solidão sociável

O uivo do Silêncio e a descoberta humana do verdadeiro Conhecimento

Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo.

O que queremos dizer e não temos coragem: o efeito-Saharah

O texto é uma tentativa de avaliação do fenômeno Sarahah e como escapamos de dizer aquilo que sentimos e pensamos diretamente.


saharah-app.png

O que é bem interessante da tecnologia é que atualmente ela encurtou todo tipo de comunicação, ou até mesmo permitiu contatos que antes (nada além de mais de 15 anos, não no Brasil, pelo menos) era praticamente impossível. A internet com pulso, que era necessário esperar os horários mais baratos (pulso único), como após à meia-noite, ou aos sábados, após às 14h, ou mesmo durante os domingos, livre o dia todo. E não se enganem ao ler isto: era literalmente uma odisseia permanecer conectado por mais de algumas horas diretamente.

Porém, não é este o assunto principal daqui. Eis que, em meio ao turbilhão de aplicativos, sites, e muita informação, surge o Saharah, um aplicativo que, até onde eu conhecia, não se parece com nenhum outro famoso pelas terras tupiniquins.

E do que consiste este aplicativo? Bom, em um resumo bem prático, você cria uma conta, como em qualquer outra mídia social, porém todo tipo de comentário que for feito será de modo anônimo. Isso mesmo: você não saberá quem foi o autor da publicação que chegar até você. Mas, como assim, muitos me perguntarão? Sim, dessa forma mesmo: você espera que alguém fale algo de você, e você não saberá quem o produziu.

Mas vamos com calma. O que tem de interessante neste aplicativo, se não saberemos quem escreveu o quê? Bom, primeiramente, como é muito importante, devemos ver a proposta com qual objetivo se pensou e produziu: os criadores pretendiam com o Saharah facilitar o contato, dentro de empresas e locais de trabalho, criando um canal facilitado para que os membros pudessem se criticar, e apontar os pontos que menos gostavam de seus colegas. Isso, com toda certeza, soa bem estranho. Mas é que, de certa forma, facilitaria para alguém receber críticas sem criar algum tipo de inimizade, ou até mesmo fazer com que não se levasse estes comentários diretamente a algum superior, gerando resultados um tanto mais intensos, inclusive demissões por postura e comprometimento.

A proposta é, por si, muito interessante: eu não gosto da postura de um colega de serviço, posso dizer isso sem me comprometer e criar algum tipo de mal-estar entre nós dois. E outra: abre-se um canal para que pessoas possam escutar críticas, o que, em muitos casos, nós não consideramos que estamos fazendo algo de modo ruim, ou mesmo que uma atitude nossa não gere algum tipo de desconforto em outrem.

É exatamente aí que, a meu ver, o aplicativo pode gerar implicações negativas: com a proposta de criticar, pode-se escrever o que bem entender, e não criticar de forma positiva, para uma mudança sadia do ambiente, mas através de ofensas. Talvez, com a minha ignorância inicial sobre o Saharah, algo no logaritmo dele impeça algum tipo de ofensa, ou palavra tida como ofensiva. Porém, é difícil prever e escalonar até onde se limita o uso como o desejado pela proposta.

Muitos dirão: mas e se não quiserem usar "direito", o problema é de quem só sabe ofender e xingar, não do aplicativo. A resposta viria com uma afirmação, mas eis que surge um segundo ponto que, em verdade, impulsionou a escrita do texto: quando seremos, realmente, honestos uns com os outros, sem a preocupação de máscaras? Talvez, e é um talvez que pode, sim, carregar um equívoco, por se tratar de algo muito novo, o aplicativo gere ainda mais a dissimulação vista na internet, em que pessoas se "protegem" por fakes, atacando outras e se valendo de uma sensação de intangibilidade gerada pelas mídias permitirem criação de contas falsas. A destilação de preconceitos, e o simples fato de alguém ser negro, e eu me valer de um Saharah para alimentar ainda mais o preconceito interno, tendo a sensação de que é possível ser assim sem ser pego.

E tem mais: o ponto crucial, que talvez possa servir, sim, para algumas pessoas se abrirem, gerando uma coragem não tida nas relações cotidianas, mas criando também uma justificativa para não se arriscar a falar o que sente sobre alguém, por exemplo: podemos estar, de certa forma, oferecendo espaço para que haja comodismos, não daqueles que têm, sim, dificuldade comunicativa e de relacionamentos, mas fazendo com que zonas de conforto se estabeleçam.

É sabido, por fim, que como é um texto em meio a algo muito novo, pode ser facilmente descartado, ou mesmo estar totalmente errado. O texto serve de alerta: que o aplicativo sirva, sim, com o propósito de ajudar a fazer com que pessoas mudem, sejam melhores, em coisas que não se imaginam estar errando, mas que pode gerar uma espécie de nova máscara, substituindo outras mais antigas e conhecidas, sob a forma de uma chuva de memes, ou até mesmo de dissimulações cibernéticas.


Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo. .
Saiba como escrever na obvious.
version 5/s/artes e ideias// //Yan Masetto