solidão sociável

O uivo do Silêncio e a descoberta humana do verdadeiro Conhecimento

Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo.

Questão de exclusão

A proposta do texto é perpassar por pontos mais específicos, embora amplos para a dimensão de um texto. Tentar canalizar algumas ideias, expô-las de forma a chegar a conclusões breves e diretas no fim de cada ideia: se é fator de exclusão, ou se desta maneira, não afeta negativamente as pessoas. É uma proposta diferente, talvez que ninguém, até onde chega meu conhecimento sobre os escritos e falas, pois nunca falam se é bom ou ruim, mas se os alunos são culpados, ou problemáticos, ou se os professores são aqueles a quem devemos culpabilizar por esta desordem.


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Após tantos dias, semans e meses escutando, vendo e lendo sobre a temática de pós-graduação, problemas psicológicos derivados desta fase, e até mesmo de circunstâncias de assédio moral por parte daqueles que, em tese, recebem o título de orientadores, mas que fazem a vez dos que mais desorientam o dia a dia, eu me prontifico a colocar aqui uma nova voz, uma nova postura, tendo já analisado e requentado algumas coisas que me incomodam, tanto na própria academia, quanto em relação aos alunos que nela se encontram.

A proposta do texto é perpassar por pontos mais específicos, embora amplos para a dimensão de um texto. Tentar canalizar algumas ideias, expô-las de forma a chegar a conclusões breves e diretas no fim de cada ideia: se é fator de exclusão, ou se desta maneira, não afeta negativamente as pessoas. É uma proposta diferente, talvez que ninguém, até onde chega meu conhecimento sobre os escritos e falas, pois nunca falam se é bom ou ruim, mas se os alunos são culpados, ou problemáticos, ou se os professores são aqueles a quem devemos culpabilizar por esta desordem.

Inicialmente, há a questão de orientadores que não estão presentes. A ausência do elemento que (deve) servir como o primeiro e mais forte feedback no período de sua pesquisa é muito grave, principalmente porque, além de um abandono declarado, há a cobrança quando ele retorna, cobrança esta vinculada a prazos, datas limites, e até mesmo de uma produção/desenvolvimento da pesquisa em espaços de tempo improváveis e (até) impossíveis. Com este tipo de situação, o aluno se vê, além de solitário, em um dilema: pulo fora ou fico até o fim, porque, "ah, dois anos passam rapidamente"? Existe um perigo, e uma certa recorrência em relação a este tipo de atitude, muito comum, posta em prática como se fosse uma tradição. O risco está em vários pontos, tais quais a própria pesquisa não ser de valia para a ampliação do conhecimento humano, o desenvolvimento de vínculos acadêmicos por parte de todos os integrantes da pesquisa, e o desenvolvimento de distúrbios psicológicos que podem vir a trazer problemas para bem além do período da pós-graduação.

Da mesma forma, o professor ausente pode, sim, ter suas justificativas. Sabe-se, e se alguém tem contato mais próximo com algum docente, sabe a quantidade de afazeres todos são obrigados a terem, o que gera, de maneira bem simples de dizer, uma sobrecarga que eles mesmos não suportam. Dessa forma, dentre as obrigações adquiridas, a orientação é uma delas, e uma que fica defasada, tal qual outras mais. Uma pessoa que entra na pós-graduação, por mais estudiosa ou capacitada, ela ainda tem inexperiências que o orientador contribuiria para o desenvolvimento. Com isso, e somado a ministrar disciplinas, assumir cargos oficiais como os de coordenação, gerir trabalhos, publicar, dar pareceres, e tudo isso vinculado ao tempo de orientação, o professor realmente não faz nada muito bem. Com essa sobrecarga nítida, e com a falta de feedback por parte do aluno, a pesquisa falha. A falência se encontra no processo. Processo que força o professor a ser uma máquina, processo que faz do aluno se realizar sem saber como fazer. Sem muita dificuldade, a conclusão desta parte é bem simples: EXCLUSÃO! Ambos sofrem, e as consequências se espraiam para além desta relação claudicante. Ambos falham. E muitos iniciam um movimento de exclusão: por parte do professor, que não está presente, ou da presença de alunos interessados em pesquisar. Exclusão.

Muitos me questionarão neste momento: "e aqueles que deliberadamente não fazem nada, não orientam porque, sim, não querem ter o trabalho"? A resposta é bem simples, pelo menos ao meu ver: denúncia. Outro questionamento vem na esteira bem rápida: "os departamentos, programas protegem esses caras, e o que fazer"? Creio que havendo uma recorrência de denúncias, fica inviável defender por muito tempo. Pode ver que os grandes figurões que passam por este tipo de mimo são aqueles que nunca fizeram, que todos deixaram de lado. A academia tem que ser de um pensamento coletivo e de apoio mútuo, não de segregação e cisão. Por isso, pode não ter servido diretamente a você, mas vai ano, vem ano, os resultados virão. Seres assim não merecem o nome de professores, muito menos de orientadores. Se querem reave-los, que mudem sua postura, seu comportamento. O desgaste do escudo também é uma obrigação para que a pesquisa fique melhor: se não o que sempre teremos é mais do mesmo, e cada vez menos desenvolvimento científico.

