sombras do dia

Olhares sobre o que resta da palavra dita

Lia Gabriele Regius

Lia Gabriele Regius é tradutora e revisora de textos. Pós-graduada em assessoria linguística, está sempre atenta ao universo da comunicação. É vegetariana, praticamente nômade e adepta da arte de dar nomes literários a animais de estimação.

Guerra declarada aos leitores

É comum observar desprezo por autores que vendem muito. Mas o que esse desprezo nos diz sobre o respeito pelos leitores? É hora de reavaliar a importância do leitor no processo de publicação.


Recentemente, o escritor Bernardo Carvalho disparou: "Não me interessa se o leitor lê ou não lê; eu quero que se foda. O que eu quero é fazer minha literatura”. Ele estava na 14ª Festa Literária Internacional de Paraty, mais conhecida como Flip.

É natural supor que ele se refere mais à questão de se livrar da obrigação de agradar leitores durante o ato de escrever. E se estivermos certos em nossa suposição, faz certo sentido. Escrever para agradar alguém, ou um determinado público, pode ser bastante limitador para quem escreve.

Acontece que esse pensamento é comum também em outros contextos. Muitos autores reclamam, por exemplo, da abundância de livros lançados por Youtubers. Ou, ainda, da pobreza de obras como “Cinquenta tons de cinza” e “Crepúsculo”. No Brasil, a crítica é ainda mais antiga, tendo como principal alvo o escritor Paulo Coelho.

Entre novos autores, a reclamação é quase unânime. Editoras fecharam suas portas por tempo indefinido a talentos emergentes. Na visão de quem tenta penetrar nesse mercado, grandes nomes como Record e Objetiva só aceitam aqueles títulos que oferecem alguma garantia de venda, ou autores que já contam com alguma relevância para o público.

Tudo indica que sim, essas conclusões são lógicas. O segmento editorial enfrenta uma crise há muito tempo. Talvez ela tenha começado com os ebooks, e a aparente dificuldade das editoras de se adaptarem a eles. Muito disso se deve também ao surgimento de gigantes como a Saraiva e a Cultura e, posteriormente, a Amazon. Mas a crise está aí, e os riscos do novo agora são ainda maiores.

Algo fica bastante difícil de compreender aqui: qual o cenário ideal, porém, para os críticos ferrenhos das editoras? Como eles imaginam que a editora se sustentaria, como pagaria suas contas, se nada do que ela publicasse fosse vendido? Em geral, autores best sellers costumam bancar todo o investimento em novidades. Pode acreditar: eles não são inimigos. São eles que mantêm as editoras em pé, não os livros considerados “literatura de verdade” pelos autoproclamados entendidos.

E assim chegamos a outra variável dessa equação: os leitores. Para muitos, parece mais sensato doutrinar milhões de consumidores de livros em todo o planeta: “compre o livro X, não essa porcaria que você tem nas mãos”. “’A culpa é das estrelas é lixo’, mas tenho aqui um texto que não o interessa, mas você deve preferir.”

Vamos fazer um exercício simples para esclarecer a questão. Tiremos a palavra “literatura” de nosso raciocínio. Em vez dela, você pode usar qualquer outra. Que tal “roupa”? Pensemos em roupas, então. É comum encontrar discussões sobre o quanto está difícil encontrar números maiores em confecções. “Ei, não somos magros! Pare de nos obrigar a ser!” “Não sei como a loja Y insiste em cores berrantes. Nós, os consumidores, já deixamos bem claro que preferimos um pretinho básico.” O que a loja faz? Em geral, ela ouve. Ela quer vender. Ela quer se manter no mercado. Então, encomendará um número maior de peças em tamanho G ou GG. Também fará uma pesquisa para saber quais são as cores mais desejadas, a fim de se adequar ao que o consumidor procura.

Por algum motivo, essa não é a lógica usada por escritores e aspirantes. Se os leitores não consomem a obra de um determinado sujeito, os leitores é que são burros. O ideal seria que meia dúzia de sabichões determinasse o que os leitores devem ou não consumir. O livro pode nem ser bom, afinal: pode ser apenas pretensioso. Mas o público é que não tem o direito de definir quem é bom. Ora, como o público pode ter a audácia de decidir o que o interessa ler? Como pode tentar decidir em qual livro gasta seu dinheiro?

Se para alguém o público é uma parte mínima do processo literário, a publicação nem devia ser tão importante na equação. O livro ficaria muito bem ali, na gaveta, enchendo seu autor de um orgulho mudo. Enquanto isso, as editoras poderiam escolher o produto em cujo sucesso confiam. Os leitores, por sua vez, teriam um final feliz também. Afinal, eles poderiam escolher do que gostam. E essa é a parte mais bonita da coisa. reading.JPG Sempre existiram autores comerciais. Oremos para que continuem existindo. Não só porque são eles que movimentam a indústria do livro. (Está mais do que na hora de encararmos isso como uma indústria, sim: onde não há lucro, não há mercado para ninguém, por mais genial e autossuficiente que um autor se considere.) Oremos pela persistência de um modelo comercial porque há um público que o lê, e outro, ainda mais importante, que acorda para todo o universo literário porque conheceu uma obra irresistível. E comercial, sim, por que não? No dia em que o leitor se tornar uma questão secundária, toda a literatura estará morta. Inclusive, e em especial, a exaltada pelos críticos.


Lia Gabriele Regius

Lia Gabriele Regius é tradutora e revisora de textos. Pós-graduada em assessoria linguística, está sempre atenta ao universo da comunicação. É vegetariana, praticamente nômade e adepta da arte de dar nomes literários a animais de estimação..
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