sombras do dia

Olhares sobre o que resta da palavra dita

Lia Gabriele Regius

Lia Gabriele Regius é tradutora e revisora de textos. Pós-graduada em assessoria linguística, está sempre atenta ao universo da comunicação. É vegetariana, praticamente nômade e adepta da arte de dar nomes literários a animais de estimação.

Sorria: a África passa fome

Com um pouco mais de reflexão sobre o significado do que dizemos, podemos perceber que as palavras de consolo que dirigimos ao outro muitas vezes oferecem um indicativo de nosso grau de indiferença social.


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Não tem mais volta. A sociedade em que vivemos, no Oriente e no Ocidente, está edificada sobre inúmeros comparativos. Muitas das descobertas humanas se deram a partir de comparações. O astrônomo e matemático Edmond Halley, mais conhecido pelo cometa que ele nunca descobriu, é um bom exemplo disso. Comparando dados da população de Londres com a de Paris, ele ergueu a base para estatísticas demográficas. Mais tarde, comparações também foram fundamentais para que ele determinasse que as estrelas fixas não eram fixas, afinal de contas.

O método comparativo funciona para a ciência porque costuma ser empregado no grau comparativo, de igualdade, superioridade ou inferioridade, previsto pela gramática da língua portuguesa. Ele avalia elementos de mesma natureza. Não é isso que vemos no dia a dia, especialmente naquelas situações em que alguém tenta consolar uma pessoa que está passando por uma fase difícil. É comum testemunharmos (ou vivermos) casos em que Tereza ouve que sua amiga Maria está passando por um divórcio difícil. Algumas das “palavras amigas” que Tereza dirige à outra podem incluir um pedido de calma e paciência. Sim, um divórcio pode ser doloroso. Mas nesse exato momento há pessoas com câncer, e isso é muito pior do que uma separação.

Outras mensagens de apoio vão além. Quando alguém perde o emprego, pode ouvir de algum amigo bem-intencionado que isso não é nada. Afinal, há gente passando fome na África. Isso, argumenta o tal amigo, é certamente muito pior do que estar desempregado.

A intenção por trás desse tipo de comparação é, naturalmente, oferecer algum conforto para quem está enfrentando dificuldades. Entretanto, disso nasce uma questão bastante delicada, que nem sempre ocorre a quem emprega tais comparativos. É para isso que serve o sofrimento do mundo? Para nos fazer sentir melhor quanto ao corte de cabelo que não deu certo, o fim de um relacionamento ou um carro roubado?

Voltemos às comparações que serviram de base científica para Halley. O astrônomo comparou estrelas com estrelas, dados demográficos com dados demográficos. Que tipo de semelhança há entre a fome e a solidão? Como comparar a frustração de algo não obtido com uma doença fatal? Qual nossa base ao fazer isso? Sobretudo, qual nossa verdadeira intenção? O curioso é que as comparações com fins de alívio da dor alheia sempre empregam o grau de superioridade. A criança que é mais pobre que você. Aquela minoria social que têm menos direitos do que você. Aquela moça na cadeira de rodas que enfrenta muito mais dificuldades do que você.

Isso remete a um caso real. Em certa cidade, vivia uma jovem mulher que nasceu sem os braços. Vamos chamá-la aqui de Carla. Carla se formou em direito, sendo uma aluna brilhante. Certa vez, ao ser a única da classe a concluir a lição de casa, a professora recriminou os alunos da seguinte forma:

– Que vergonha, turma. Até a Carla fez o trabalho e vocês aí nem...

A estudante sentiu o sangue esquentar.

– Até Carla por quê? – ela quis saber. Mas a resposta nunca veio.

Às vezes, a “infinita piedade social” de alguns passa a impressão de que é alguma coisa bem diversa da empatia. Alguém poderia pensar que essa postura acoberta, na verdade, um sentimento de superioridade. Afinal, somos brancos, não passamos fome e nenhum membro nos falta. Não é um sentimento muito digno de admiração.

Há quem se compare com quem está abaixo de si porque a dor do outro faz com que ele aceite melhor suas próprias derrotas. Não ajuda muito se comparar com quem está acima. Machuca, desanima, não leva adiante. Um aumento de mil reais no salário não se compara de forma confortável aos cinco milhões que Faustão ganha por mês.

Essa autoproclamada empatia pela dor do outro é bem peculiar. Talvez ela se relacione muito mais a não desejar ouvir desabafos do outro do que a uma preocupação genuína. Afinal, se o câncer ou a fome alheia preocupassem tanto essas pessoas, é provável que fizessem algo para ajudar a causa humanitária. Quando não fazem nada, e a esmagadora maioria não faz, uma imagem incômoda começa a se formar no espelho. Talvez a tragédia do outro seja, para alguns, como a cerveja de final de semana, que faz a vida parecer mais divertida.


Lia Gabriele Regius

Lia Gabriele Regius é tradutora e revisora de textos. Pós-graduada em assessoria linguística, está sempre atenta ao universo da comunicação. É vegetariana, praticamente nômade e adepta da arte de dar nomes literários a animais de estimação..
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