Após esta incursão, penso eu que vale, também, ressaltar outro ponto forte: a questão de maturidade na pós-graduação. Dizer que os alunos que ingressam neste nível são imaturos, estão acostumados ao mimimi e sempre que recebem algum tipo de cobrança, reagem de forma adversa, é destilar um preconceito de que só os fortes devem seguir, isto é, é dizer que há um processo de seleção natural, sendo que o próprio sistema não é algo natural, apesar de parecer, e parecer muito. Por isso, ouvir que alguém defende que aqueles que não aguentam cobranças, prazos, etc, devam sair, ou nem tentar, é o mesmo que falar, de maneira bem escamoteada, que a pós-graduação é só para alguns, seletos, e isso reforça a antiga mentalidade, em um processo quase profético, de que os que ali estão são superiores. Basta ver, por exemplo, que os argumentadores a favor deste darwinismo acadêmico, em muitas vezes, fazem mais do mesmo. Alguns até saem da zona de conforto, mas sempre se rendem a ela. É este o ponto: desmerecer o outro, seja por qual motivo for, é fruto - e resultado - de EXCLUSÃO.

Ainda na esteira da maturidade, eu concordo, sim, que há alguns ingressantes, principalmente, que se surpreendem com as cobranças da pós-graduação. Sem entrar no mérito que alguns professores exigem mais, e algumas vezes, exigem de maneira descabida, ou melhor, com uma intensidade que vai além do bom senso, muitos estudantes interpretam a pós-graduação como um momento de apenas efetuar leituras novas, ou fazer disciplinas diferentes, e o que não contamos - ou que eles fingem não escutar, pode ser -, é que tudo isso acontece ao mesmo tempo. A divisão de tempo é, por si só, de extrema importância, e se não nos ensinaram, ou nos exigiram tanto anteriormente, concordo que parte da considerada imaturidade também tem uma resolução processual: para muitos, não se cobrar algo equivale a não desenvolver certo comportamento. Se tudo foi mais brando, e, ao galgar o nível, muda-se, obviamente isso causa um espanto. A pós-graduação, diferente do que se imagina, não tem muitas diferenças com a graduação. Mas há, sim, uma aura complexa de superioridade. As aulas, idênticas em conteúdo e dinamicidade, são ofertadas e ministradas com verborragias. A imaturidade, existente, não gera tantos mimimis como se imagina, mas gera uma confusão e desencontro. Por conta de não haver redes de apoio entre os estudantes, veteranos e ingressantes, e até mesmo por parte dos professores, com as famosas ilhas teóricas, gera-se uma sensação de que é natural se isolar. E isolamento é: EXCLUSÃO!

Por fim, de maneira mais direta, após tantas palavras, sinto-se impelido a concluir de uma forma mais padrão: para as questões que envolvem estudantes, grupos que ofereçam apoio mútuo, e até a busca de ajuda psicológica, em casos mais graves, é algo a ser reforçado, alicerçado e incentivado. A busca por ajuda não te faz um perdedor ou um incapaz: te ajuda, nada além. Se não há essa ideia de que a ajuda é positiva, ao invés de algo obscuro de "não conseguiu suportar a pressão", tenderemos a ter mais pesquisadores frustrados, e futuros estudantes não desejarão seguir este caminho, por percebê-lo não como um meio de ganho pessoal, de conhecimento para o todo, mas sim de um sofrimento e segregação. No que tange aos docentes, por não ser da classe, fica um apelo: que visualizem o fator humano. Não precisamos de orientadores que saibam de nossas vidas pessoais, mas também não precisamos de professores que esquecem que, acima de tudo, os discentes, e a classe dele também, são humanos.

É importante ressaltar que, sem uma flexibilização de certos conceitos, e uma mudança de pensamento, a pós-graduação, mais que a graduação, será segregatória. As aparências de que se assume fortemente este momento acadêmico como receptivo e belo, se apaga ao vivenciá-lo. A ausência de apoio, seja acadêmico, científico, ou mesmo psicológico, levam muitos ao sofrimento. A pós-graduação não precisa, acima de tudo, de gerar sofrimento: prazos são bons, a cobrança, da mesma forma, nos retira o melhor. O problema está na intensidade descabida. E quando não se preocupa com o que o outro, minimamente, passa, não se preocupa com o futuro, e quando não há o interesse com o que virá, automaticamente criamos um ciclo vicioso, cada dia mais forte, de exclusão.


Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo. .
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