solidão sociável

O uivo do Silêncio e a descoberta humana do verdadeiro Conhecimento

Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo.

Qual é a sua média?

O texto visa avaliar o capítulo de Black Mirror, de nome 'Queda Livre', em que as pessoas se avaliam, e todos têm uma média social, em que pode te impedir de entrar em certos locais, ou mesmo te isolar da sociedade por completo.


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Muitas séries estão em alta nos tempos atuais. De diversos temas, de diversas formas, com diversas abordagens, as séries se multiplicam, e seu consumo se deve, principalmente, por fatores de uma nova forma de aquisição de produtos, assim como foi, nos fins da década de 90, a compra de pacotes de tv a cabo.

Entretanto, em vez de fazer uma longa lista, e citar o que cada série tem de bom - ou o que tem de ruim, obviamente, pois nada é perfeito! -, o foco deste texto será um capítulo muito específico, mas muito contundente (e qual não é?): o de nome Queda Livre, episódio 1, da temporada 3, de Black Mirror.

A primeira pergunta, e que considero uma pergunta válida é: por que este capítulo? Há outros até melhores, com coisas a mais para serem ditas. E a resposta é bem simples e direta: é exatamente por não o considerarmos um dos melhores, que ele é, em verdade, mais contundente. Queda Livre se inicia com uma manhã de uma mulher, Lacie, comum, em um mundo totalmente trivial, em que as pessoas tomam café em cafeterias, publicam fotos daquilo que comem, e que dão notas para as outras pessoas. Oi? Dão notas para outras pessoas, e estas notas geram médias, e estas médias são visíveis através dos celulares. Ah, é bem legal, poxa, pessoas podem saber como você é, como você age, como você lida com seu cotidiano, e a sua média decreta bem que você merece ter tal nota.

Porém, vamos com calma. Lacie é trivial, uma 4,2. Poxa, 4,2 em 5,0, está quase lá. O sistema, por sua vez, não contabiliza as notas de maneira direta, mas depende a média de quem te avaliou, a sua nota não sobe tanto. A ideia é, o que vai acontecer posteriormente, que pessoas de média acima da sua precisam te avaliar positivamente, pois aí sim haverá uma subida. Ok, vão me perguntar, que problema tem isso?

Bom, o problema é, assim como qualquer outro capítulo em Black Mirror, há uma reviravolta que faz com que a personagem-protagonista entre em um quadro profundo de problemas. E Lacie, que consegue retomar contato com uma garota da época de infância, que vai casar, que é de média mais elevada que ela, e que chama a nossa protagonista para ser a dama-de-honra. Ótimo, não? Exato, muito bom para ela.

Até que ela vai ao aeroporto, com seu 4,1, pois tomou uma avaliação negativa saindo de casa, e, por conta do voo ter sido cancelado, ela altera o tom de voz, chega a ofender a atendente, e sofre uma punição: perde 1 ponto de média, e com esta punição, cada avaliação seria mais grave.

Mas ok, ia durar apenas 24 horas. E foi, com um carro bem ruim, pois sua nova média, abaixo de 3, não permitia que ela alugasse um bom automóvel. Foi, e continuou dirigindo, até chegar o momento de recarregar o carro. E, por ser um carro muito antigo, não pôde recarregar. E a sua média só caindo.

Resolveu continuar a pé, na estrada, e começou a tomar avaliações negativas simplesmente por estar abaixo de 3. Pelo simples fato de ser uma mulher com uma média abaixo de 3! E, deixando a coisa mais intensa, até chegar ao casamento, ela literalmente se coloca em situações que a fazem, além de chegar muito suja, de começar a ofender as pessoas dentro da boda. E, obviamente, sua nota foi a 0!

Aí vem a redenção do capítulo: ela é presa, e perde seu celular, e perde sua capacidade de avaliar. Não será mais avaliada. Mas ela agora está livre. Ela se libertou da falsidade toda que são as notas. Ela ofende muito o outro detento, sem o medo de ser avaliado negativamente. Desta forma, Lacie passa a ser alguém natural, nada robótico, não vivendo em um mundo cor de rosa, uma referência do local em que ela chega a alugar, e o que gera esta ganância pelo ganho de uma média maior.

E por que o capítulo que é meio trivial ser interessante? Estamos, mesmo que não haja nenhum tipo de aplicativo ou capacidade de aparecer em nossas cabeças nossas médias, avaliando, o tempo todo, os outros. Pensamos quem pode entrar em shoppings, pensamos de que forma alguém tem que se vestir para uma balada, ou até mesmo de como é a roupa perfeita para se fazer qualquer coisa. Julgamentos são comuns, e estes julgamentos causam uma esfera de falsidade, uma esfera de algo que não é real, para agradarmos outras pessoas. Esquecemos de nós mesmos, deixamos de lado o que queremos, em prol daquilo que vão achar, da nota que vão nos dar.

Vivemos em sociedade, e isso demanda seguir regras coletivas, mas a preocupação doentia em pensar o que vão pensar de você, é este o cerne do capítulo: mesmo sem termos um celular e notas flutuantes, sim, vivemos sob este julgo, sob a condição de avaliação alheia. E queremos postar, queremos que as pessoas vejam que somos "melhores". E realmente somos melhores dessa forma? A resposta está bem além da tela do computador, ou qualquer outra tela...


Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo. .
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