solidão sociável

O uivo do Silêncio e a descoberta humana do verdadeiro Conhecimento

Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo.

Gungrave: a promessa e o perdão

Antes de iniciar o próprio resumo, que fique claro que há um ALERTA DE SPOILER. O texto tem como foco observar, analisar e situar as questões que envolvem o anime Gungrave, de 2003, seus personagens e, principalmente, o que os movem. No mais, fixar-se em Brandon Heat que, dentre todos eles, desdobra-se e curva-se a duas circunstâncias tão cotidianas quanto a de todos nós: da promessa e do perdão.


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Existem muitos tipos de arte que tratam de situações rotineiras. Não é atual, muito menos nasceu nos tempos ditos modernos: obras literárias, como a Epopeia e a Tragédia, da Grécia antiga, já tratavam de feitos e condições humanas corriqueiras, aos seus moldes. Outros grandes autores, tais como Shakespeare, Calderón de la Barca, Goethe, Machado de Assis, Eça de Queiroz, para me contentar com pouquíssimos exemplos, lidaram com as questões da alma humana muito antes de existir o cinema, as animações gráficas, o computador, e, no caso, os animes.

É por conta de todo este panorama histórico-cultural forte que Gungravese insere como pertinente, relevante e, também, como uma grande obra. Em seus singelos vinte e quatro episódios, embalados por solos de saxofone, rasgados de violino, e um jazz magnífico, oferece uma gama de circunstâncias tipicamente humanas e nos abre as portas para grandes reflexões. Dentre elas, ei-las duas principais: a promessae o perdão.

Em relação à primeira, fica claro, até o último minuto, a manutenção das palavras ainda quando eram, digamos, os arruaceiros do bairro. Há, em níveis distintos, o comprometimento por parte de Brandon Heat para apoiar e ajudar Harry McDowell, e ele o faz a cada dia que passa. Se torna o protetor, um membro da máfia arguto, e ainda, mesmo que calado, transmite confiança e conforto para todos ao redor dele. Quando convidados a integrarem o grupo de eliminação, Brandon se fortalece a cada dia. Harry, também, faz contatos muito poderosos, e aqueles que ali estavam, os de classe mais rasa, o seguem por ter em si um dom de liderança. Literalmente, Brandon é a extensão letal de Harry. É o escudo, é a parte de vanguarda. E morre por isso também. Ao ascender, ao criar todo o caos dentro da máfia, o amigo pensante elimina o amigo calado, pois, mantendo a própria promessa, um protegeria o outro, em todas as circunstâncias, inclusive dele mesmo. Harry dispara contra o olho, estando em andares bem elevados, porque seu melhor amigo e escudo o protegeu dele mesmo. Era uma ascensão para seu declínio. E a queda, metro a metro, é visual e poeticamente descrita com uma leveza de um experto em observação. Ele o protegeu até o fim de sua vida. A promessa da amizade, a promessa de proteção se manteve até o fim.

A promessa, após o retorno de Beyond the Grave, a forma semi-morta do amigo, que busca por vingança, e vai até o fim, até retornarem, ele e o chefe da máfia, e serem perseguidos no bar em que tudo começou. Ali, tendo a situação adversa, Brandon ajuda Harry a resistir contra a investida dos outros acionistas da máfia. O pilar de poder dele sucumbiu com a força da máquina de matar que se tornou após sua morte. Brandon, ou melhor, aquele que voltou da sepultura, elimina todas as grandes bases de força da máfia liderada por aquele que preferia bourbon a scotch. Ballardobard Lee, Bob Pondumax, Bear Walken e Kugashira Bunji, ou aniki. Este último, mais adiante, lembraremos dele com mais apreço. No que tange à promessa de proteção até o fim da vida do sanguinário Harry (Bloody Harry), foi que, independente dos atos anteriores, Brandon tinha em mente, sobrevivendo, quem foram ambos juntos. E cresceram, e se aprimoraram juntos. Sem um, o outro não chegaria onde chegou. E, simultaneamente, desfazendo-se da vingança, a promessa de proteção se torna o perdão. Perdoa o amigo por seus erros, e cumpre seu papel até o fim. Morrem juntos, encerram suas vidas, dão o último suspiro juntos.

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A segunda promessa mantida até o fim é a de amor a Maria. Ele, desde a época do bairro, escutava dela para se cuidar. E se cuidou, e cuidou dos amigos até o fim. Apesar de se amarem, Maria ficou sob a tutela de Big Daddy, o chefe da Millenium, que incorporou Harry e Brandon para seus afazeres. Foi com isso que puderam crescer e aquele se tornou o chefe a todo custo. Brandon, por sua vez, dentre as poucas memórias que tinham, Mika, filha de Big Daddy com Maria, era o elemento que o conectava com este amor nunca rompido, nunca desfeito. A promessa de se cuidar se mantinha, de certa forma, agora transmitida à sua filha. E Beyond the Grave, por sua vez, executa seu segundo ato de perdão: o de proteger a filha da mulher que sempre amou.

É interessante que as outras duas promessas envolvem a Millenium diretamente, mas ao mesmo tempo as relações conquistadas com todos os trabalhos executados ali. Em linhas gerais, envolvem a amizade e o respeito à autoridade, a quem o acolheu. A Big Daddy, que, se casando com Maria, a salvaguarda de todos os problemas da máfia e dos perigos externos; e ao chefe que o recebeu e o ofereceu uma forma de sobrevivência. A promessa de proteger a Milleniun se cumpriu até o instante em que seu amigo assume a liderança. Ele se comprometeu com o amigo, mas também com o chefe assassinado. Não com o novo chefe que o amigo se tornara. E é aí que a promessa feita a Big Daddy se cumpre até o fim. Harry, por sua vez, até imagina que eliminando o mais velho era uma forma de agradecimento pelo que Brandon fizera até então. Ledo engano: por conta disso, o eliminador mais temido da máfia recobra sua responsabilidade e tenta proteger o amigo dele mesmo. Um disparo os separa, mas, como já exposto, apenas por alguns anos.

Outra promessa, esta muito forte também, e talvez a mais chocante, é a com Kugashira Bunji, o aniki. Também eliminador, é discípulo de Brandon, e assume seu papel após sua morte. Ao retornar, por ser o guarda-costas do chefe novo, um confronto entre os dois se inicia. Não pegam leve. Se estouram, se explodem. Bunji perde, em uma cena belíssima: em vez de um fim sanguinário, ele simplesmente termina cumprimentando seu amigo, com um cigarro na boca e simplesmente some. O miado do gato de estimação dele, e o cigarro aceso sem sua presença, determina uma morte muito bem executada. Independente da intensidade, a tranquilidade do fim. A promessa e o perdão no mesmo disparo. Vale o vídeo aqui abaixo.

Por fim, Brandon não rompe com a própria promessa. Ele se dirige, mesmo após morto, para cumprir o que deixou para trás. Mika, como símbolo da continuidade de Maria, é um fator que o impulsiona. Ele cumpre, ele finaliza tudo e jaz ao lado de seu melhor amigo, eliminou os outros amigos que se interpuseram em seu caminho, mas mais para cumprir seus desígnios do que com um certo tipo de ódio. Ele cumpre as promessas ao mesmo tempo que perdoa. Ele executa a própria vida em detrimento de suas responsabilidades. E cria-se, assim, um herói bem exótico, único, interessante: mesmo após a sepultura, está mais vivo do que nunca!

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Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo. .
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