solidão sociável

O uivo do Silêncio e a descoberta humana do verdadeiro Conhecimento

Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo.

Vash ou como não julgar alguém pela aparência

É sempre bom lembrar que, quando há um texto analisando os personagens, spoilers aparecerão. Porém, não achem que são spoilers profundos: a pretensão do texto é exatamente este, não acreditar na primeira impressão tão facilmente. E em Trigun, isso é ainda mais complicado.


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Em muitos momentos da vida, as pessoas nos reforçam a ideia de que não podemos julgar as outras simplesmente pela aparência. Em muitos casos, por exemplo, pessoas com estatura franzina eram tão fortes quanto pessoas muito mais encorpadas. Em outros momentos, uma aparência mais frágil escondia um grande lutador. E poderemos ficar aqui por séculos, dando exemplos e mais exemplos de julgamentos equivocados. O ponto é um pouco diferente: discutiremos sobre Trigun, o anime em que Vash, the stampede, é protagonista.

Acompanhamos duas personagens, de uma seguradora, que estão atrás do homem mais perigoso do mundo: Vash, the stampede, o homem de 6 bilhões. Elas querem fazer uma apólice em que não pese mais para sua empresa as destruições causadas por este homem, o Furacão Humano. O que sabiam era que o procurado tem cabelo loiro e usa roupa vermelha, nada além. Durante muito tempo, elas caminham ao lado de um bem humorado e, também, bem fanfarrão homem, desajeitado, galanteador e que nunca perdia a piada.

Entretanto, eis a primeira parada para observação: o bom moço que encontram nada mais é do que o grande procurado. Estavam frente à frente de Vash, porém, este Vash não era, nem de perto, próximo ao monstro que era falado por todos. E é um fato: além de ser bem humorado, é amigo de todos, sociável, e sempre da paz. Não quer confusão, foge da destruição. A contradição, obviamente, é nítida, e ambas as nossas garotas da seguradora se questionam muito se realmente encontraram o furacão humano.

Outros tantos dias passam, e em uma viagem se encontram com um padre, que anda com uma grande cruz nas costas. Nicolas D. Wolfwood, dizia que peregrinava para angariar fundos para sua igreja e os órfãos que cuidavam na diocese. Um homem de boa feição, muito bem humorado, porém direto. Em meio à confusão daquele momento, se mostra bem mais do que um mero padre: ele se revela como um mercenário. Mercenarismo, sim, para ajudar quem ele disse antes, mas ainda mercenário. O segundo momento que Trigun nos oferece para repensar: estamos empatizados com dois seres destruidores e habilidosos, temidos, e até cruéis, se pensarmos em suas capacidades. Não conseguimos, porém, dizer que nem Vash, nem Wolfwood, são pessoas de coração ruim, ou mesmo, que sejam inatamente maus.

Os ares mudam com os ataques constantes a Vash por mando de seu irmão, Knives. É interessante que, aqui, na história, há um flashback, que nos mostra que ambos são seres advindos de outro planeta, isto é, alienígenas. Porém, Vash, desde mais jovem, era simpatizante da ideia de saberem lidar com a espécie diferente, enquanto Knives já dá sinais de que, se aquela raça viajava pelo Universo porque causaram mal a seu planeta natal, por que não fariam o mesmo em outro? E, por conta disso, Knives pretendia eliminá-los, pouco a pouco, um após o outro. Em meio a uma grande confusão, os dois irmãos vêm até este planeta, em que se passa a história do anime, porém se dividem por muitos anos. A motivação de Knives é, e permanece mais forte, aliás, a sua superiodade; Vash, por sua vez, fica ainda mais posicionado a conviver pacificamente.

E é aí que, com os ataques constantes, Vash mostra uma nova face: a de um guerreiro incansável, duro de eliminar, ou mesmo ferir. Havia dado sinais anteriores, verdade, mas ainda não eram com a seriedade com que ele encara um a um. Em vários momentos, não se reconhece mais o Vash animado, tranquilo e sorridente. Era como se o monstro, o Furacão Humano, fosse uma besta e tivesse fugido de seu confinamento. Novamente, nos deparamos com a questão da impressão: se antes o grande procurado era diferentemente estranho do que se imaginava, após se conviver tanto tempo com ele, vê-lo agressivo, de feições sérias, era como repensar cada segundo visto até então.

E isso se prolonga até o desafio contra Wolfwood. Por conta de sua posição em aquisição financeira, o padre aceita a proposta de Knives de caçar Vash. É um capítulo intenso, pois ambos dialogam bastante. Aceitam que não havia retorno, não havia escolha. Ambos eram habilidosos, e sabiam que um não sairia da luta vivo. E, de fato, quase nenhum saiu. A morte de Wolfwood, afastado, como um lobo, apoiado em sua cruz, criando uma sombra redentora, simplesmente pedindo perdão, dentro de uma igreja, mostra que, mesmo como um assassino, seu coração não era tomado pelo mal como um todo. A mesma empatia que temos durante toda sua participação é aquela com a qual nos deparamos com sua morte. A comparação deste episódio é o mesmo daqueles com as mortes de Hughes, em Fullmetal Alchemist (os dois), e de Kungashira Bunji, em Gungrave.

No fim, durante o duelo contra Knives, com tudo que já havia passado e sofrido até ali, Vash opta por mostrar que nunca, em verdade, tinha dentro de si a vontade de destruição. Opta pela resiliência. Mostra-se, enfim, como aquele do início: brincalhão, paspalhão, e muito bem humorado.

Na verdade, dizer de Trigun é muito amplo, e, sem dúvida, há muitos outros personagens que entrariam aqui em uma análise mais refinada. Entretanto, o objetivo era apenas apontar como nos empatizamos por personagens que, muitas vezes, o julgamento pela sua primeira aparição é impossível de não ser desfeita. Vash, Knives, Wolfwood, e também Meryl Striffe e Milly Thompson, todos nos oferecem uma mudança, uma surpresa. E é, sem dúvida, um dos motivos que faz do anime Trigun tão fenomenal.


Yan Masetto

Em busca do equilíbrio fundamental para viver. Escreve para sobreviver, pois com palavras supera os obstáculos cotidianos. Um pouco de louco, somado a um fator imparável para pensar e refletir a vida que rodeia a cada passo. .
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