solidão sociável

O uivo do Silêncio e a descoberta humana do verdadeiro Conhecimento

Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo.

Você lê o livro, o livro te lê de volta

Os livros são objetos inquietantes no mundo. Deles partem inúmeras histórias, até mesmo muito conhecimento e grandes reflexões sobre o cotidiano. E recorremos a eles como salva-vidas, como aquela boia laranja em embarcações, de uma maneira estranhamente desesperadora para que nos resgate de algo que não sabemos o quê. Ao abri-los, ficamos estupefatos com alguns, irritados com outros. É normal. Achamos que o livro não tem nada a nos oferecer. Aqui, uma inversão: será que não temos os olhos certos para oferecê-los e, por isso, nos incomodam?


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Arte, em geral, serve para tirar o ser humano do seu local de comodismo. Ela está muito além de acalentar as almas, de dar um prazer ímpar. Ao menos, o prazer que vem pelo simples fato de não existir qualquer convite à mudança. Crer neste modo artístico, é como acreditar que o objetivo de grandes empresas automobilísticas seja oferecer automóveis para o público, e não os lucros que ganhará com suas vendas. Entretanto, a discussão não toma estas veredas. Para outro momento, talvez. Para agora, algo mais inquietante nos convida: por que gostamos de determinados livros, sendo capazes de lê-los uma centena de vezes (e isso não é uma hipérbole), e de outros, ao farfalhar da primeira dezena de páginas, ganhar o canto do esquecimento na estante?

Inicialmente, é sempre válido (re)lembrar que todos os seres humanos são movidos, também, por gosto. Gosto, aqui, será entendido como o que nos move para buscar determinado caminho, objeto, ação, etc. Se alguém tem gosto por assistir a musicais, ele frequentará mais musicais do que alguém que tem gosto por ópera, por exemplo. Nenhum é melhor que o outro, que isso fique claro hoje - e para todo o sempre! Pois bem, quando temos o gosto por determinado gênero literário, com muita certeza o teremos em grande quantidade de obras na estante. Para isso, os traços e configurações daquele determinado tipo de literatura são chamativos, te atraem de uma forma quase inexplicável. Portanto, ao entrarmos em uma livraria, faremos um passeio por toda ela, mas sempre estacionaremos nossos olhos e pés bem em frente às prateleiras que comprazem o nosso gosto.

Porém, coloca-se o gosto para ilustrar que é uma das várias faces do problema. Diria que, aliás, é válida somente a quem o tenha, pois não funciona muito bem como parâmetro universal, isto é, gosto não pode servir para argumentar que um livro é melhor que outro, por exemplo. E aí, com esta rápida explanação, inicia a caminhada: o que nos leva à paixão a determinados livros e o ódio mortal a outros? Simples: o livro que você acha que lê, não consegue ler você!

Mas, como assim, o livro não pode ler. Certo, se pensarmos nele como um objeto inanimado, fora de ficções e de universos como a de Alice em seu país maravilhoso. Porém, sim, ao nos depararmos com um livro complexo, de difícil entendimento, ou até mesmo que nos perturbe além da conta, tendemos a deixá-los ali, de lado. Não temos as lentes necessárias para que ambos os lados se leiam. E estas lentes precisam de alguns fatores que nos fogem ao controle. O tempo, por exemplo. O tempo para adquirir mais conhecimento, para estudar mais, ou mesmo para obter maturidade.

A título de exemplo, invoca-se a obra Dom Casmurro, de Machado de Assis. Muitos alunos, quando são obrigados a ler (outra discussão futura a obrigatoriedade e o que isso acarreta), dizem ser um livro complexo, e o entendimento é mínimo. Aliás, muito se escuta que é um livro de um neurótico que não tinha o que fazer. Não cabe aqui o julgamento dos comentários, mas o que eles acarretam: o livro não se identifica naquele que o lê. E isso é um fato: a identificação entre leitor e obra é a mais restrita relação para amor, ou para o ódio. Se não há maturidade para entender que Dom Casmurro é a obra de um ciumento que quer o apoio do leitor, e por isso é uma história cortada, como memórias manipuladas, muito se perde. A leitura é mais que os olhos tocarem as palavras do texto. Leitura é colocar-se a si mesmo a disposição, sem máscaras ou esconderijos. E quando não há onde se esconder, nos desesperamos. Eis o que as obras que odiamos, em si, não têm nada de errado: o problema está no interior.

Por fim, fica a reflexão ainda inacabada. Assim como a perturbação artística, assim como a própria obra literária, nada é perfeitamente acabado. Se nossas lentes não vieram, não se preocupe, elas virão. Virão, obviamente, com o tempo, mas sempre levando em consideração que o esforço pessoal é válido. Os livros estarão aí, esperando leitores de todas as idades, de todos os modos, de todas as etnias, credos, etc. Os gostos, sem dúvida, atuarão neste meandro intenso que é a busca pela próxima leitura. Inclusive o estilo dos autores influenciará nossas decisões. Mas compreenda: um livro incompreendido significa mais do que letras em papéis que não nos atraem, significa que ainda não nos compreendemos para colocar as devidas lentes e, enfim, ambos se lerem - e se entenderem.


Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo. .
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