solidão sociável

O uivo do Silêncio e a descoberta humana do verdadeiro Conhecimento

Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo.

Sing: acertos e desacertos

A proposta do texto é uma breve discussão sobre os acertos e desacertos do filme Sing: Quem Canta Seus Males Espanta, os pontos fortes, e aquilo que é necessário ser discutido.


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Sing: Quem Canta Seus Males Espanta, foi, digamos, um acerto diferenciado da Illumination Studios, criadora de Meu Malvado Favorito e Minions.

Como qualquer obra cinematográfica de animação, o público-alvo seria, em tese, as crianças. E animações são interessantes porque alcançam diversas faixas etárias, principalmente por conta dos responsáveis que levam os mais novos ao cinema. Com data de estreia muito importante, em meio às férias escolares, a aposta foi alta. E, de antemão, que fique claro: o filme é muito legal!

O ponto é que a sétima arte não vive apenas de "ser legal", ou "ser ruim". Há certas condições para o cinema ser o que é, e para grandes públicos serem levados a lotar salas e mais salas. Destes pontos, entretanto, deixaremos alguns tantos de lado e nos focaremos na composição dos personagens.

E por qual motivo é necessário falar sobre isso? Eles vivem em um mundo onde os animais coexistem como em vida humana, com cidades, carros, cantoria, teatros, roubos e trapaças. Eis aí o motivo de fazer este texto: os criadores, evitando certos estereótipos envolvendo humanos, transferem metaforicamente para os animais da mesma forma. Alguns, sem dúvida, são inovadores; outros, por outro lado, são bem complicados e delicados. Vamos aos pontos desacertados inicialmente, para depois falarmos dos acertos.

  1. Desacertos desconcertantes

Durante o filme, nos são apresentados alguns personagens que se tornarão o centro das atenções por todo o enredo. Vemos o dono do teatro, um coala, chamada Buster Moon, um gorila chamada Johnny, uma porca chamada Rosita, e seu parceiro de palco, também um porco, Gunter, e mais duas garotas, sendo a elefanta Meena e a porco-espinho, Ash. Destes, o maior desacerto, está exatamente no jovem Johnny. E por quê?

Bom, com a intenção de fazê-lo ser pianista e cantor no filme, o puseram como um primata. Macaco, em linhas gerais. É um gorila com o bom e velho tipo de adolescente, com jaqueta e tudo mais. Canta, gosta bastante, mas seu pai não se preocupa com isso. E por qual motivo? Bom, assim como seu pai, ele e outros gorilas são ladrões. Sim, bandidos, assaltantes de banco, saqueadores de ouro em embarcações. O desacerto que me incomodou, desde o início, foi exatamente o reforçamento do estereótipo macaco = ladrão. E muitos virão que estou vendo coisas, que estou apenas fazendo o bom e velho "mimimi". Não! Pensem um pouco mais e analisem quão prejudicial é deixar uma figura primata sempre como a representação do ladrão. É mais forte do que se imagina, e tão grave quanto imaginamos.

Obviamente, esta passagem não ofusca a obra. Ela consegue, sim, eclipsar alguns pontos, e pontos que ficam graves e são necessários serem levantados. Há justificativas possíveis, mas justificativas foram usadas para ações horrendas durante a história da Humanidade.

  1. Os acertos

Os acertos, por sua vez, também superam as expectativas. De uma forma oposta ao desacerto (que é grave, repito!), temos alguns pontos interessantes a serem levados em conta.

O primeiro está na própria vida automatizada de uma dona-de-casa. Rosita, a porca, é mãe de vários porquinhos, casada, como uma tradicional mulher de classe média. É a representação perfeita: ela faz tudo em casa, cuida de todos os filhos, se preocupa com cada detalhe, prepara eles para a escola, e ainda tem que lembrar das coisas do marido. A oportunidade, mesmo que equivocada, de sair desse meio, é poderosa. A ideia dela ser tudo isso e ainda cantar muito bem, é onde o filme ganha pontos. Ela, metaforicamente, para dar conta dos ensaios enquanto é a esposa do lar, cria uma máquina-mãe, metaforicamente representativa que as mulheres, nesses papéis, em geral, nada mais são do que máquinas. Obviamente, cruel pensar isso, o que é fato, mas o acerto está em exatamente expôr que máquinas não têm sentimento, e isso é passado através da própria criação e rompido com a sua performance.

Da mesma forma, temos duas personagens bem interessantes somadas ao de Rosita. Ash, a porco-espinho, tem apenas dezesseis anos, uma adolescente que namora outro porco-espinho, ambos da mesma banda. O caso é que o macho a maltratava, e, claramente, ela vivia em uma relação de abuso, infelizmente, bem tradicional. No momento em que ela se depara com todo o sofrimento da separação, a performance dela se torna o "tapa-na-cara" da sociedade: ela fez da própria dor o combustível para seguir em frente.

Na mesma toada, temos também Meena, a elefanta. Como já se mostra, ela é grande, desajeitada, e canta muito bem. Porém, sua timidez, muito provavelmente por conta de sua situação corporal, a faz com que fique sempre muito nervosa e não revele seu verdadeiro talento. Ao que acontece é que, quando canta, realmente é melhor do que todos. A proposta de ser uma personagem fora de padrões, podendo, metaforicamente, se referir às garotas com mais peso, ou também chamadas "plus size", ela mostra que o físico não é a única coisa que importa, pois o talento consegue vencer isso.

Outro acerto, por mais que pareça um tanto cruel, está no fato do rato, um grande cantor, formado e tudo mais, de nome Mike, sofrer perseguições por conta de seu jeito trambiqueiro. Sempre egoísta, ríspido e com palavras duras para com os outros da equipe musical, por mais que aproveite da situação da apresentação, e muitos gostem dele cantando, suas atitudes são pagas com a perseguição de ursos mafiosos, e seu fim fica em aberto, não tendo seu "feliz para sempre". O acerto está exatamente no fato dele agir da forma que queria, mas também sofrer as consequências de seus atos e escolhas.

Por fim, e o mais tradicional em qualquer obra, é a reviravolta com o sonho se realizando. Tirando a parte ilusória que isso carrega, mostra que, se não for feito da maneira correta, qualquer sonho nunca se realizará. O coala, dono do teatro, vive ainda da glória antiga do local, mas esquece da realidade. Quando se depara com o que acontece, o choque de realidade o traz de volta a si. E aí, sem sombra de dúvida, entende o que é ser o chefe do local.

A animação, com uma mensagem bonita, também aponta para maiores discussões. Umas mais tensas, que passam sem serem notadas, como o caso do desacerto citado acima. Sim, é apenas um, mas é grave! Um estereótipo transmitido, não sabemos se propositadamente, mas é reforçado de tal maneira. Não podemos achar que, por se tratar de uma animação, temos que esquecer o que ela pode ensinar, e lidar. Os acertos são grandes, e vemos uma modificação de perspectivas, de horizontes.

Vão, vejam uma ótima obra. Aproveitem, sintam a música. Mas lembrem-se: tudo pode - e deve - ser sempre discutido e colocado em análise. Assimilar as coisas simplesmente é perigoso, principalmente nas eras midiáticas. E não podia ser diferente com o que, principalmente, as crianças irão assistir.


Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo. .
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