não é e nem nunca foi o perigo? É uma pergunta válida, principalmente se tratando do bruxo das trevas mais ardiloso, maligno e temido de todos os tempos. Sua forma de lidar com os problemas era simplista, prática e sem remorsos: era a eliminação daqueles que estavam em seu caminho, de alguma forma, atrapalhando (pelo menos ao modo de ver o mundo dele!). E é algo a ser dado como uma característica especial de nosso vilão de Harry Potter: ele não media esforços para ter o que queria.

Obviamente, não medir esforços para ter o que quer/o que se deseja é muito perigoso. O princípio de qualquer ditador, em qualquer época da História da Humanidade se dá exatamente por isso. E não só: se dá por querer acima de qualquer outro querer. Não importava os meios, o desejo seria realizado. As formas de se obter, de se conquistar o que se almejava realmente era, pela parte desses seres cruéis, totalmente questionáveis. Normalmente, e isso é sim um traço perigoso de qualquer comandante que não tem sua ordem questionada, é o uso da eliminação das vidas como modus operandi do "crescimento" do próprio poder. E sim, Voldemort matava sem nem pestanejar. Sua frieza ia bem além de qualquer sentimentalismo, de qualquer humanidade dentro de si. Entretanto, por que este texto defende que ele não era o perigo em si?

Em tese, Voldemort, sozinho, tinha pouco alcance. Pensemos um pouco: quem ia-e-vinha? Quem trazia os bruxos meio-sangue? Quem fazia as inquisições no Ministério da Magia? Quem declarava quem era "digno" ou não? Quem transportava bruxos até a presença do Lorde das Trevas? Quem se dispunha a caçar, maltratar e prender os fugitivos? Sim, muitos bruxos, menos Voldemort. Voldermort ficava em seu recanto, esperando que fizessem o que mandava. Que aplicassem suas regras deturpadas e oblíquas ao mundo externo. Em sua fortaleza, nada lhe passava, nada lhe acontecia. Pensem: ele eliminava em uma atitude maligna, mas ele, em si, fazia pouco, quase nada. Ele arquitetava, armava e formulava todos os procedimentos. Outros tantos executavam para ele.

O perigo não estava nele em si: estava na obediência de algumas centenas. Estava na ação esguia de sequestro, de perseguição e de transmissão do medo por todos os lados. O mundo bruxo temia um ser, somente, mas um ser que tinha braços e olhos por todos os lados. Seu nome, com o passar do tempo, ganhava poder. Mas um nome, e uma pessoa apenas não fazem uma ditadura. A ditadura é submissão. As mortes, os desaparecimentos, as torturas e inquisições legalizadas nesse período do retorno dele, tudo era justificado pela vontade de um só homem. Mas a execução, a ação não lhe tangia. E é por isso que não era perigoso. Cruel, maligno e ardiloso. Perigoso, apenas em um confronto homem-a-homem. O que não era comum, por não sair quase nunca de sua fortaleza, de sua proteção.

O perigo real estava - e sempre estará - naqueles que obedecem. Independente do motivo que os levam a isso, é a condescendência da situação o que se deve temer de verdade. Aquele que age de uma forma como Voldemort agia era de pouco alcance. O raio de atuação de uma pessoa é muito pequeno. E isso para os pouco poderosos, e até mesmo os muito poderosos. Vide o próprio Dumbledore: detentor de um poder e saber, e se expunha a situações adversas para tentar impedir o avanço dessa onda obscura.

Desta forma, Voldemort nada mais é do que mais um ser que quer agir de uma forma maligna, desumana. Ele, por si só, alcança muito pouco ao seu redor. O grande ponto é quem o apoiava. Seja por qual motivo, os apoiadores executavam, eram a ponte entre a criação do temor e das ações cruéis do Lorde das Trevas. Vemos isso diariamente, em qualquer mídia: pessoas que apoiam ideias tolas, ideias ultrapassadas, preconceituosas; ideias que punem, torturam e matam aqueles que pensam ou se portam diferente. O defensor destas ideias, destas atitudes não é o problema, sua atuação, tal qual Tom Riddle, é pequena: os que o seguem sim, colocam em prática o verdadeiro mal. E isto sim é o grande perigo a ser temido.


Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo. .
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